Finanças

Confira os segredos para manter uma empresa familiar e evitar erros comuns

Consultor empresarial traz orientações para que formato de negócios consiga atravessar gerações

Agência O Globo - 24/05/2026
Confira os segredos para manter uma empresa familiar e evitar erros comuns
As empresas familiares são um dos pilares da economia brasileira. E não é pouca coisa: segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), esse modelo - Foto: ILUSTRAÇÃO IA

As empresas familiares são um dos pilares da economia brasileira. E não é pouca coisa: segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), esse modelo representa cerca de 90% dos negócios do país. Além disso, responde por 65% do Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas do país) e gera, aproximadamente, 75% dos empregos formais.

Apesar da importância indiscutível, gerir uma empresa familiar traz desafios que nem sempre são simples de resolver. O Índice Global de Empresas Familiares, da PwC, mostra que apenas 30% sobrevivem à segunda geração, e menos de 12% chegam à terceira.

Existem, no entanto, soluções práticas para enfrentar os principais gargalos na condução do negócio. O EXTRA conversou com o consultor de empresas Jéferson de Souza, sócio da Aport Empresarial, que apontou os erros mais comuns e explicou como evitá-los. Entre os principais deslizes, ele destaca três:

Gestão por parentesco: acreditar que, por ser da família, a pessoa deve automaticamente fazer parte da gerência;

Falta de definição: ausência de clareza nos cargos, quando alguém de um setor passa a interferir em decisões de outro;

Flexibilidade excessiva: maior tolerância a erros, principalmente atrasos, quando envolvem parentes.

Além desses pontos, o consultor chama a atenção para a decisão de colocar pessoas sem preparo técnico em cargos que exigem qualificação:

— É como entregar um carro para quem não sabe dirigir. O risco de bater é maior. Isso pode colocar em risco o patrimônio da própria empresa.

O retrato da família brasileira

Aos 50 anos, Valéria Rios é dona de um bufê que leva seu nome e funciona há 14 anos em Guaratiba, na Zona Oeste do Rio. O que começou como uma oportunidade de renda extra se transformou em uma empresa familiar. Hoje, trabalham no negócio dois filhos, a nora, a mãe da nora e até vizinhos convidados para serviços temporários em eventos.

A ideia de trazer os parentes para perto surgiu quando os quatro filhos entraram na adolescência. A empresária queria "mantê-los à vista" e passou a incluí-los na rotina do Valéria Rios Buffet. Com o tempo, dois decidiram morar em Portugal, e outros dois permaneceram trabalhando com a mãe.

— Quando ainda estavam todos aqui, era uma loucura. Eu tenho um filho que não podia ser criticado que ele rebatia — relembra, em tom descontraído.

Precisa juntar dinheiro?

Os desafios não ficaram restritos aos filhos. Valéria conta que o marido também precisou mudar de função dentro da empresa. Segundo ela, o companheiro tinha o hábito de responder aos clientes de maneira impulsiva, algo que, na visão da empresária, acontecia pela intimidade de trabalhar cercado pela própria família.

Para evitar conflitos, ela decidiu afastá-lo do atendimento ao público e o colocou em uma função mais operacional, responsável pelas compras e pela mão de obra do bufê.

— Apesar de tudo, como os filhos já cresceram inseridos nesse negócio, todos já sabem seu lugar e sua função. Muito além dos desafios, existe a vontade de se ajudar — afirma.

Situação parecida vive Lucas Melo, de 42 anos, dono da agência de publicidade Sempre Visto, em Del Castilho, na Zona Norte do Rio, há cinco anos. Na empresa, trabalham ao lado dele a esposa e as duas filhas. Além dos parentes, a equipe conta com uma sócia publicitária e uma editora de vídeos que não pertencem ao núcleo familiar. Para Lucas, o maior desafio é separar as relações pessoais das profissionais.

— Quando dou uma ordem ou faço um pedido, às vezes é difícil entenderem o que é o pai e o que é o empresário falando. Mas, justamente por sermos da mesma família, estamos todos no mesmo barco — diz.

A analogia do barco, para Lucas, faz ainda mais sentido quando pensa que, se a embarcação afundar, todos afundam juntos. Apesar dos desafios, ele destaca que existe o propósito em comum de todos de crescerem unidos, já que a empresa é uma fonte de renda para toda a família.

O caminho para o sucesso:

Agora, o desafio é entender como lidar com os conflitos e administrar esse modelo de negócio da melhor forma. Para explicar os principais cuidados e estratégias, além do Jéferson de Souza, sócio da Aport Empresarial, o EXTRA também conversou com o especialista em sucessão familiar, Helano Bastos. Confira:

Conflitos pessoais devem ficar em casa

Divergências de opiniões são saudáveis e comuns na maioria das empresas e famílias. O problema começa quando não há uma estrutura organizacional bem definida e esses dois lugares viram um só. Nesse cenário, família e negócios se misturam, e os problemas de casa vão parar no trabalho e vice-versa. O impacto pode atingir até outros colaboradores.

Em caso de emergência, solicite um olhar externo

Quando a desorganização já pareceu tomar conta, o primeiro passo é diagnosticar o problema: ele está concentrado em um setor ou é geral? Nesse momento, contar com alguém de fora pode fazer toda a diferença. O consultor dá o exemplo de uma padaria que pode ter ótimos produtos, mas não sabe executar o marketing. Um intermediário, segundo ele, consegue diagnosticar o que não está funcionando com mais rapidez e certeza.

— Uma pessoa externa qualificada consegue comparar com o mercado — diz Souza.

Cuidado na hora da sucessão

O advogado especialista em sucessão familiar em empresas, Helano Bastos, explica que os acordos de sucessão precisam ser definidos antes que qualquer situação emergencial aconteça. Segundo ele, além da parte burocrática, o planejamento sucessório não deve existir apenas no papel.

— É preciso preparar os sucessores com antecedência, inserindo-os na cultura e na operação da empresa para que a sucessão não aconteça de forma repentina em um momento adverso — afirma.

Apesar do vínculo afetivo envolvido, o futuro do patrimônio familiar exige decisões estratégicas. Bastos destaca que é essencial identificar os sucessores com maior aptidão para o negócio e prepará-los para assumir cargos de liderança de forma responsável.

— Nem sempre o mais indicado é o primogênito ou o familiar mais próximo do fundador. A empresa familiar que não consegue fazer essa distinção tende a não sobreviver ao tempo — completa.

Além disso, ferramentas como assessments — avaliações profissionais que ajudam a identificar perfis e preparar funcionários — e acordos podem ser grandes aliados.

— Os acordos determinam quais funções o sucedido deixará de exercer, em que momento isso acontecerá e quais responsabilidades o sucessor assumirá. Isso evita que tudo fique apenas na palavra, o que pode gerar diferentes interpretações — explica Jéferson de Souza.

Experiência e inovação andam juntas

O que diferencia uma empresa familiar que cresce de outra que fica estagnada por anos, para Jéferson de Souza, é a união entre tradição e inovação. Essa harmonia alia a competência desenvolvida por quem fundou o negócio com todas as experiências novas que chegam com quem está sucedendo. É possível modernizar sem descartar o que já deu certo até o momento.

Razão acima da emoção

Por fim, o recado é direto: negócios exigem racionalidade. Decisões bem pensadas refletem em resultados concretos como crescimento, novos clientes, boas contratações e inovação. Já quando a emoção fala mais alto, surgem problemas como mistura de contas pessoais com as da empresa, custos ocultos e baixa performance.

— Tire o sentimento do jogo, porque isso pode levar à falência. Se esse negócio sustenta a família, ele precisa dar certo, por isso trate-o como uma empresa profissional — conclui Jéferson.