Finanças
Supermercados do Rio apostam em corredores premium, degustações e experiências gourmet
Redes transformam lojas em vitrines com sommeliers, câmaras frias de cerveja, aulas de culinária ao vivo e produtos importados
Em uma manhã movimentada no Leblon, o cheiro de pão quente divide espaço com o aroma de queijos temperados oferecidos em degustação a quem passa. A poucos quilômetros dali, em Botafogo, um cliente abre a porta de uma câmara fria, encara o termômetro próximo de zero grau e sai com a cerveja geladíssima na mão. Na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, consumidores encontram massas italianas assinadas pela grife de moda Dolce & Gabbana nas gôndolas. As cenas mostram como a gourmetização deixou de ser um detalhe e passou a ocupar lugar de destaque nos supermercados fluminenses.
A aposta das redes está em produtos premium e importados — vinhos, queijos, massas especiais e chocolates belgas — e em serviços antes associados a empórios sofisticados, como sommeliers de plantão, degustações diárias e aulas de culinária ao vivo. Com a popularização desse movimento, o supermercado deixou de ser apenas o local de abastecimento da casa e passou a disputar o papel de destino de consumo e experiência.
Por trás da tendência há uma explicação econômica. Para Fábio Queiróz, presidente da Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj) e da Associação das Américas de Supermercados (Alas), o supermercado ganhou peso no orçamento das famílias e também espaço para pequenas concessões de consumo.
Segundo ele, a ideia é estimular o consumidor a se permitir um pouco mais dentro do mercado, especialmente em um momento em que muitos reduziram gastos em outras áreas, como refeições fora de casa. O setor estima que as classes populares destinem, em média, 60% da renda aos supermercados. Ao mesmo tempo, redes populares têm atraído consumidores de classe média em busca de preços mais competitivos.
— Na renda média, a pessoa não está indo mais tanto ao restaurante. Ela se permite uma refeição caseira melhor — explica Queiróz.
É essa demanda que a gourmetização tenta atender. A reportagem percorreu lojas de cinco redes — Pão de Açúcar, Prezunic, Guanabara, Supermarket e Mundial — e conversou com diretores, gerentes, consultores de vinhos, degustadores e clientes para mapear como cada uma traduz a aposta em serviços, produtos e experiências.
Caverna gelada de cervejas
Nas lojas de Botafogo e do Recreio, o Prezunic transformou a compra de cerveja em uma atração à parte. O cliente entra em uma câmara fria — a Beer Cave, com termômetro próximo de zero grau — e escolhe rótulos já gelados, prontos para o consumo.
A proposta é reproduzir a gôndola do supermercado dentro de uma grande geladeira: a mesma liberdade de escolher na prateleira, mas com os produtos já na temperatura ideal. Além das cervejas — são 50 rótulos especiais, entre nacionais e importados —, a câmara reúne refrigerantes, energéticos, mate, água e alguns vinhos que pedem temperatura mais baixa.
A adega é outro capítulo da gourmetização da rede, com mais de 1.250 rótulos de vinhos, espumantes e uísques, além de sommeliers de plantão. Entre os vinhos importados, o Chile lidera a oferta, seguido por Portugal, Argentina e Itália. Mário Gabriel Silva, que começou como repositor e se tornou consultor de vinhos por meio de processo seletivo interno, diz que o melhor da função é a conversa com a clientela.
— As pessoas que gostam de vinho gostam de conversar sobre isso. Muita coisa eu aprendi aqui também, com os clientes — conta.
Cliente de Copacabana, a esteticista Regina Lewis, de 58 anos, é testemunha do atendimento personalizado. Ela acompanha uma amiga nas compras de vinho e elogia a curadoria.
— Ele é um excelente divulgador. Indica promoções e ainda separa a caixa da bebida — afirma.
A aposta premium também aparece no açougue. Todas as 39 unidades do Prezunic no Estado do Rio oferecem a marca própria de carnes La Hacienda, importada de frigorífico próprio na Argentina. Completam o cardápio diferenciado o Espaço Unic — com vinho na taça, sommelier e refeições à la carte, presente em lojas como Jardim Oceânico e Marapendi — e a linha gourmet Cousine & Co., de azeites, conservas e molhos.
Uma volta ao mundo nas prateleiras
No Guanabara, a gourmetização chegou como uma viagem gastronômica. A rede ampliou o mix premium e importado e hoje oferece o que o diretor de marketing, Albino Pinho, chama de “uma volta ao mundo”: azeites espanhóis e gregos, biscoitos holandeses, peixes portugueses, molhos búlgaros e temperos de diferentes origens.
Os destaques da vez têm assinatura de grife. As gôndolas exibem massas italianas Di Martino assinadas pela marca de luxo Dolce & Gabbana e chocolates belgas Cachet, trazidos com exclusividade para o Rio. Segundo a rede, a marca belga já responde por mais da metade do portfólio de chocolates importados das lojas.
A adega é outro pilar da estratégia. São mais de 500 rótulos de vinhos e espumantes, sendo cerca de 300 exclusivos, importados de países como Uruguai, Portugal, França, Chile e África do Sul.
O espaço passou por renovação sob curadoria do premiado sommelier Dionísio Chaves, com mais de 30 anos de carreira. Os atendentes recebem capacitação para orientar harmonizações com massas, queijos, chocolates e carnes. A experiência também vai além das prateleiras: o Festival de Vinhos e Queijos já passou por unidades como Vila Isabel, Niterói e São Gonçalo.
O mote da rede, segundo Albino Pinho, é tirar o premium do pedestal.
— O nosso diferencial é democratizar o acesso a produtos premium. Queremos que o cliente encontre desde os produtos mais básicos do dia a dia até opções sofisticadas e importadas em um único lugar, com conforto, variedade e preços competitivos — diz.
As ações já estão presentes em quase todas as lojas, da Barra ao Recreio, passando por Tijuca, Campo Grande, Niterói e São Gonçalo.
Degustação que virou rotina diária
No Pão de Açúcar, a vitrine da estratégia está nas provas realizadas dentro da loja. A rede tem 18 unidades no Estado do Rio, e cerca de 80% delas seguem um calendário fixo de degustações de vinhos, queijos, pães e frutas, além de ações pontuais definidas por cada unidade.
Na loja do Leblon, todos os dias há alguma ativação, com um funcionário dedicado exclusivamente à atividade.
— Temos um funcionário dedicado a fazer degustação de produtos. Além da parceria com a indústria e com os fornecedores, são diversos itens: padaria, mercearia, queijos, vinhos, carnes e frios — explica Rogério Werneck, gerente da loja.
Quem comanda a bancada é a degustadora Naftali Pereira da Silva, de 28 anos, que trabalha a partir de um cronograma definido pela unidade. No dia da visita da reportagem, o cardápio incluía pão de calabresa, ceviches variados e um queijo tipo boursin.
— Na verdade, o queijo tipo boursin é um cream cheese temperado que a gente mesmo fabrica na loja — explica Naftali, enquanto monta os pratos. Sobre o balcão, tábuas de frios ficam à disposição de quem deseja experimentar.
A receita conquista a freguesia. A aposentada Marta Sá Rego, de 85 anos, experimentou a degustação pela primeira vez. Aprovou o queijo, elogiou o atendimento e saiu com uma baguete tradicional na sacola.
— Vi pela primeira vez, experimentei, gostei e estou levando o pão — contou.
A unidade mantém ainda um especialista em vinhos, Leonardo Souza da Silva, de 44 anos — quase 30 deles na rede, onde começou como empacotador ainda no tempo do Barateiro. Ele monta a adega, indica rótulos e ajuda a harmonizar as bebidas com os pratos que os clientes pretendem preparar. Nos fins de semana, também conduz degustações de vinhos e espumantes, com apoio das marcas.
— De sexta a domingo, a gente tira um dia para fazer degustação. A degustação chama muito a venda. O cliente nem vem ao mercado com essa intenção, mas prova o vinho e leva — afirma.
Leonardo guarda na agenda o contato de mais de 100 clientes, que são avisados quando chega uma promoção do rótulo preferido.
— Se o senhor tiver uma oferta desse vinho, eu aviso — diz, repetindo o combinado que costuma fazer com a freguesia.
Nas gôndolas, o sortimento confirma a proposta: brie francês, parmesão italiano maturado, presunto cru tipo parma, azeites extravirgem de Portugal e Espanha, massas grano duro, chocolates belgas e suíços e vinhos de pequenos produtores.
A experiência premium também chega à hora do almoço. No espaço de refeições da loja, a nutricionista Cristina Olga Fernandes, de 42 anos, planeja o cardápio, cuida das compras e do controle de qualidade — e conhece a clientela pelo nome.
— Muitos vêm todo dia. Eu sempre sugiro: olha, hoje tem feijoada, tem bobó de camarão, tem massas — conta.
Quem confirma é o engenheiro aposentado Carlos Oliveira, de 80 anos, frequentador do espaço.
— Acho saudável a comida, sempre é reposta, e o preço é legal — avalia.
Cozinha ao vivo e até escova grátis
Na Barra da Tijuca, o Supermarket — operado por grupos diferentes sob a mesma bandeira — apostou em transformar a loja em palco. No Supermarket Barra Blue, do Grupo Torre, o cliente encontra uma cozinha gourmet móvel: um chef prepara pratos ao vivo, compartilha dicas e apresenta os ingredientes antes da degustação.
— Buscamos apresentar ao cliente a história, os atributos e os diferenciais de cada item, criando uma conexão que aumenta a confiança na compra — explica Brenda Larissa Oliveira, diretora de marketing comercial da unidade.
O sortimento reforça a proposta de empório: queijos artesanais como o Canastra Militão e a linha premiada Pardinho, importados como Grana Padano, Parmigiano Reggiano e o cheddar inglês Joseph Heller, frios da Giovanni Ceratti e Villani, além de massas italianas exclusivas, como Pallante, Delverde e Antico Pastificio, e molhos da marca própria Don Mimi.
A unidade vai além da alimentação e oferece até serviço de lavagem e escova de cabelo, dentro do projeto Experiência da Beleza, com horário marcado pela internet e marcas como Elseve e Revlon.
Já o Grupo Barra Oeste, responsável pelas unidades Mandala, Via Parque, Abelardo Bueno e Américas, investe nessa aposta desde 2007, quando inaugurou a loja da Avenida das Américas e passou a dar atenção especial à adega. Hoje, conta com sommelier, chef de gastronomia e nutricionista de plantão, além de jantares temáticos sazonais.
— O objetivo é proporcionar uma experiência consultiva e agregadora aos nossos clientes — diz Marcos Batista, sócio da rede.
Aula de gastronomia no mercado
No Supermercados Mundial, o diferencial são as Masterclass. A rede mantém Espaços Gourmet em quatro filiais — Abelardo Bueno, Jardim Oceânico, Jardim Icaraí, em Niterói, e Cacuia, na Ilha do Governador —, onde oferece aos consumidores encontros mensais com aulas de culinária, palestras, degustações e harmonizações gratuitas.
Cliente frequente e profissional da área, Isabel Alvares saiu animada com a receita apresentada na última sexta-feira, dia 12, pensada para o Dia dos Namorados.
— Como sempre, é maravilhoso, um aprendizado ótimo. Foi uma receita muito fácil, prática. Não só no Dia dos Namorados, como em qualquer ocasião vai ser bem servido e todos vão adorar — elogiou.
Segundo a coordenadora de marketing da rede, Vanessa Leite, a aposta acompanha uma mudança de hábito do consumidor, que passou a enxergar o supermercado também como lugar de descoberta. Todas as lojas têm especialistas nas adegas — alguns com cursos internacionais — e o portfólio premium se concentra em categorias que, nas palavras dela, “se auto gourmetizaram”: cafés, azeites, cervejas, vinhos e até produtos de skin care e rituais capilares. A rede não aposta em marca própria e prefere a importação direta.
— O supermercado deixou de ser apenas um local de abastecimento e passou a ocupar um espaço de inspiração, descoberta e experiência — define Vanessa.
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