Finanças

Chinesa Keeta adia entrada no Rio e acusa outras plataformas de delivery de travar mercado

Aplicativo de delivery de comida, que começou a operar em São Paulo em dezembro, seria lançado no Rio em março. Agora, não há nova data definida. '

Agência O Globo - 26/02/2026
Chinesa Keeta adia entrada no Rio e acusa outras plataformas de delivery de travar mercado
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Recém-chegada ao Brasil, a plataforma de delivery chinesa Keeta decidiu adiar sua entrada no mercado de entregas de refeições no Rio. A previsão era começar a operar na capital em março, mas a companhia alega que os contratos de exclusividade firmados por concorrentes com os restaurantes limitam novos concorrentes no mercado.

A Keeta faz parte do grupo chinês Meituan, maior empresa de delivery do mundo. Agora, não há sequer uma nova data no horizonte para o início da operação. A decisão da companhia, consequentemente, afeta todo o planejamento da Keeta, que projetava chegar até junho em até 15 regiões metropolitanas - incluindo Belo Horizonte, Brasília, Recife e Fortaleza - e alcançar mil cidades até o fim do ano.

O CEO da Keeta, Tony Qiu, conta que executivos da empresa desembarcaram no Rio em julho do ano passado e, de lá para cá, cadastraram cerca de 17 mil restaurantes e 27 mil entregadores. Mas os contratos exclusivos limitam o avanço.

Ele avalia que a experiência do usuário no aplicativo de delivery ficaria comprometida neste momento, um entrave que aconteceria em qualquer lugar do país. Por isso, todo o planejamento de expansão acaba sendo postergado.

Redes de restaurantes

A Keeta estima que há, no Brasil, mais de 800 redes de restaurantes com mais de cinco lojas. No entanto, seu executivo diz que mais da metade dessas redes está "bloqueada" por contratos exclusivos firmados com concorrentes.

— Vamos focar em resolver esse problema nos próximos meses. (...) Infelizmente, ainda existe muita exclusividade nesse setor no Brasil — afirmou. — Esses contratos foram firmados antes de começarmos a operar, o que nos impede de trabalhar com os estabelecimentos.

Qiu admitiu que achava que seria mais fácil operar no mercado brasileiro de delivery de comida. Mas se surpreendeu com o tamanho do desafio de fazer frente ao iFood, que hoje domina 80% do setor.

— Sabemos que o Brasil é complexo porque é um mercado grande, e estávamos cientes de algumas situações de exclusividade. (...) Mas a questão é grave aqui, e não vemos isso em outros mercados. Na China, a exclusividade é ilegal. No Oriente Médio, também. Em Hong Kong é legal, mas você só pode fazer até certo ponto. Mas, aqui, é como se metade das redes de restaurantes estivessem bloqueadas — explicou. — Não é um mercado funcional.

A Keeta começou a operar no Brasil em 30 de outubro, iniciando um piloto em Santos e São Vicente, no litoral paulista. Em dezembro, estreou na capital paulista, além de Guarulhos, São Bernardo do Campo, Santo André, Osasco, Diadema, Itaquaquecetuba, Barueri e São Caetano do Sul.

Briga chega ao Cade

Desde que anunciou, em maio do ano passado, um plano de investimento de US$ 1 bilhão (R$ 5,6 bilhões) para operar no Brasil durante evento em Pequim, com a presença do presidente Lula, a Keeta veio buscando formas de entrar no mercado brasileiro, envolvendo até a justiça quando julga necessário.

Em agosto, a plataforma chinesa foi ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) contra a 99Food, acusando a concorrente de práticas anticompetitivas, como cláusulas de exclusividade. O caso ainda segue em análise.

O iFood, que detém a maior fatia desse mercado, assinou um termo de compromisso com o Cade em fevereiro de 2023 para encerrar uma investigação sobre práticas anticoncorrenciais no mercado de delivery.

Com o desfecho, o iFood ficou proibido de fechar exclusivos com redes que tenham mais de 30 estabelecimentos. Mas Qiu diz que o iFood continua promovendo esses acordos de exclusividade nos bastidores, mesmo sendo vetada a prática pela autarquia.

Segundo Danilo Mansano, vice-presidente de parcerias comerciais para o Brasil da Keeta, a empresa tem feito todo tipo de pressão possível para mudar o cenário regulatório, incluindo suporte jurídico a restaurantes.

— Quem nos procura e diz "queremos quebrar a exclusividade, precisamos da sua avaliação", nós fornecemos suporte jurídico. Há casos de restaurantes que quebraram essa exclusividade e sofreram retaliação depois. Nós os apoiamos dando tráfego e exposição no aplicativo para que eles possam realmente se recuperar e não se sintam prejudicados do ponto de vista financeiro.

Remuneração mínima por entrega

Questionado sobre se a criação de uma remuneração mínima de R$ 8,50 por entrega - discutida em texto de comissão especial na Câmara dos Deputados - inviabilizaria os negócios da Keeta no país, o CEO Tony Qiu disse que é preciso encontrar um equilíbrio entre renda "mais estável" aos entregadores e custo baixo aos consumidores.

— Nosso objetivo é aumentar a produtividade dos entregadores para que possam receber mais pedidos em, digamos, uma hora, para que possam levar mais dinheiro para casa. Mas, se colocarmos um valor mínimo muito alto por pedido, isso aumentará o custo para o lado do consumidor.

O executivo reiterou que o impasse com relação ao valor mínimo por entrega não é o que impede a empresa de expandir sua atuação no momento, já que a lei ainda não foi implementada e não impacta os planos de fomento ao mercado.

Resta saber até quando a Keeta resistirá ao domínio do iFood no mercado. Questionado sobre até quando a plataforma chinesa ficará no Brasil, Qiu, que também é vice-presidente da Meituan, disse que a empresa mantém seu plano de investimento de cinco anos (de 2025 a 2030) e que quer estar aqui a longo prazo:

—A razão pela qual adiamos o lançamento também é por isso. Não queremos apenas queimar dinheiro sem dar uma boa experiência aos usuários, certo? Queimar dinheiro e ir embora. Isso não é responsável. Queremos garantir que, quando lançarmos, forneçamos boas seleções, boa experiência aos usuários.