Finanças
A menos de cinco meses da eleição, Lula acelera divulgação de medidas: uma a cada 3,5 dias
Para analistas, estímulos vão pressionar inflação e as contas públicas, dificultando a queda dos juros
A menos de cinco meses do primeiro turno das eleições presidenciais, o governo Luiz Inácio Lula da Silva vem impondo um ritmo acelerado a uma série de medidas que visam a baixa renda e a classe média. Desde os últimos dias de março, com a intensificação da guerra no Oriente Médio e a proximidade do pleito de outubro, foram lançadas novas medidas a cada 3,5 dias, em média.
Cálculos da XP Investimentos apontam que parte dessas propostas pode levar um impacto de até 1,4 ponto percentual (pp) do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil neste ano, o que corresponde a R$ 188,7 bilhões.
A desaceleração da economia é um temor do governo. O Ministério da Fazenda defende as propostas e diz que a expectativa é que o efeito das medidas sobre a atividade se materialize, de forma gradual, ao longo do ano, com maior motivação no quarto trimestre, à medida que o ciclo de queda de juros comece a se sobreviver ao crédito.
A conta da XP é ampla e leva em consideração os estímulos à economia anunciados pelo governo nos últimos meses e que entraram em vigor neste ano, entre impulsos de crédito, subsídios e medidas de renda. O impacto fiscal é diferente, porém, pois uma parcela das ações é voltada ao crédito.
Impacto na dívida pública
Os subsídios para combustíveis anunciados pelo governo para mitigar os efeitos da guerra no Irã não foram incluídos no projeto, pois não tiveram impacto na atividade.
O anúncio do primeiro subsídio para o diesel, em 30 de março, marcou o início do lançamento de uma série de medidas de estímulo para a economia. Desde então, o governo lançou mão de 15 ações, com uma mídia de anúncio a cada 3,5 dias.
Essa série de lançamentos acontece diante de uma estratégia do governo de tentar converter melhor desempenho econômico em popularidade. Uma das grandes preocupações é o nível de individualização das famílias, que atingiu as máximas históricas em 2026. É nesse contexto que se inserem medidas como o Desenrola 2.0, de renegociação de dívidas.
Segundo o economista Rodolfo Margato, responsável pelo estudo, a expectativa é que parte específica desse efeito potencial estimado se traduza em consumo e investimento, algo em torno de 1 ponto percentual.
O principal impulso considerado para isso é corrigir a ampliação da autorização do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, com ganho parcial para rendas de até R$ 7.350. O crédito subsidiado para motoristas de aplicativos e taxistas comprarem automóveis — chamado de Move Brasil —, a medida mais recente lançada pelo governo, vem logo na sequência.
O impacto das medidas foi calculado já considerando a execução de cada programa, à exceção da linha de financiamento de R$ 30 bilhões para motoristas de aplicativos e taxistas, lançada na terça-feira.
Esse impulso sustenta a projeção da XP de crescimento do PIB este ano de 2%, que pode, inclusive, ser revisada para cima, considerando que há outros planos na mesa do governo, como o programa de renegociação de dívidas para adimplentes e um novo estímulo à construção civil.
Esse “risco de alta” na projeção devido ao pacote de estímulo ocorre mesmo com os efeitos negativos da guerra no Oriente Médio via aumento da inflação e rompimento menor na taxa básica de juros.
— Se não fosse o mercado de trabalho robusto essas iniciativas, provavelmente estaríamos discutindo o crescimento do PIB próximo de 1% em 2026, e não na casa de 2% — disse Margato.
IFI: impacto de R$ 295 bilhões
Em projeto mais amplo e incluindo subsídios e crédito a motoristas, a Instituição Fiscal Independente (IFI) projeta impacto de até R$ 295,29 bilhões. O diretor da IFI, Alexandre Andrade, diz que, mesmo que a maior parte das ações não tenha impacto direto nas contas públicas, pode afetar a dívida brutal, por envolver despesas financeiras:
— O transporte em fundos garantidos, por exemplo, constitui uma despesa primária. Em caso de inadimplência, o impacto fiscal pode ser maior, por envolver a necessidade de novos transportes nos fundos — ressaltou.
O economista Tiago Sbardelotto, da XP, afirma que o potencial de elevar a dívida pública este ano é de 0,7 ponto percentual. A instituição espera que 2026 termine com o endividamento em 83,4% do PIB, contra 78,6% no ano anterior, mas a projeção deve ser revisada para algo próximo de 84%.
Mais duas ações previstas
Com o financiamento para os carros, o BNDES já opera recentes medidas de crédito que somam R$ 62,5 bilhões em recursos do Tesouro Nacional neste ano eleitoral.
— Quando um banco de desenvolvimento investe em algo que é de consumo rápido, para gerar mais dinamismo na economia, aí já parece um pouco equivocado — disse Rodolpho Sartori, da Austin Rating.
O economista Vitor Vidal vê efeito limitado das medidas anunciadas sobre a atividade econômica. Ele estima, inclusive, que a expansão do PIB do primeiro trimestre, bastante movida pelo agro, deve decepcionar e ficar na casa de 0,7%, contra 1% previsto pelo governo:
— Se isso acontecer mesmo, devemos ter mais pressão para novas medidas.
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