Finanças

Banco Central decide hoje sobre nova taxa Selic

Tendência é de iniciar redução nos juros básicos da economia

Agência O Globo - 18/03/2026
Banco Central decide hoje sobre nova taxa Selic
Banco Central decide hoje sobre nova taxa Selic - Foto: Reprodução

Após nove meses de manutenção dos juros básicos da economia em 15% ao ano, o Banco Central (BC) deve dar o pontapé inicial no aguardado corte da taxa Selic nesta quarta-feira (dia 18). No entanto, a autoridade monetária deve manter um tom cauteloso diante das incertezas geradas pela guerra no Oriente Médio.

No mercado financeiro, após a deflagração do conflito e da forte volatilidade do petróleo, a maioria das apostas mirou para uma redução mais tímida, de 0,25 ponto percentual, para 14,75%, ante uma queda de 0,50 pp, para 14,50%.

A taxa atual é um recorde desde julho de 2006, no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, e vem sendo alvo de críticas de autoridades e de empresários, que argumentam que a dose de juro é exagerada frente à inflação medida pelo IPCA de 3,81% em 12 meses até fevereiro.

Sinalização do Copom

O próprio Comitê de Política Monetária (Copom) do BC hoje, em sua última reunião, em janeiro, que deveria começar a cortar os juros no encontro deste mês. Na época, o Copom projeta que o IPCA chegaria a 3,2% no terceiro trimestre de 2027, prazo com o qual trabalha para entregar a inflação na meta.

O alvo perseguido pelo BC é de 3%, com margem de tolerância de até 4,5%. O colegiado que define a Selic calibra a taxa de acordo com as projeções para a inflação em um horizonte de 18 meses dado o tempo em que demora para que os juros produzam efeito na economia real.

"Em ambiente de inflação menor e transmissão da política monetária mais evidente, a estratégia envolve controle do nível de juros. O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciará a flexibilização da política econômica em sua próxima reunião, porém reforçará que manterá a restrição adequada para garantir a convergência da inflação à meta", disse o Copom em janeiro.

Freio na economia

A sinalização de início de corte, porém, já veio com a ressalva de que o plano é que a Selic continue representando um freio na economia para garantir que o BC cumpra o compromisso com a meta de 3%.

“O compromisso com a meta impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, que dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária”, ressaltou.

Se a comunicação já era cautelosa diante de dúvidas principalmente sobre a desaceleração da atividade e do mercado de trabalho, a expectativa do mercado é de que a eclosão do conflito no Oriente Médio aumente a atenção do Copom. O aumento do petróleo tem efeito inflacionário direto na inflação doméstica, especialmente devido ao preço da gasolina - combustível que não foi contemplado nas medidas do governo federal para atenuar os impactos da guerra para os brasileiros.

Instituições Financeiras

Uma das instituições financeiras que concordaram com a estimativa para a queda da Selic neste Copom em função dos impactos da guerra foi o ASA. Segundo a equipe de macroeconomia da instituição, ainda que o BC não se concentre na cotação atual, mas analise a curva de preços do petróleo para os próximos meses, a elevação da commodity aumenta os riscos para a inflação doméstica, tanto via investimentos quanto por efeitos secundários sobre expectativas e outros preços administrados.

Na avaliação da ASA, o choque deve elevar a projeção do BC para o IPCA no 3º trimestre de 2027 de 3,2% para 3,6%, afastando-se mais do centro da meta.

"Esse deslocamento, por si só, reforça a conveniência de um início de ciclo mais parcimonioso. A opção por 0,25 pp permite ao Copom preservar a sinalização de janeiro, iniciando o ciclo de cortes, mas ao mesmo tempo registrando o aumento expressivo da incerteza", diz, em relatório, acrescentando que o comunicado deve dizer indicado para maior dependência de dados para decisões futuras.

O Santander avalia que o intervalo entre o compromisso reforçado pelo BC em janeiro e a cautela com o conflito no Oriente Médio se estreita para um único resultado: uma redução de 0,25 pp, para 14,75%. Segundo o economista Marco Caruso, a "inação" após a sinalização de corte, reforçada pelas declarações recentes de diretores, seria prejudicial à contrapartida do BC, já a opção de 0,50pp tornou-se pouco atraente com a combinação de choque de petróleo e conservadorismo natural de início de ciclo.

"A sinalização distribuída um teto, tornando a inação custosa em termos de alteração; o choque de oferta localizado um piso e ficou em 25. Dito isso, apesar da atual falta de clareza, continuamos a esperar que a taxa Selic terminal atinja 11,50% no primeiro semestre de 2027. Para tanto, assumimos que os impulsos inflacionários do conflito permaneceram transitórios, dissipando-se dentro do horizonte relevante do Copom de 18 meses."

Já a Warren Investimentos manteve a expectativa de queda da Selic em 0,50 pp, para 14,50%, mas não descartou a possibilidade de o BC ser mais conservador diante dos riscos do cenário externo. A leitura é de que, no atual patamar de juros, o Copom possui margem de manobra relevante caso seja preciso recalcular a rota.

"A taxa Selic foi colocada em um nível inquestionavelmente restritivo e mantida assim por um período bastante prolongado. Os efeitos já foram observados na economia por meio de diversos canais, mesmo considerando a resiliência do setor de serviços e do mercado de trabalho. Assim, o Banco Central tem margem para iniciar o processo e, caso cenários mais negativos se materializem, pode suspender a calibração ainda em um nível restritivo", afirmou.