Finanças

Após ondas de nacionalização, que petrolíferas estrangeiras seguem na Venezuela? E quais as chances de outras voltarem?

Chevron, dos EUA, tem a produção de cerca de 20% do petróleo do país

Agência O Globo - 04/01/2026
Após ondas de nacionalização, que petrolíferas estrangeiras seguem na Venezuela? E quais as chances de outras voltarem?
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

No começo dos anos 2000, grandes petrolíferas descobriram que havia muito dinheiro a ser ganho, mas também muito a perder na Venezuela. Duas ondas de nacionalização comandadas pelo governo de Hugo Cháves fizeram estrangeiras se dividirem entre permanecer ou sair do país. Entre os que seguem operando por lá estão ativos da Espanha, Itália e França — e até uma norte-americana, com autorização especial.

Seduzidas pelas riquezas subterrâneas, permaneceram na Venezuela a espanhola Repsol, a italiana Eni e a francesa Maurel & Prom. Elas são parceiras em empreendimentos com a estatal Petroleos de Venezuela SA. Por sua vez, a Chevron, dos EUA, negociou uma série de acordos para continuar no país sob Cháves e operou com permissão norte-americana tanto em administrações republicanas quanto democratas da última década.

A Chevron atualmente bombeia cerca de 140 mil barris por dia da Venezuela e os envia para refinarias na Costa do Golfo. Com a produção de cerca de 20% do petróleo do país, a empresa está em posição de destaque para ajudar a destravar mais produção de petróleo venezuelano. E alimenta uma dúvida sobre as chances de estrangeiras que deixaram o país retornarem, após a deposição de Nicolás Maduro em um ataque coordenado por Donald Trump neste sábado.

Até agora, o foco da Chevron tem sido principalmente obter o reembolso de suas próprias dívidas, em vez de injetar novos dólares no crescimento da produção. Procurada diante do novo cenário, a empresa afirmou que continua a “operar em plena conformidade com todas as leis e regulamentos relevantes”, focada na segurança de seus funcionários e na integridade de seus ativos.

Para especialistas no setor, não está claro quão dispostas grandes petroleiras estrangeiras estão a investir somas substanciais de dinheiro em um país administrado por um governo temporário apoiado pelos EUA, sem regras legais e fiscais estabelecidas.

Empresas saíram do país, mas podem voltar

As ondas de nacionalização deixaram um gosto amargo em empresas como Shell, Exxon e ConocoPhillips, com estas duas últimas ainda tendo bilhões de dólares em compensação pendentes após seus ativos terem sido apreendidos.

A ExxonMobil, maior empresa petrolífera dos EUA, esteve entre vários grupos ocidentais cujos ativos foram expropriados em 2007. Sete anos depois, recebeu US$ 1,6 bilhão de um painel internacional de arbitragem pela nacionalização de seu projeto Cerro Negro, na faixa petrolífera do Orinoco. Em novembro de 2025, Darren Woods, CEO da empresa, disse que consideraria investir na Venezuela, mas apenas sob as condições econômicas certas: “Eu não colocaria isso na lista nem tiraria da lista.”

Também no ano passado, um tribunal arbitral do Banco Mundial rejeitou o pedido da Venezuela para anular uma indenização arbitral de US$ 8,37 bilhões concedida à ConocoPhillips pela expropriação de seus projetos Hamaca, Petrozuata e Corocoro. Por isso, Francisco Monaldi, diretor de política energética para a América Latina da Universidade Rice, em Houston, considera que a empresa tem “incentivos significativos para retornar” e recuperar o que lhe é devido — embora o movimento seja "altamente improvável" no momento de instabilidade política.

Questionada sobre a situação, a ConocoPhillips afirmou que está monitorando os desenvolvimentos na Venezuela e suas potenciais implicações para o fornecimento e estabilidade energética global, acrescentando que seria “prematuro especular sobre quaisquer futuras atividades ou investimentos comerciais”.

Retomada rápida é difícil

Na prática, analistas veem dificuldades para uma retomada rápida da produção petrolífera por empresas dos EUA na Venezuela e citam o aumento do risco geopolítico — com a posição da China sendo importante nesta equação — como uma grande fonte de incerteza para o mercado global de petróleo após a ação militar inédita de Trump.

As empresas americanas terão que aderir à estratégia de Trump em um país instável, sob intervenção militar estrangeira e convulsionado socialmente. E as tensões com a China tendem a se acirrar, trazendo instabilidade para toda a América Latina, inclusive o Brasil, país que é grande destino de investimentos chineses em energia e agricultura, alerta o professor do Instituto de Energia da PUC-Rio, Edmar Almeida.

— Trump não manda nas empresas americanas. Quem vai decidir colocar dinheiro num país sob intervenção militar estrangeira, convulsionado? Elas vão querer se posicionar de forma concreta e massiva no país? É tudo muito instável.