Finanças
Move Brasil: nome sujo pode limitar alcance do programa
Especialistas alertam que inadimplência alta deve levar bancos a adotarem cautela ao oferecer financiamento
O programa Move Brasil Táxi e Aplicativos, que promete disponibilizar a motoristas até R$ 30 bilhões em crédito para a compra de automóveis de até R$ 150 mil, deverá incrementar as vendas de veículos no país, antes que os montadoras, mas especialistas alertam que o risco e a inadimplência poderão frear a concessão de empréstimos.
Para o consultor Rodnei Bernardini, especialista no mercado de crédito para veículos, o endividamento elevado poderá levar os bancos a serem cautelosos nas aprovações de empréstimos, moderando o ritmo de concessões. Bernardini chama a atenção para os prazos dilatados. Os financiamentos poderão ser parcelados em até 72 meses, com carência de seis meses:
— Carência e prazo longo são variáveis que aumentam a inadimplência. Tanto que os bancos hoje operam no máximo com 60 meses.
A taxa de inadimplência das pessoas no crédito físico para a aquisição de veículos chegou a 6% em março, segundo o Banco Central (BC), o maior nível desde 2013. O financiamento para carros tem a vantagem de o bem servir de garantia — tanto que a inadimplência nessa modalidade ficou um pouco abaixo dos 7% na média de todas as modalidades, registradas em março —, mas a dificuldade de retomada dos carros nos casos de calote é, historicamente, um problema estrutural do mercado nacional, conta Bernardini:
— A demanda nas entregas vai explodir, mas a aprovação de crédito, tenho minhas dúvidas.
Aluguel e nome
Samuel Monteiro, motorista de aplicativo de 41 anos, já trabalha na área há mais de nove anos e elogiou o programa do governo. Ele paga cerca de R$ 2.600 por mês para localizar um automóvel para trabalhar. Segundo o condutor, muitos como ele labutam entre 10 e 15 horas por dia para arcar com o custo do veículo. Samuel diz que boa parte desses profissionais está individualizada e pode não ter acesso ao programa:
— Ter o nome limpo e o score adequado, além de ser um grande sacrifício para o brasileiro manter isso, é o primeiro passo que vai ser entregue. O programa não vai mudar a realidade de um motorista que trabalha com um carro autônomo, que tem seu nome sujo, que tem dívidas. Vai tirar bastante gente dessa possibilidade. São justamente as pessoas que mais precisam.
No desenho do programa, o risco de crédito ficará com os bancos comerciais que repassaram os recursos do BNDES — que por sua vez receberão os valores do Tesouro. Essas instituições analisarão as chances de conceder os financiamentos e decidirão aprovar ou não. Segundo Bernardini, como os motoristas de aplicativos costumam ter um perfil de exposição elevado, os bancos, provavelmente, exigiram entradas maiores, instalação de rastreador no veículo — para ajudar na retomada em caso de calote — e análise minuciosa da operação.
No anúncio do Move Brasil Táxi e Aplicativos, o BNDES informou também que mudará as regras do Peac, o programa de crédito garantido para empresas de menor porte, para incluir motoristas de aplicativo. O Peac também é operado pelos bancos repassadores do BNDES. Nele, um fundo financeiro da União, o FGI, operado pelo banco de fomento, concede garantias para empresas que não possuem imóveis, fianças bancárias ou outros bens a oferecer em garantia de um empréstimo. Para Bernardini, o Peac poderia “mudar o jogo”, ao oferecer uma garantia a mais para os bancos, mas o consultor avalia que eles entrarão de forma cautelosa no novo programa.
Anfavea
A Anfavea, que representa os fabricantes de veículos, elogiou o novo programa e chamou a atenção para o fato de que houve forte demanda na primeira rodada do Move Brasil, externa para tráfego. “Os R$ 10 bilhões disponibilizados inicialmente foram contratados em curto espaço de tempo, mostrando a importância de linhas de crédito com taxas e prazos adequados para estimular a aquisição de veículos novos”, diz a nota.
Antônio Jorge Martins, professor e coordenador de cursos da área automotiva da Fundação Getulio Vargas (FGV), vê potencial para um acréscimo acima de 300 mil unidades nas vendas deste ano. O especialista considera uma faixa limite de R$ 150 mil para a compra de veículos novos adequados para a realidade do mercado.
Na visão de Rafael Cagnin, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), o novo programa pode até dar algum impulso às vendas, mas parece ter fins eleitorais.
— Pode ajudar a desovar um pouco os estoques, mobilizar um pouco o setor, mas não é algo estruturante — disse Cagnin. — Algum efeito de demanda favorável tem, mas não configura uma política de desenvolvimento industrial nem de modernização produtiva.
Carlos Alberto Vieira, de 46 anos, trabalha como motorista de aplicativo há 10 anos e pensa em trocar seu carro por um mais novo:
— Hoje, se você entrar numa experiência, os juros estão bem altos. A taxa menor melhora o pagamento. Mesmo pagando em seis anos, com uma parcela um pouco menor, você consegue, de repente, pagar duas parcelas por vez e diminuir o tempo, o que automaticamente diminui o montante de juros. Então é essa visão que estou tendo. É uma forma de ajudar todo o mundo — disse Carlos, que critica o fato do programa permitir que os motoristas tenham feito a partir de 100 corridas nos últimos 12 meses — poderia ter uma quantidade de viagens maior, justamente pra que pudesse selecionar o melhor o motorista e não fosse alguém que montasse apenas para complementar a renda. A prioridade deveria ser quem vive realmente do volante.
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