Finanças

Oncoclínicas tem prejuízo de R$ 3,67 bi, e diretores falam em ‘incertezas’ sobre continuidade operacional

Rede de clínicas oncológicas cita perdas de R$ 430,8 milhões após investimentos no Master

Agência O Globo - 10/04/2026
Oncoclínicas tem prejuízo de R$ 3,67 bi, e diretores falam em ‘incertezas’ sobre continuidade operacional
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A Oncoclínicas encerrou 2025 com um prejuízo de R$ 3,67 bilhões, uma piora de 11% em relação às perdas de R$ 717 milhões registradas pela companhia em 2024. Os números divulgados na noite de hoje também mostram o nível de comprometimento da caixa da rede de clínicas oncológicas, que deve mais no curto prazo do que tem para receber. O chamado capital circulante da empresa é negativo em R$ 2,31 bilhões.

Crise:

Capital:

A maior parte dos valores devidos, R$ 3,2 bilhões, tem como origem empréstimos e financiamentos tomados pela Oncoclínicas. Débitos a fornecedores, que somam R$ 1,10 bilhão, aparecem em seguida, e são os números que explicam os efeitos da crise da companhia: no elo mais fraco, pacientes relatam adiamentos nas sessões de quimioterapia, radioterapia e imunoterapia em unidades da rede.

Ao parecer sobre os números, a consultoria Deloitte afirmou que o resultado é "decorrente principalmente do não atingimento de determinados índices financeiros propostos em contratos de empréstimos, financiamentos e debêntures, o que foi feito na reclassificação de parcela relevante da dívida circulante, e pode ensejar o vencimento antecipado e a exigibilidade dessas obrigações pelos credores, e coloca pressão relevante de crédito na Companhia".

Negociação:

No relatório divulgado junto com os resultados, os diretores da Oncoclínicas presumiram que a companhia "está em um cenário de incerteza da continuidade operacional", e citaram como justificativas R$ 430,8 milhões perdidos após investimentos no Banco Master (liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central) e também a inadimplência da Unimed Ferj, que somou R$ 861 milhões.

“O aumento do índice de alienação total da companhia se deu, principalmente, por conta das condições macroeconômicas apresentadas durante 2025, como, por exemplo, o aumento da taxa de juros e o aumento do índice de inadimplência nas operações mantidas para venda, o que acabou ocasionando a correção dos índices apresentados”, continua o relatório.

Empresas asfixiadas:

Os diretores também afirmaram que as fontes de recursos que a Oncoclínicas lançou mão "não serão suficientes para atender suas necessidades futuras de capital para o desenvolvimento de suas operações e cumprimento de seus compromissos financeiros". Por isso, avaliamos potenciais transportes de capital.

Na última quarta-feira, a Oncoclínicas confirmou que estava à disposição da Justiça para proteger temporariamente a cobrança de credores. Segundo a companhia, a medida cautelosa é um "desdobramento" das discussões com as instituições financeiras e investidores com as quais a rede tem dívidas em aberto.

Em fato relevante, a rede afirmou que há risco de descumprimento de índices financeiros, referente ao exercício de 2025, que baliza contratos firmados com bancos e também debêntures emitidas a investidores — o que abriria margem para uma possível execução dos débitos pelos credores.

Outra alternativa seria aportes de acionistas. Uma das propostas na mesa seria um esporte do grupo Porto Seguro de R$ 500 milhões. Um termo não vinculante de exclusividade entre as duas empresas foi assinado em 13 de março e segue sob análise. O acordo prevê a criação de uma nova empresa para onde seriam migradas como clínicas de oncologia (outras operações da Oncoclínicas ficariam de fora).

A NewCo, nome desenhado para o negócio, ficaria sob o controle do Porto, que teria pelo menos 30% do capital do negócio. Parte da dívida atual da Oncoclínicas poderia ser limitada para essa nova empresa. A proposta ainda está em negociação, que tem previsão de durar até o dia 13. Até lá, as Oncoclínicas não podem negociar tratativas com outros operadores.

A nova empresa também poderia emitir debêntures conversíveis em ações ordinárias, em colocação privada, no valor total de R$ 500 milhões. Os títulos seriam subscritos pelo Porto, teriam prazo de 48 meses e remunerações equivalentes a 110% do CDI. A Oncoclínicas também poderá participar da assinatura.

Cerca de uma semana depois, a Oncoclínicas veio a público confirmar um aditivo ao termo não vinculante contratado com o Porto, que previa a entrada do grupo de medicina diagnóstica Fleury no negócio.

Outra possibilidade é uma oferta de R$ 500 milhões do Mak Capital Fundo, fundo de investimentos americano que tem 6,3% dos papéis da companhia. O aporte, porém, está condicionado a convocação de uma assembleia geral extraordinária para, entre outras medidas, tratar da destituição dos membros do conselho de administração. A sessão está marcada para dia 30 de abril.

Nesta semana, o então CEO da Oncoclínicas, Marcelo Gasparino da Silva, renunciou aos cargos de membro e presidente do conselho de administração da companhia.

Ainda no fim de março, o fundo Mak ofereceu um empréstimo de R$ 100 a R$ 150 milhões à Oncoclínicas.

Tratamentos adiados

Os problemas da caixa das Oncoclínicas levam pacientes que dependem de consultas, procedimentos e sessões de terapia a verem o tratamento ser prejudicado. Nas redes sociais, os relatos de pacientes ou de familiares se multiplicam em meio aos adiamentos das sessões. Em comum, justificativas de “indisponibilidade temporária de estoque de alguns medicamentos”.

A pensionista Sueli de Lima Gazoni, de 57 anos, tinha uma sessão de imunoterapia agendada para a última semana numa unidade da rede no Rio. O tratamento, porém, foi adiado para esta quinta-feira mas na véspera a filha dela, Juliana Rocha, foi avisar por mensagem que a sessão seria novamente reagendada pela falta do medicamento.

Sueli trata há dois anos de um câncer no intestino. Ela já passou por cirurgia e sessões de quimioterapia.

— O paciente oncológico já está sujeito a certos adiamentos, seja por um exame que não está bom, ou para o corpo se recuperar. Adiar por não ter o medicamento, numa clínica oncológica, é algo surreal — reclama Juliana. — É câncer, e não gripe ou dor de cabeça. É uma doença que debilita o paciente, a família e agora ela ainda tem que lidar com isso. Me sinto numa mistura de impotência, raiva e muito medo.

A professora Mônica Ferreira passa por cenário semelhante. São seis anos em tratamento oncológico. O câncer começou nos ovários para se esconder no abdômen. As infusões de imunoterapia acontecem a cada 21 dias. Ela lembra que as instabilidades nas sessões começaram em novembro.

Da última vez, a sessão foi marcada para 13 de março, foi adiada para o dia 27 e seria novamente reagendada para o dia 31, mas Mônica reclamou e conseguiu ser atendida na data prevista.

— Isso inviabiliza o tratamento. Ao mesmo tempo, a resposta que recebemos é que os casos estão sendo tratados com prioridade. Mas o que é prioridade quando se tem câncer? Além disso, não dá para simplesmente mudar os dados. Não é simples. A gente precisa se organizar, ter um acompanhante, tem toda uma logística envolvida — desabafa.

Em nota, a Oncoclínicas afirmou que há instabilidade no abastecimento de certos medicamentos, mas que “implementam medidas para normalização progressiva do cenário na próxima semana”.

“As equipes clínicas seguem o acompanhamento individualizado dos casos, com definição de conduta assistencial adequada, de forma a garantir a continuidade do cuidado aos pacientes”, disse a companhia.