Finanças
Estrela pede recuperação judicial: entenda a crise da fabricante de brinquedos
Com crédito restrito e 'maior competição com alternativas digitais', como motivos para crise. Operações serão mantidas enquanto dívida é reestruturada
Em 90 anos de história, a Estrela — fabricante de brinquedos icônicos como Banco Imobiliário, Jogo da Vida, Detetive, Pogobol e Susi — atravessou gerações sobrevivendo a crises econômicas e mudanças no mercado de brinquedos. Agora, porém, a companhia sofre um novo “revés”, como determina aos jogadores uma das cartas clássicas do seu Banco Imobiliário: a marca anunciou ontem ter entrado com um pedido de recuperação judicial, com dívidas que somam R$ 109 milhões.
Segundo comunicado enviado pela empresa ao mercado, a decisão “decorre da necessidade de reestruturação do passivo do grupo, em um contexto de pressões econômicas e setoriais relevantes”. A Estrela cita fatores como o aumento do custo de capital e as restrições de crédito, além de mudanças no comportamento do consumidor, “com maior competição de alternativas digitais”.
Lembre-se de produtos que marcaram época
O pedido foi protocolado na Justiça de Minas Gerais, onde fica a principal fábrica da Estrela, e inclui as oito subsidiárias do grupo, como os braços industriais, de distribuição, a Editora Estrela e a vertical de cosméticos.
A notícia levou muita gente que foi criança no auge da Estrela a relembrar ontem sucessos da companhia. Veja alguns:
Banco Imobiliário
Com o objetivo de se tornar o jogador mais rico e evitar a falência, o jogo governado por gerações. Nesse pequeno simulacro do capitalismo, é possível comprar propriedades, construir imóveis e cobrar aluguel. Além do tradicional, chamado de Retrô, há o de Realidade Aumentada e uma versão Mundo para comprar propriedades em Londres ou Doha.
Jogo da Vida
A trama se complica. Neste jogo de tabuleiro, o objetivo é acumular a maior quantia em dinheiro ao fim da partida. Mas, para isso, é preciso ir além das oportunidades financeiras. É necessário tomar decisões relacionadas aos estudos, escolher uma carreira, formar uma família e enfrentar golpes de sorte ou reviravoltas até chegar à aposentadoria.
Detetive
“Foi o Coronel Mostarda, com o castiçal, na biblioteca”. Esse é o palpite clássico do Detetive em sua versão tradicional. Mais recentemente, os personagens mudaram, mas a ideia é a mesma: um crime aconteceu e todo mundo é suspeito. Os jogadores fazem perguntas e tentam descobrir quem é o suspeito, qual foi a arma e onde aconteceu.
Susi
m dos maiores ícones dos brinquedos no Brasil, a boneca Susi foi lançada em 1966. Foi uma resposta à americana Barbie. Ela representava o ideal da jovem brasileira, com roupas focadas nas últimas tendências. Versões antigas viraram item de colecionador. Este ano, foi lançado em São Paulo o musical “Susi - O tempo dispara”, inspirado na boneca.
Concorrência com importados
As agruras da Estrela, fundadas em 1937 pelo alemão Siegfried Adler, não são recentes, mas se acumularam desde os anos 1990, quando o mercado brasileiro se abriu e os brinquedos importados ganharam espaço na rotina das crianças.
Quem acompanha a companhia lembra que, naquela época, o faturamento da Estrela caiu 50% num único ano, dada a concorrência com brinquedos importados principalmente da Ásia, de menor custo.
Segundo estatísticas da Abrinq, associação que reúne os fabricantes de brinquedos do Brasil, o faturamento total do setor foi de R$ 10,39 bilhões em 2025. Deste total, a produção nacional respondeu por R$ 5,535 bilhões, ou 53% do total. Em 2017, o faturamento do setor foi de US$ 6,39 bilhões, e a produção nacional respondeu por 59% do total.
— Desde os anos 1990, a empresa perdeu muita competitividade. Os percalços de mercado vão se acumulando — avalia José Antonio Ferraiuolo, sócio da 2xCapital, consultoria que presta assessoria administrativa e financeira à Estrela.
De lá para cá, entrou no tabuleiro também as mudanças comportamentais ao longo dos anos, com os eletrônicos ganhando mais atenção do público infantil do que os brinquedos tradicionais.
O sócio-diretor da Gouvêa Consulting, Roberto Wajnsztok observa que o setor como um todo sofre com o interesse menor das crianças por produtos como bonecas, carrinhos e jogos de tabuleiro. Mas a sensibilidade da Estrela a esses fatores é ainda maior, já que a empresa manteve o portfólio fiel aos brinquedos tradicionais.
— A maior participação dos eletrônicos para o público infantil afetou diretamente as receitas da empresa, impactado também pelas simultaneas, principalmente do mercado asiático, o que acaba drenando a demanda — analisa.
Se soma a esse cenário o contexto macroeconômico. Com o pedido de reestruturação, a Estrela se soma a um grupo de companhias que, nos últimos meses, recorreram a uma reestruturação judicial no país. Analistas avaliam que, em muitos casos, problemas de gestão surgiram à tona diante de um cenário de manutenção da taxa de juros básica Selic em patamar elevado por muito tempo. Alguns exemplos são a Toky, dona da Mobly e da Tok&Stok, e a Casa&Vídeo.
No caso da Estrela, os credores são principalmente bancos e fundos de investimento.
A restrição da companhia, segundo ele, também inclui mudanças na operação, como ajustes de custo, com a terceirização de parte da produção e até aumento da importação de alguns produtos.
— São caminhos que estamos estudando companhia e que podem tornar a operação mais leve.
Com o anúncio da reestruturação, as ações da Estrela acumularam queda de 33,48% no fechamento do mercado ontem, negociadas a R$ 3 e levando o valor do mercado da companhia a R$ 24,25 milhões.
Nostalgia não funcionou
Nos últimos anos, a Estrela investiu no factor nostalgia para diversificar a receita, e relançou brinquedos clássicos como Banco Imobiliário e Detetive numa pegada retro, mas não funcionou.
Ainda que exista uma busca por parte das famílias por brincadeiras desconectadas das telas e até adultos retomando brinquedos da infância, o que causa algum impacto nas vendas, não são movimentos suficientes para compensar o faturamento mais fraco, aponta Wajnsztok, da Gouvêa:
— Houve uma reinvenção em alguns aspectos, mas nem de longe esses mercados têm o impacto da demanda tradicional dos brinquedos. Não resolvo o problema.
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