Finanças
Tensão na Venezuela aumenta incertezas para o comércio exterior brasileiro, avalia AEB
Redirecionamento de mercados sustentou superávit em 2025, mas cenário geopolítico e dependência de commodities dificultam projeções, aponta presidente da associação
A balança comercial brasileira terminou o ano passado com um superávit acima das expectativas, mesmo diante do tarifaço imposto pelos Estados Unidos e de um cenário internacional adverso. Apesar do bom desempenho, os riscos persistem, segundo José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Ele ressalta que, enquanto o Brasil seguir fortemente dependente de commodities, a tensão geopolítica, agravada pela intervenção americana na Venezuela, poderá afetar preços e produção de petróleo, ampliando as incertezas para 2026.
Balança superavitária apesar dos desafios
Questionado se o temor do tarifaço foi maior que seu impacto prático, Castro explica que, apesar das previsões de bloqueio às importações e queda no comércio, o redirecionamento de mercados e a valorização de determinados produtos, como o petróleo, permitiram resultados surpreendentemente positivos. "Esperávamos uma redução do superávit, menor comércio global e queda nos preços das commodities, mas nada disso aconteceu", afirma. Para 2026, o cenário permanece incerto: "O resultado pode se repetir, mas também pode ser completamente diferente".
Redirecionamento de mercados foi decisivo
Segundo Castro, o principal fator para a resiliência da balança foi o redirecionamento de mercados e commodities. "A carne bovina, por exemplo, superou todos os recordes. O petróleo segue como principal item da pauta de exportação, seguido por carne e outros produtos", detalha. Ele acrescenta que, embora operações entre empresas brasileiras e suas matrizes no exterior possam ter ocorrido, esse movimento é difícil de mensurar.
Incertezas persistem para 2026
Sobre as perspectivas para a balança comercial diante das tarifas dos EUA, do governo Trump e da situação na Venezuela, Castro aponta que a indefinição permanece. "Até agora, não temos segurança de nada. Não temos base para planejamento de longo prazo. O próprio ministro Geraldo Alckmin trabalha com projeções amplas, reconhecendo a dificuldade do cenário", analisa. Ele destaca ainda possíveis impactos negativos decorrentes de uma eventual moratória dos agricultores americanos, o que poderia afetar a inflação nos EUA e o comércio global, além das incertezas econômicas na China.
Impactos geopolíticos e riscos no petróleo
A guerra entre Rússia e Ucrânia e a recente intervenção americana na Venezuela também preocupam. "A decisão de Trump, invadindo a Venezuela, pode impactar fortemente o preço do petróleo", observa. Castro lembra ainda que, sem a atuação efetiva de organismos como a OMC e a ONU, as decisões internacionais carecem de segurança jurídica e técnica. "Se a Venezuela aumentar sua produção, os preços podem cair, afetando as exportações brasileiras", alerta.
Dependência do petróleo e desafios estruturais
Mesmo com a expectativa de aumento da receita do petróleo devido à exploração do pré-sal, Castro ressalta a vulnerabilidade do Brasil: "Estamos sempre contando com produtos sobre os quais não temos controle de preço ou quantidade". Ele destaca que a corrente de comércio brasileira permanece estável há anos, indicando necessidade de mudanças estruturais.
Reforma tributária pode ser caminho
Castro aponta a reforma tributária como uma possível solução para tornar o Brasil mais competitivo, especialmente na exportação de manufaturados para a América do Sul. No entanto, ele ressalta a importância de acompanhar a implementação da reforma, que terá período de transição, e lembra que o ano eleitoral pode influenciar decisões técnicas. "É uma expectativa que precisamos manter para não continuarmos presos ao passado", conclui.
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