Finanças

Selic: Banco Central decide hoje o rumo da taxa básica de juros

Mercado espera novo corte de 0,25 ponto percentual, de 14,5% para 14,25%, mas avalia que cessar-fogo no Oriente Médio ainda não muda o cenário

Agência O Globo - 17/06/2026
Selic: Banco Central decide hoje o rumo da taxa básica de juros
Banco Central do Brasil - Foto: Reprodução

O Banco Central (BC) deve anunciar nesta quarta-feira (17) o terceiro corte consecutivo de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, a Selic, durante reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Com a decisão, os juros básicos da economia brasileira devem recuar de 14,5% para 14,25% ao ano.

Foi anunciada uma nova redução na Selic ao mesmo patamar praticado entre julho de 2015 e outubro de 2016, período marcado pela crise política que culminou no impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

Mesmo com o acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã para um novo cessar-fogo no Oriente Médio, analistas financeiros avaliam que o espaço para cortes adicionais na Selic está cada vez mais limitado. Pesam no cenário as dúvidas sobre o ritmo de crescimento da economia brasileira e a percepção de alta mais divulgada da inflação.

Para a reunião desta quarta-feira, conduzida pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, a expectativa majoritária do mercado financeiro é de redução de 0,25 ponto percentual. Segundo pesquisa do Valor Pro, uma queda para 14,25% é esperada por 94 das 112 instituições financeiras consultadas. Outros 18 projetam a manutenção da taxa no nível atual, de 14,5%.

Última reunião

Na última reunião do Copom, em abril, o BC indicou que pretendia dar continuidade ao ciclo de “calibração” dos juros, mas sem detalhar o ritmo nem a extensão dos próximos passos. A cautela foi tomada em meio às incertezas provocadas pela guerra no Oriente Médio, que pressionaram os preços dos combustíveis no mercado internacional, e também diante de dúvidas sobre a velocidade de desaceleração da atividade econômica brasileira — fator considerado essencial para o cumprimento da meta de inflação.

“Mantido o compromisso fundamental de garantia da convergência da inflação à meta dentro do horizonte relevante para a política monetária, o Comitê localizado que a magnitude e a duração do ciclo de confiança serão certas ao longo do tempo, à medida que novas informações foram incorporadas às suas análises”, afirmou o BC na ata do Copom de abril.

“Essa decisão é compatível com o cenário atual, no qual a duração e extensão dos conflitos geopolíticos, assim como sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica e seus efeitos sobre o nível de preços, dificultam a identificação de tendências claras”, completou o Comitê.

Em abril, a projeção oficial do Copom para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) era de 4,6% no final de 2026 e de 3,5% no final de 2027. O último horizonte é o prazo atualmente considerado pelo BC para conduzir a inflação à meta. O alvo é de 3,0%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%.

Expectativas

Agora, a expectativa majoritária entre analistas econômicos é de que a projeção para o fim de 2027 seja suba reduzida, para 3,6%. A estimativa do BC considera a trajetória da Selic apontada pelo Boletim Focus, que passou de 13% para 13,75% no fim de 2026 entre as duas reuniões do Copom, e de 11% para 12% no fim de 2027.

As expectativas de inflação do Focus, por sua vez, seguem mais distantes da meta: 5,30% para este ano e 4,10% para o próximo.

Acordo EUA-Irã não altera quadro, diz economista

Para o economista Leonardo França Costa, do ASA, o anúncio do acordo entre Estados Unidos e Irã não altera a expectativa para a decisão do Copom. Ele avalia que o corte desta quarta-feira, para 14,25%, deve ser o último do ciclo.

Segundo Costa, a interrupção do cenário externo não deve ser revertida rapidamente, diante do aumento da incerteza provocada pelo conflito e das dúvidas sobre a duração do próprio acordo, considerando que os entendimentos anteriores tiveram pouca eficácia.

Além disso, o rompimento da inflação brasileira decorrente de uma eventual queda relevante do petróleo no mercado internacional tende a ser limitado. Isso porque medidas adotadas pelo governo reduziram o repasse às bombas da alta do barril causado pela guerra.

“Ainda que se deva celebrar a possível liberação do Estreito de Ormuz, com impacto relevante para o mercado de petróleo, Petrobras e Governo (via subsídio ou desoneração de imposto) seguraram boa parte do repasse da alta do petróleo aos combustíveis, o que deixa espaço para a inflação se beneficiar de eventual retorno dos preços internacionais”, afirmou Costa, no relatório.

O economista acrescentou que a atividade econômica doméstica e o mercado de trabalho continuam aquecidos, enquanto as expectativas de inflação seguem em tópicos — pontos de atenção para o Banco Central.

"Boa parte desses riscos já era conhecida antes da reunião, que havia optado por seguir via confiança de juros, o que sinalizava, implicitamente, um ciclo curto de cortes. Assim, a volatilidade externa é apenas mais uma fonte de informação num cenário já turbulento", avaliou.