Esportes
Da Libertadores à Série C: a queda livre do América-MG até a terceira divisão do futebol brasileiro
Coelho foi de uma classificação histórica para a Libertadores em 2022 ao rebaixamento para a Série C em 2026, em meio a crises esportivas e financeiras
Em 2022, o América-MG viveu um dos capítulos mais importantes de sua história. Pela primeira vez, o clube disputou a fase de grupos da Libertadores, depois de superar dois adversários nas etapas preliminares e garantir uma classificação histórica. Quatro anos depois, o cenário é muito diferente: o Coelho está rebaixado para a Série C do Campeonato Brasileiro, após uma campanha marcada por derrotas, instabilidade no comando técnico e dificuldades financeiras.
A queda não aconteceu de uma temporada para outra. Entre o auge esportivo e o retorno à terceira divisão, o América acumulou campanhas sem acesso, perdeu oportunidades de voltar à elite e enfrentou déficits financeiros crescentes. O descenso confirmado em outubro de 2026 representou o ponto mais crítico de um processo que se aprofundou ao longo de três temporadas consecutivas na Série B.
Da ascensão histórica à estreia na Libertadores
A trajetória recente do América começou a ganhar força em 2020. Naquele ano, o clube chegou à semifinal da Copa do Brasil, eliminando Corinthians e Internacional antes de cair diante do Palmeiras. A campanha rendeu R$ 17,6 milhões em premiações, valor mais de três vezes superior aos R$ 5,7 milhões previstos no orçamento para receitas relacionadas a competições e jogos.
O Coelho também conquistou o acesso à Série A e consolidou sua evolução na temporada seguinte. Em 2021, terminou o Campeonato Brasileiro na oitava colocação, então sua melhor campanha na era dos pontos corridos, e garantiu uma vaga inédita na Pré-Libertadores. A equipe mineira também foi vice-campeã estadual, perdendo a decisão para o Atlético-MG.
A classificação continental se transformou em realidade em 2022. Para chegar à fase de grupos, o América precisou superar o Guarani, do Paraguai, e o Barcelona de Guayaquil, do Equador, este último nos pênaltis, em território equatoriano.
O Coelho terminou sua primeira participação na Libertadores na última colocação do grupo, com dois empates e quatro derrotas. Apesar da eliminação, manteve um desempenho competitivo no cenário nacional: ficou em décimo lugar no Brasileirão, garantiu vaga na Copa Sul-Americana do ano seguinte e chegou às quartas de final da Copa do Brasil.
Financeiramente, o período também foi importante. Em 2022, o clube recebeu R$ 53,3 milhões em premiações, incluindo R$ 24,7 milhões relacionados à campanha no Campeonato Brasileiro. A combinação de resultados esportivos, receitas e negociações de atletas alimentou a expectativa de avanço na estrutura administrativa do América.
2023: recordes financeiros e o primeiro grande sinal de alerta
A temporada seguinte reuniu conquistas e frustrações. O América voltou a fazer campanhas relevantes em torneios eliminatórios, alcançando as quartas de final da Copa do Brasil e da Sul-Americana. Na competição continental, protagonizou vitórias expressivas contra adversários tradicionais, como Peñarol e Colo-Colo.
O clube também alcançou um marco fora de campo. Em março de 2023, o lateral-direito Arthur foi convocado pela primeira vez para a Seleção Brasileira principal, tornando-se o primeiro jogador do América a receber uma convocação desse tipo na era recente do futebol do clube. Em abril, o Coelho anunciou a venda do atleta ao Bayer Leverkusen, da Alemanha, em uma negociação que se tornou a maior de sua história.
O faturamento operacional bruto chegou a aproximadamente R$ 187,9 milhões em 2023, recorde para o clube. Mesmo assim, o resultado financeiro terminou negativo, com déficit de R$ 22,1 milhões. O contraste entre o recorde de receitas e o prejuízo já indicava que o crescimento da arrecadação, sozinho, não garantia equilíbrio financeiro.
No gramado, o desempenho no Campeonato Brasileiro foi muito pior do que nas copas. O América terminou na última colocação, com apenas 24 pontos, cinco vitórias, nove empates e 24 derrotas. O rebaixamento foi confirmado com cinco rodadas de antecedência, encerrando a passagem do time pela elite depois de três temporadas consecutivas.
A queda também significou uma mudança importante nas perspectivas financeiras. Disputar a Série B representa uma redução nas receitas em comparação com a primeira divisão, ao mesmo tempo que o clube precisa reorganizar o elenco e manter uma estrutura competitiva para tentar retornar à elite.
Três temporadas na Série B e nenhum acesso
O primeiro ano após o rebaixamento ainda terminou relativamente perto do objetivo esportivo. Em 2024, o América ficou na oitava posição da Série B, a seis pontos da zona de acesso. O retorno imediato não aconteceu, e a equipe também teve uma participação curta na Copa do Brasil, com eliminação diante do Maringá na primeira fase.
O desempenho esportivo veio acompanhado de uma deterioração financeira. O déficit do exercício de 2024 superou R$ 58 milhões, um aumento de aproximadamente 164% em relação ao resultado negativo registrado no ano anterior.
Em 2025, a situação não melhorou suficientemente. O Coelho terminou a Série B na 14ª colocação, seis pontos acima da zona de rebaixamento. O vice-campeonato mineiro foi um dos poucos resultados positivos da temporada, enquanto a Copa do Brasil voltou a terminar com eliminação na primeira fase, desta vez diante do Cascavel.
As contas também seguiram no vermelho, com déficit superior a R$ 60 milhões em 2025. Em duas temporadas consecutivas na segunda divisão, o América não conseguiu construir uma campanha de acesso e passou a conviver com uma ameaça que, até então, parecia distante: a possibilidade de cair novamente.
2026: crise esportiva, troca de técnicos e rebaixamento antecipado
O pior capítulo chegou em 2026. O América passou as 12 primeiras rodadas da Série B sem vencer e permaneceu na zona de rebaixamento a partir da segunda rodada. A equipe também não conseguiu conquistar duas vitórias consecutivas em nenhum momento da campanha até o momento.
A instabilidade no banco de reservas agravou o cenário. Ao longo da temporada, cinco treinadores passaram pelo comando da equipe principal, em um período de mudanças e passagens curtas que não conseguiram interromper a sequência negativa.
A queda foi confirmada em 7 de outubro, após derrota por 1 a 0 para o Fortaleza, no Independência, em Belo Horizonte. Com o resultado, o América não tinha mais condições matemáticas de alcançar o Botafogo-SP, primeiro time fora da zona de rebaixamento naquele momento. O descenso foi decretado com seis rodadas de antecedência.
Na ocasião, o Coelho tinha 17 pontos em 32 partidas, com quatro vitórias, cinco empates e 23 derrotas. A equipe havia marcado 21 gols e sofrido 53. A volta à terceira divisão ocorre pela primeira vez desde 2009.
A revolta da torcida se manifestou no próprio estádio. Durante e após a derrota para o Fortaleza, torcedores protestaram contra jogadores e dirigentes, com gritos de cobrança e a execução da tradicional marcha fúnebre em tom de ironia. Um torcedor também chamou atenção ao comparecer fantasiado de palhaço, em um protesto contra a situação do clube.
O resultado dentro de campo foi o desfecho de uma temporada de baixo rendimento, mas a crise do América não se limitava às quatro linhas.
Crise financeira e impasse sobre a SAF
Enquanto os resultados pioravam, o clube enfrentava dificuldades para reorganizar as finanças e encontrar um caminho de investimento. As negociações para implantação de uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) estavam estagnadas desde 2022, e uma proposta de investimento analisada pelo Conselho Deliberativo em 2026 acabou rejeitada.
A estrutura administrativa também passou por mudanças. Em setembro de 2025, Alencar da Silveira Júnior deixou a presidência da associação para assumir um cargo no Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais. No mesmo ano, Dower Júnior, então CEO e presidente da SAF americana, também se desligou. Márcio Vidal passou a acumular as funções de liderança da associação e da SAF.
Outro sinal da situação financeira apareceu em setembro de 2026, quando o América foi comunicado de uma restrição preventiva e parcial para registrar novos jogadores, com base nas regras de fair play financeiro. A medida não impedia automaticamente contratações, mas condicionava cada negociação à autorização prévia da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF).
A restrição veio após o clube apresentar à Câmara Nacional de Resolução de Disputas um plano coletivo para organizar o pagamento parcelado de débitos com intermediários, outros clubes e atletas. O América informou que aguardava a homologação do plano, como parte das medidas de reestruturação financeira.
Os números mostram a dimensão do desafio: depois de atingir faturamento recorde em 2023, o clube acumulou déficits superiores a R$ 58 milhões em 2024 e R$ 60 milhões em 2025. A combinação de receitas menores, dificuldades de investimento e resultados esportivos insuficientes tornou cada vez mais difícil a reconstrução do projeto para voltar à Série A.
Virada de chave tardia não muda o destino
Mesmo depois da confirmação do rebaixamento, o América voltou a vencer. Em 17 de outubro, derrotou o Operário-PR por 1 a 0, no Independência, e chegou aos 20 pontos na Série B. O resultado encerrou um período de 38 dias sem vitória, mas não alterou a situação da equipe na tabela, uma vez que a queda já estava matematicamente confirmada.
A vitória ao menos permitiu ao clube superar a pontuação final de 17 pontos que o Duque de Caxias havia registrado na Série B de 2011, até então a menor marca histórica da competição no formato de pontos corridos.
A reação tardia, porém, não apaga a trajetória que levou o América de uma classificação inédita para a Libertadores ao retorno à terceira divisão em apenas quatro anos. A equipe que chegou a competir com alguns dos principais clubes do continente agora terá de reconstruir seu projeto esportivo e financeiro longe da elite nacional.
O desafio para o América será transformar o rebaixamento em um ponto de partida para a reorganização. Sem acesso nas três temporadas em que disputou a Série B, com perdas financeiras expressivas e um impasse sobre a entrada de investimentos, o clube precisará recuperar estabilidade dentro e fora de campo antes de sonhar novamente com o caminho que o levou à Libertadores.
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