Finanças

'Estão querendo nos colonizar outra vez', diz Lula sobre disputa de terras raras

Reservas conhecidas de terras-raras no Brasil têm valor estimado equivalente a 186% do PIB

Agência O Globo - 21/03/2026
'Estão querendo nos colonizar outra vez', diz Lula sobre disputa de terras raras
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, neste sábado (data não informada), a soberania dos países latino-americanos e africanos sobre suas reservas de minerais estratégicos, durante a Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Celac-África, realizada em Bogotá.

Lula ressaltou que nações como o Brasil já foram colonizadas no passado, conquistaram sua independência e não devem se limitar ao papel de exportadoras de matérias-primas para países desenvolvidos.

— Nós não somos mais países colonizados. Conquistamos soberania com a nossa independência. Não podemos permitir que alguém se intrometa e fira a integridade territorial de cada país — afirmou o presidente, citando Bolívia, Venezuela e Cuba em seu discurso.

As terras-raras compõem um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de ímãs permanentes, baterias, turbinas eólicas, semicondutores, catalisadores, equipamentos eletrônicos e tecnologias militares. Apesar do nome, esses elementos não são necessariamente escassos, mas sua extração e processamento envolvem desafios técnicos, custos elevados e sensibilidade ambiental.

— Levaram quase tudo da Bolívia. Agora que a Bolívia tem minérios críticos, é a chance da Bolívia, é a chance da África, é a chance da América Latina não aceitar ser apenas exportador de minerais para eles. Ou seja, quem quiser que venha se instalar e produzir no país, para que a gente tenha a chance de desenvolver nossos países — destacou Lula.

Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), as reservas conhecidas de terras-raras no Brasil têm valor estimado equivalente a 186% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional — quase o dobro do tamanho da economia brasileira. O cálculo, com base em preços internacionais e dados de 2024, coloca o Brasil em posição de destaque na disputa global por minerais críticos, insumos estratégicos para setores como baterias, turbinas eólicas, semicondutores e tecnologias ligadas à transição energética e inteligência artificial.

Ao discursar na cúpula, Lula reforçou o alerta: — Estão querendo nos colonizar outra vez. É preciso que a gente levante a cabeça. Não é possível alguém achar que é dono dos outros países.

Em fevereiro deste ano, o governo dos Estados Unidos convidou o Brasil a integrar uma nova coalizão internacional dedicada ao fornecimento, mineração e refino de minerais críticos. A proposta americana prevê parcerias para garantir acesso a insumos como lítio, grafita, cobre, níquel e terras-raras, além da criação de mecanismos de preço mínimo para oferecer maior previsibilidade ao mercado e reduzir a volatilidade.

Na ocasião, o Brasil participou de uma reunião nos EUA, cujo tema central foram os minerais críticos. Os planos do governo americano foram apresentados pelo vice-presidente J.D. Vance. Ainda não há uma posição oficial do governo brasileiro sobre a adesão ao grupo. Segundo fontes próximas às negociações, o governo Lula reúne atualmente informações técnicas e políticas para avaliar o convite e suas implicações estratégicas.

O contexto geopolítico é marcado pelo esforço dos EUA em reduzir a influência da China, que hoje domina não só a mineração, mas principalmente o refino mundial desses minerais estratégicos.

O governo brasileiro, por sua vez, adota postura cautelosa. Reitera a recusa ao papel de mero exportador de matérias-primas brutas e defende que qualquer acordo deve estar vinculado ao desenvolvimento da cadeia de valor nacional, com investimentos em refino, beneficiamento e agregação de valor à produção interna.