Finanças

Importações de pequeno valor disparam após fim da ‘taxa das blusinhas’

Remessas internacionais ao Brasil já vinham crescendo antes da mudança, segundo a Receita Federal

Agência O Globo - 12/06/2026
Importações de pequeno valor disparam após fim da ‘taxa das blusinhas’
- Foto: Reprodução / Agência Brasil

As importações de produtos de pequeno valor dispararam no Brasil após o fim da chamada ‘taxa das blusinhas’. Segundo a Receita Federal, o volume de remessas registrou alta de 50% em maio e de 43% em abril, na comparação com os mesmos meses do ano anterior.

O fim da cobrança foi implementado pelo governo por meio de medida provisória publicada em 12 de maio. No dia seguinte, o imposto federal de 20% deixou de ser cobrado para compras internacionais de até US$ 50. No mês, os dados da Receita indicam que 19,6 milhões de produtos que se enquadrariam na taxação foram recebidos no país, contra 13 milhões em maio de 2025.

Em abril, ainda antes da mudança, a Receita registrou a entrada de 15,7 milhões de remessas internacionais de até US$ 50. No mesmo período do ano passado, foram 10,9 milhões.

A medida provisória também beneficiou compras entre US$ 50 e US$ 3.000, ao ampliar a dedução aplicada sobre o imposto devido, de US$ 20 para US$ 30. Com isso, remessas entre US$ 50 e US$ 100 também foram favorecidas.

De acordo com dados da Receita Federal, nos quatro primeiros meses de 2026, o governo arrecadou R$ 1,78 bilhão em imposto de importação sobre encomendas internacionais. O valor representa alta de 25% em relação ao mesmo período do ano passado, indicando que as compras já vinham em crescimento antes mesmo do fim da taxa.

O debate sobre o tema voltou ao centro das discussões diante do esforço do Palácio do Planalto para ampliar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em meio à maior competitividade da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas.

A possibilidade de zerar totalmente a cobrança era defendida por uma ala do governo com assento no Palácio do Planalto. O argumento é que a mudança precisava ter impacto efetivo nas compras de menor valor e, dessa forma, alcançar principalmente a população de renda mais baixa.

Nos levantamentos internos do Planalto, a ‘taxa das blusinhas’ aparece como um dos principais pontos negativos do governo, ao lado de temas como segurança pública e combate à corrupção. Essas avaliações têm motivado a ala política do governo a rever a medida.

A retomada do debate ocorre em um contexto de pressão sobre o custo de vida e de tentativa do Planalto de melhorar a percepção de renda da população. A discussão ganha força no momento em que o governo também trabalha em medidas para reduzir o custo do crédito e o comprometimento da renda das famílias com dívidas.

O principal receio em relação à redução da taxa era a reação do varejo nacional, que passou a defender a tributação como forma de equilibrar a concorrência com plataformas estrangeiras. Esse discurso levou o Congresso a aprovar a cobrança com apoio de parlamentares da direita à esquerda.

Também há preocupação com o sinal enviado pela política econômica, especialmente no campo fiscal, embora o impacto direto sobre a arrecadação seja limitado, já que o tributo arrecada menos de R$ 2 bilhões.

Criada em 2024

A ‘taxa das blusinhas’ foi criada em 2024. Na ocasião, o varejo nacional reclamava que compras abaixo de US$ 50 chegavam ao Brasil sem cobrança de imposto, muitas vezes declaradas como encomendas pessoais.

Como resposta, foi criado o programa Remessa Conforme, que facilitou o desembaraço aduaneiro das empresas inscritas.

Além do imposto federal, também é necessário pagar o ICMS, cuja alíquota varia de 17% a 20%, a depender do estado.