Finanças

Fim da escala 6x1: implementação gradual por setor pode reduzir riscos à economia, aponta estudo

Período de transição permitiria testar redução de jornada em setores menos impactados antes de avançar para áreas mais sensíveis

Agência O Globo - 26/02/2026
Fim da escala 6x1: implementação gradual por setor pode reduzir riscos à economia, aponta estudo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Enquanto empregadores e economistas manifestam preocupação com possíveis impactos negativos do fim da escala 6x1 na economia brasileira, um estudo aponta alternativas para mitigar esses riscos. Uma nota técnica do Centro de Liderança Pública (CLP), elaborada pelo economista Daniel Duque, sugere a adoção de uma implementação gradual da nova regra, iniciando por setores com menor percentual de trabalhadores em jornadas de 44 horas semanais.

Setores menos afetados seriam os primeiros

Segundo a proposta, alguns segmentos, como o comércio, alegam que a mudança na jornada pode elevar significativamente os custos para as empresas, já que o salário pago por hora aumentaria. Economistas alertam que, caso esses custos sejam repassados aos consumidores, pode haver consequências negativas, como aumento de preços e possível redução de empregos e produção em determinados setores.

Para minimizar esses efeitos, o CLP propõe um período de transição com quatro fases. No primeiro ano, a redução para 40 horas semanais seria aplicada apenas a setores com menos de 50% dos trabalhadores sob contratos de 44 horas, como administração pública, defesa, seguridade social (com apenas 2,5% dos trabalhadores nessa condição), além de serviços financeiros, educação, tecnologia da informação, seguros, planos de saúde e pesquisa científica.

Expansão gradual para setores mais sensíveis

No segundo ano, a redução seria expandida para setores com até 60% de contratos de 44 horas, como sedes de empresas, consultorias em gestão, fabricação de produtos farmacêuticos e atividades artísticas, todos com 58% dos trabalhadores em jornadas de 44 horas.

No terceiro ano, setores com até 80% de contratos de 44 horas seriam incluídos, abrangendo publicidade, jurídico, contabilidade, auditoria, telecomunicações, arquitetura, engenharia, serviços domésticos, imobiliários, veterinários e transporte terrestre.

Fase final abrange comércio e setores de maior impacto

Na fase final, a implementação chegaria aos setores mais expostos, como o comércio, que é um dos maiores empregadores do país, com mais de 10 milhões de trabalhadores. Apesar de possível desequilíbrio temporário, o economista Daniel Duque ressalta que esse modelo permite testar os impactos antes de uma adoção mais ampla. "Se o fim da escala 6x1 gera custos econômicos que trariam dificuldades aos setores, isso deve ser testado, e esse modelo permite fazer isso. Se não houver custos e as empresas conseguirem absorver tal choque, não há desequilíbrio", afirma.

Mitigação de riscos e avaliação de impactos

Duque acredita que a proposta evita um choque abrupto de custos nos setores mais sensíveis e reduz possíveis efeitos negativos, como queda de até 1,1% no emprego formal (cerca de 640 mil vagas), redução de 0,7% na produtividade por trabalhador e de 0,7% no PIB, conforme estimativas do estudo.

O economista ressalva que o impacto real dependerá da resposta das empresas. Caso os custos sejam absorvidos nos lucros, os riscos tendem a diminuir, mas não são totalmente eliminados.

"A proposta cria uma janela de avaliação crível, com dados administrativos e recortes por setor, para medir efeitos reais sobre emprego, salários, rotatividade e informalização, e comunicar esses resultados publicamente", destaca a nota técnica.

O CLP também recomenda que a adoção gradual da medida não seja vinculada à desoneração da folha de pagamento, como discutido no Congresso Nacional. Segundo a entidade, a desoneração deveria ser tratada em uma reforma tributária mais ampla, para evitar privilégios a setores específicos e reduzir espaço para lobbies.