Finanças
Retomada de tarifaço de Trump atingiria 35,2% das exportações brasileiras para os EUA, estima CNI
Levantamento considerou a balança comercial de 2024 e as sobretaxas sugeridas por investigações comerciais do Representante de Comércio dos Estados Unidos
Se o governo Donald Trump avançar com a retomada das sobretaxas sobre exportações brasileiras para os Estados Unidos, 35,2% das vendas do Brasil ao mercado norte-americano, em valor, seriam afetadas. A estimativa consta em estudo divulgado nesta segunda-feira pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Entenda
No início do mês, o escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) divulgou relatório de uma investigação administrativa sobre práticas comerciais do Brasil, aberta em julho de 2025. O procedimento foi motivado por supostas práticas consideradas injustas por Washington, como o favorecimento ao Pix em detrimento da atuação de multinacionais americanas de meios de pagamento e a taxação das importações de etanol.
O que é a Seção 301?
O relatório sugere a aplicação de uma sobretaxa de 25% sobre produtos enviados pelo Brasil aos Estados Unidos, embora apresente uma extensa lista de exceções. A recomendação faz parte do processo de investigação, que ainda está em fase de consultas públicas e terá audiência em Washington. Somente depois dessa etapa a Casa Branca decidirá se acata ou não a sugestão do USTR.
Em paralelo, tramita outra investigação comercial relacionada a alegações de trabalho forçado. Esse processo atinge todos os países, e não apenas o Brasil.
Novo tarifaço nos EUA
Atualmente, boa parte das exportações brasileiras para os Estados Unidos está sujeita a uma tarifa mínima de 10%, imposta em fevereiro com base em uma nova fundamentação jurídica, após a Suprema Corte americana considerar inconstitucional uma parcela relevante do tarifaço.
De acordo com a lista de exceções, alguns bens permanecem isentos. Outros produtos, como aço e derivados, seguem sujeitos a tarifa de 25%, com base em outro dispositivo da Lei de Comércio dos Estados Unidos, a Seção 232.
Para estimar o impacto de uma possível nova taxação de 25%, com base nas investigações comerciais, a CNI considerou os dados da balança comercial de 2024. Naquele ano, antes da volta de Trump ao poder, a relação comercial resultava em superávit para os Estados Unidos, mas as exportações brasileiras também registravam desempenho positivo em comparação com a série histórica.
Já em 2025, as vendas do Brasil ao mercado americano foram fortemente afetadas pelo tarifaço. A decisão da Suprema Corte e a retomada da taxação mínima de 10% representaram, portanto, um alívio para os exportadores neste ano, em comparação com o cenário anterior.
Considerando o cenário de 2024, 31,6% do total exportado pelo Brasil aos Estados Unidos, cerca de US$ 13 bilhões, estariam sujeitos a sobretaxas decorrentes das duas investigações comerciais. Uma parcela menor, de 3,6%, equivalente a aproximadamente US$ 1 bilhão, estaria sujeita apenas às sobretaxas da investigação sobre trabalho forçado.
Alumínio, baterias e algodão
Com esses dois grupos, as exportações brasileiras de 2024 sujeitas a sobretaxa chegariam a 54,1% do total.
Isso ocorre porque 18,9% das vendas, ou cerca de US$ 8 bilhões, seguem sujeitos à tarifa adicional de 25% aplicada aos setores de aço e alumínio. Aço e derivados têm peso relevante na pauta de exportações do Brasil para os Estados Unidos, com multinacionais da indústria siderúrgica utilizando operações combinadas, nas quais unidades brasileiras enviam materiais para finalização em fábricas americanas.
Os mais impactados
Conforme a pauta de exportações de 2024, os produtos mais atingidos, com sobretaxa de 37,5%, seriam:
Ferro gusa não ligado;
Açúcar de cana em forma sólida;
Sebo não comestível;
Álcool etílico não desnaturado;
Molduras de madeira padrão de pinho.
Já os produtos mais impactados por uma sobretaxa de 12,5%, também segundo a pauta de 2024, seriam:
Minério de ferro e concentrados, incluindo pelotas aglomeradas;
Lajes de quartzito;
Óleos essenciais de frutas cítricas de laranja;
Silício;
Pasta de madeira química, sulfato ou soda, em graus para dissolução.
Segundo o levantamento da CNI, considerando as duas investigações comerciais e a taxação setorial sobre aço e alumínio, 45,9% do valor das exportações brasileiras de 2024 aos Estados Unidos, cerca de US$ 19 bilhões, seguiriam sem tarifas adicionais.
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