Finanças

Endividamento elevado afeta produtividade no trabalho, dizem economistas

Especialistas reunidos no lançamento do Money Lab, da FGV, afirmam que acesso ao crédito, baixa poupança e incerteza econômica impulsionam o estresse financeiro

Agência O Globo - 27/05/2026
Endividamento elevado afeta produtividade no trabalho, dizem economistas
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O crescimento do endividamento das famílias brasileiras está ampliando o impacto do estresse financeiro sobre a produtividade no ambiente de trabalho. Esse foi um dos principais temas debatidos por economistas durante o lançamento do Money Lab, novo hub de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), realizado em São Paulo.

De acordo com pesquisa Datafolha realizada em abril, dois em cada três brasileiros (67%) possuem algum tipo de dívida financeira, como empréstimos. O levantamento também aponta que 21% da população está com pagamentos em atraso, evidenciando o avanço da inadimplência no país.

Especialistas explicam que a combinação entre maior bancarização, expansão do acesso ao crédito e um cenário de incerteza econômica contribui para o baixo índice de poupança dos brasileiros. Esse comportamento está relacionado ao que os economistas chamam de “taxa de impaciência”, ou seja, a tendência de priorizar o consumo imediato diante da imprevisibilidade do futuro.

O Money Lab tem como objetivo fomentar o diálogo entre academia, empresas e sociedade sobre finanças pessoais, oferecendo cursos, eventos, conteúdos e parcerias. Fábio Gallo, professor de finanças da FGV e um dos fundadores do hub, afirmou que o projeto surge em resposta à demanda crescente das empresas por programas de educação financeira voltados aos colaboradores.

Impactos nas organizações

“Não existe família brasileira ou empresa imune a esse problema. O endividamento gera estresse financeiro, reduz a qualidade de vida e impacta negativamente a produtividade, trazendo consequências para as organizações, como menor engajamento, aumento do absenteísmo e riscos na cadeia de clientes e fornecedores. O turnover das empresas tem crescido substancialmente, e acreditamos que esse seja um dos motivos”, destacou Gallo.

Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco, reforçou que a saúde financeira ainda recebe pouca atenção, apesar dos impactos diretos sobre a rotina de trabalho e a qualidade de vida das famílias.

“Quando a pessoa está preocupada, sem conseguir pagar as contas ao final do mês, ela trabalha pior, busca um segundo ou terceiro emprego e acaba tendo menos horas de descanso”, explicou Barbosa.

Ele acrescentou que, mesmo com o aumento da renda, o consumo das famílias segue fragilizado, pois parte do dinheiro extra é comprometida com o pagamento de dívidas e juros elevados. Segundo Barbosa, a chamada “taxa de impaciência” é fundamental para entender o endividamento no Brasil.

“Se a taxa de desconto do futuro é muito alta, as pessoas querem consumir tudo hoje, pois não sabem o que pode acontecer amanhã. A grande questão, para a qual não tenho resposta, mas algumas hipóteses, é: por que essa taxa de impaciência é tão elevada no Brasil?”, indagou o economista.

Para ele, a maior imprevisibilidade econômica do país contribui para esse comportamento. Barbosa também questionou a proposta do governo de conceder crédito para motoristas de táxi e aplicativos, mesmo diante das altas taxas de endividamento. O programa pode movimentar até R$ 30 bilhões em recursos do Tesouro Nacional.

“As famílias se endividam, o governo cria programas para ajudá-las a sair das dívidas, mas ao mesmo tempo concede crédito direcionado. Isso cria um ciclo difícil de romper”, avaliou.

Contradições do crédito no Brasil

Ana Paula Vescovi, diretora de macroeconomia do Santander Brasil, destacou uma contradição relevante na economia nacional: mesmo com juros elevados, o crédito continua avançando, reduzindo a eficácia de um dos principais mecanismos da política monetária.

“O aprofundamento do mercado financeiro e de crédito no Brasil ocorreu paralelamente a um aperto das condições financeiras e à sustentação do mercado de trabalho, resultando em uma situação atípica: um aperto monetário intenso, mas sem retração do crédito”, analisou Vescovi.