Finanças

IPO da SpaceX atrai investidores brasileiros e movimenta bancos e corretoras

Instituições criam fundos para diferentes perfis; pequeno investidor poderá acessar BDRs negociados na B3

Agência O Globo - 11/06/2026
IPO da SpaceX atrai investidores brasileiros e movimenta bancos e corretoras
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A aguardada abertura de capital da SpaceX , empresa de foguetes, satélites e inteligência artificial do bilionário Elon Musk, também desperta forte interesse entre os investidores brasileiros. O BTG Pactual, único banco brasileiro a integrar o consórcio de instituições que coordena o IPO — sigla em inglês para oferta inicial de ações —, criou um fundo de retorno a investidores investidores, com mais de R$ 1 milhão aplicado. Na XP, a procura levou à estruturação de um fundo com aporte inicial de R$ 5 mil. Para o pequeno investidor, a alternativa será participar da estreia das ações da SpaceX na Nasdaq por meio de BDRs , recibos negociados na B3 que representam ações emitidas no exterior. Nesse caso, o investimento inicial deve ficar entre R$ 50 e R$ 70, informou a bolsa brasileira.

IPO da SpaceX

Recorde

Pelo BTG, investidores com contato internacional podem tentar acessar diretamente o IPO. Os especialistas, no entanto, alertam que os interessados ​​disputarão espaço com investidores de todo o mundo. Como a demanda superou em dez vezes a oferta, não há garantia de compra dos papéis na largada. Grandes fundos, bancos de investimento, investidores institucionais e clientes privados tendem a ter prioridade na alocação. A expectativa é que até 30% das ações sejam reservadas a investidores individuais.

Outro caminho é a participação em fundos criados pelo BTG, um no Brasil e outro no exterior. No veículo internacional, a aplicação inicial foi definida em US$ 5 mil, cerca de R$ 26 mil. No mercado nacional, o fundo BTG Pactual Reference Moon, com proteção cambial, exige aporte mínimo de R$ 500. A XP estruturou um fundo da família Trend, o XP SS 1, com aplicações a partir de R$ 5 mil, além de um veículo no exterior para clientes com conta internacional. Procuradas, as duas instituições não informaram como há uma demanda por esses produtos.

Corretoras que atendem brasileiros no exterior, como Avenue, Nomad e XP International, também oferecem acesso a papéis da SpaceX e de outras empresas especializadas na Nasdaq, explicam especialistas. Uma alternativa pode ajudar na diversificação do portfólio e na dolarização da carteira. No caso da SpaceX, porém, não há garantia de que o preço obtido seja o mesmo definido no IPO.

— O investidor brasileiro está cada vez mais atento à importância de diversificar globalmente seu patrimônio. Além da proteção cambial, existe o interesse em acessar os mesmos setores que muitas vezes não estão disponíveis da maneira no mercado local — afirma Fabio Cecchi, chefe de desenvolvimento de negócios da ZERO Markets no Brasil, corretora especializada em mercados internacionais, que também fornecerá acesso a assuntos nas ações da SpaceX por meio de parceria com a Levycam Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários (CCTVM).

Cecchi explica que, por meio da infraestrutura da Alpaca — corretora norte-americana autocompensadora e membro da SIPC, responsável pela execução e custódia nos Estados Unidos —, combinada à intermediação local da Levycam CCTVM, o investidor brasileiro poderá enviar condicionais de compra e concorrer à alocação de varejo do IPO pelo preço de oferta, antes da estreia das ações no mercado secundário.

— É o que o mercado costuma chamar de acesso pré-IPO: a possibilidade de participar da etapa primária da distribuição, historicamente reservada a grandes instituições e clientes de alta renda nos Estados Unidos, sujeita à disponibilidade de alocação e ainda acessível ao investidor de varejo brasileiro por meio de uma estrutura regulamentada — observa.

E o pequeno investimento?

Uma alternativa para o pequeno investidor serão os BDRs da SpaceX, que serão disponibilizados pela B3, a Bolsa de Valores brasileira, a partir de sexta-feira, os mesmos dados previstos para o IPO. Os recibos serão negociados no mercado secundário, onde os investidores compram e vendem os papéis entre si. A aplicação inicial deve variar de R$ 50 a R$ 70, dependendo da precificação.

Entenda

O investimento poderá ser feito diretamente pelas plataformas de negociação das corretoras, os chamados home brokers, por meio do código SPCX34 . De acordo com a B3, o processo é semelhante ao de negociação de ações brasileiras, ETFs — fundos com cotas negociadas em bolsa — e outros BDRs disponíveis no mercado local. Não será necessário comprar dólares nem fazer remessa internacional: todo o processo ocorrerá no Brasil, em reais.

Embora a ação da SpaceX no IPO tenha previsão de preço inicial de US$ 135 — cerca de R$ 675, com precificação prevista para esta quinta-feira —, a estrutura do BDR terá paridade de 1 para 15. Isso significa que cada ação da companhia no exterior corresponderá a 15 BDRs negociados na B3. Com isso, será possível acessar os papéis da empresa por valores entre R$ 50 e R$ 70.

Por meio desse instrumento, lembra a B3, o investidor brasileiro pode dolarizar a carteira e diversificar o portfólio com empresas internacionais sem precisar abrir contato fora do país, fazer remessas internacionais ou realizar operações de câmbio. A bolsa brasileira já conta com BDRs de grandes empresas de tecnologia, como Apple, Microsoft, Amazon, Alphabet, Meta, Nvidia e Tesla.

Quais os riscos de gueto

A expectativa é que o IPO da SpaceX capte US$ 75 bilhões. Se confirmado, o valor tornará a oferta de ações da companhia a maior da história, superando os US$ 29 bilhões captados pela Saudi Aramco em 2019. O mercado estima o valor da empresa entre US$ 1,75 trilhão e US$ 2 trilhões.

Maior da cidade

Especialistas em finanças lembram que os BDRs da SpaceX estão sujeitos à variação das ações no exterior, às oscilações do câmbio e à volatilidade do mercado americano. No caso de empresas de tecnologia, as oscilações podem ser ainda mais intensas. Para Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor executivo de estudos e pesquisas da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), o forte interesse pelos papéis da SpaceX pode ter elevado o preço no IPO. Assim, há o risco de o investidor entrar na chamada alta do mercado e ver o valor da ação cair caso as metas prometidas pela empresa não sejam cumpridas.

— Não acho que possa ser um grande tombo, mas essa expectativa elevada em torno das ações da SpaceX pode levar a uma desvalorização dos papéis após o IPO. Quem vender a ação nesse cenário poderá ter perdas, já que pagou caro pelo papel — afirma o especialista.

Pelo tamanho da operação, mecanismos especiais estão sendo adotados pela Nasdaq para evitar quedas bruscas nas ações da SpaceX. Entre as medidas, os investidores só poderão vender 20% dos papéis após a divulgação dos primeiros resultados trimestrais da empresa na bolsa. A liberação de vendas adicionais, em blocos de 7% e 28%, estará condicionada ao alcance de metas de lucro e à valorização sustentada das ações.

O CEO Elon Musk, que detém o controle majoritário dos votos, não poderá participar dessas vendas antecipadas e estará sujeito a um bloqueio de um ano. Uma nova regra da Nasdaq, chamada Fast Entry, permitiu a entrada mais rápida da companhia no índice Nasdaq-100. Com isso, fundos de índice, os ETFs, serão levados a realizar compras expressivas independentemente do preço, o que pode gerar pressão compradora para sustentar a cotação no curto prazo.

— O perfil do investidor de Bolsa é de quem assume riscos e pensa no longo prazo — observa Ribeiro de Oliveira.

O especialista também ressalta que o investidor precisa observar os números da empresa. O documento do IPO mostra que a SpaceX registrou receita de US$ 18,7 bilhões em 2025, acima dos US$ 14 bilhões do ano anterior. A companhia passou de um lucro de US$ 791 milhões em 2024 para um prejuízo de US$ 4,94 bilhões no ano passado. A SpaceX atua no setor de transporte espacial e é um dos principais fornecedores de lançamentos de foguetes para a Nasa e o Pentágono.

A maior parte da receita vem do negócio de internet via satélite Starlink. A empresa fez investimentos bilionários nesse e em outros segmentos. O documento mostra que, no trimestre encerrado em 31 de março, a divisão especial registrou receita de US$ 619 milhões e prejuízo operacional de US$ 662 milhões.