Finanças

Plataformas são fonte de renda para 1,7 milhão de brasileiros

Motoristas e entregadores de plataformas já somam 2% da força de trabalho no país. Flexibilidade é vantagem, mas carga horária é longa. Especialistas alertam para futuro da Previdência

Agência O Globo - 24/03/2026
Plataformas são fonte de renda para 1,7 milhão de brasileiros
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Os aplicativos de entrega e mobilidade se tornaram, ao longo dos últimos dez anos, uma alternativa consolidada de trabalho no Brasil. Atualmente,obtêm por meio dessas plataformas a maior parte de sua renda mensal, segundo levantamento da consultoria 4intelligence baseada em dados do IBGE. Esse contingente corresponde hoje a aproximadamente 2% da força de trabalho nacional.

A parte especial desses trabalhadores vê na flexibilidade uma vantagem em relação a outras atividades. Tanto é assim que, de acordo com pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) divulgada em fevereiro, quase metade deles afirma que não trocaria o trabalho por um emprego assalariado, mesmo que a renda fosse equivalente.

Isso não significa, porém, que estejamos completamente satisfeitos. Dados da 4intelligence mostram que, de 2016 a 2025, o rendimento da categoria cresceu 7,9%, mas a inflação acumula alta de 64,7% no período.

— É exatamente essa palavra: estagnação — diz Carlos Alberto Vieira, 47 anos, motorista de aplicativos no Rio de Janeiro há mais de dez anos. — Na verdade tenho autonomia, flexibilidade de horário, o que é muito bom. Mas simplesmente não vejo alternativa para aumentar minha renda.

12 horas por dia

Vieira é formado em contabilidade e trabalhou por cerca de 15 anos em uma empresa de cursos profissionalizantes, onde avançou uma trajetória típica de ascensão: ingressou numa carga de menor responsabilidade e chegou a gerente. Foi demitido e recorreu ao aplicativo para garantir seu sustento enquanto tentava se recolocar no mercado formal. Por um ano e meio, nenhuma oportunidade pagou mais do que o app. Hoje, ele nem considera mais ter um emprego formal.

Segundo dados do IBGE, um motorista ou entregador plataformizado ganhou, em média, 4,2% mais do que os não-plataformizados em 2024: R$ 2.996 contra R$ 2.875. A diferença, porém, é relativa já que o rendimento por hora do plataformaformizado era 8,3% menor do que o da média dos trabalhadores do país: R$ 15,40 contra R$ 16,80. Vieira, por exemplo, diz que ganha bem, mas regular que precisa trabalhar de 12 horas a 13 horas por dia.

Renda:

A situação desperta preocupação entre especialistas, tanto do ponto de vista da saúde do trabalhador como dos seus efeitos para a economia.

— E se o motorista sofreu um acidente? E fica doente depois de tantas horas de trabalho? Até que idade ele vai conseguir trabalhar tantas horas assim? — indaga a socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). —Hoje, esse tipo de trabalhador não tem proteção.

Carina Trindade, presidente do Sindicato dos Motoristas Particulares por Aplicativos do Rio Grande do Sul (Simtrapli-RS), afirma que essa falta de proteção está ligada à relação desses trabalhadores com a Previdência. A maioria deles não faz qualquer contribuição ao INSS. Para ela, isso evidencia que o aplicativo serve como fonte imediata de renda, mas pode gerar um problema social no futuro.

— Serão muitas pessoas sem descanso — alerta.

Sem uniforme empregatício

André Porto, diretor-executivo da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que reúne as plataformas, ressalta que, mesmo sem regulamentação, os aplicativos fornecem ser uma fonte de renda mais estável do que a de boa parte dos demais trabalhadores, segundo pesquisa do economista Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

Não tão conta própria:

A Amobitec afirma que a renda média dos entregadores varia de R$ 2.669 a R$ 3.581 para jornada semanal de 40 horas em 2024, acima da média de profissionais com escolaridade semelhante, e que os entregadores das empresas associadas têm seguro pessoal, com cobertura para acidentes e afastamentos.

Sobre o sentimento de estagnação dos plataformizados, Porto diz que os aplicativos oferecem a possibilidade de o motorista aumentar seus ganhos ao elevar a categoria do veículo, por exemplo, o que é de interesse direto das plataformas:

— Quanto mais dinheiro o ganha motorista, a plataforma também.

Adriana, do Dieese, pondera que o impacto do trabalhador plataformizado na economia tende a ser menor do que o da indústria, por exemplo, pois gera pouco encadeamento sobre o restante da atividade econômica, com efeitos limitados para o desenvolvimento do país.

— A elaboração do algoritmo, da tecnologia do aplicativo, é, sim, algo que poderia fazer a diferença. Mas não é isso que uma massa de trabalhadores está envolvida—— complementa Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp, para quem os aplicativos poderiam ser mais benéficos a seus trabalhadores caso mantivessem com eles uma relação formal de trabalho.

Paula Montagner, subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), concorda com Marilene, mas não vê possibilidade real de se estabelecer vínculo empregatício formal entre plataformas e colaboradores neste momento do país.

Ela lembra que o governo elaborou, no ano passado, um projeto de lei para que as empresas de aplicativos contribuíssem com a Previdência de seus motoristas parceiros. A proposta não avançou no Congresso.

Paula admite que a chegada dos aplicativos ao mercado de trabalho trouxe benefícios. A taxa de desemprego caiu a nível recorde no fim de 2025 também em razão da oferta de vagas criadas pelas plataformas. Ainda assim, pondera que as empresas são as que ganham mais.

Porto, da Amobitec, diz que os associados são desenvolvidos ao projeto de lei do governo e lamenta que ele não tenha sido votado. Ele ressalta ainda que os trabalhadores plataformizados prestam serviços relevantes a mais de 100 milhões de clientes:

— Não beneficiamos apenas os motoristas. O pequeno confeiteiro entrega seu bolo pelo aplicativo. A economia circula e o benefício acontece localmente.

(*) Especial para O GLOBO