Esportes
Goleiro Vozinha torce por novo contrato: "lugar onde possa ser feliz"
Esportes, Copa do Mundo 2026, Vozinha, Cabo Verde, Espanha
Um goleiro cabo-verdiano, de 40 anos , sem contrato ativo com um clube, estreando na Copa do Mundo contra uma das favoritas para ganhar o Mundial: a Espanha. No final da partida, foi ele o principal responsável pelo empate de 0 a 0 , o que o transformou em uma celebridade mundial e no melhor jogador em campo , segundo a Federação Internacional de Futebol (Fifa).

O feito rendeu a Josimar José Évora Dias, a Vozinha, mais de 12 milhões de seguidores nas redes sociais e um lugar no coração dos brasileiros.
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O guarda-redes, como é chamado a posição de goleiro em Cabo Verde, se profissionalizou aos 25 anos, muito depois do que costuma ser o padrão no futebol.
E, se tarde entrou para o nível de alto rendimento, não seria cedo que desistiria de seguir carreira. Vozinha espera que a visibilidade alcançada renda um novo contrato para que seja “feliz” nos seus últimos anos de atuação .
Outra esperança do cabo-verdiano da ilha de São Vicente é que os jovens atletas do seu país se beneficiem da fama recente da seleção e conquistem melhores condições para a prática do esporte.
Em entrevista exclusiva ao jornalista André Vieira (que está em Cabo Verde), correspondente da Telesur ─ parceira da TV Brasil ─, Vozinha contornou a expectativa dos jogadores da seleção para as próximas partidas, e um pouco da própria história e dos laços com a cultura brasileira.
Confira os principais trechos da entrevista
André Vieira: Vozinha, aqui em Cabo Verde, está dizendo que era 1% de chance e 99% de fé. Como está o clima para vocês após esse empate?
Vozinha: Tranquilo. Obviamente, que a malta [galera] ficou muito feliz pelo resultado, pelo esforço e pela exibição que conseguimos. Mas nós sabemos da qualidade do nosso grupo. Sabemos das nossas limitações também, mas sabemos que podemos competir com qualquer seleção.
Tudo pode acontecer em 90 minutos, mas nós estamos aqui para competir, como eu disse, para dignificar o nome de Cabo Verde. Estamos felizes com o resultado, estamos satisfeitos, mas ainda não acabou. Tem um longo caminho pela frente.
André Vieira: No Brasil, não se fala de outra pessoa. Você é uma sensação nesse momento. E uma das coisas que têm circulado bastante é o seu aumento gigantesco, fenomenal de seguidores nas redes sociais. Como você está lidando com isso?
Vozinha: Tem sido realmente incrível, não esperava por isso. Não sei como é que vou continuar a ser a mesma pessoa e a mesma Vozinha de sempre. Mas gostaria de agradecer a todos que aderiram a isso, a todos os seguidores, a todos os brasileiros e a todas as pessoas que fizeram isso acontecer.
André Vieira: E sua mãe? Explica um pouquinho desse processo, como é que está?
Vozinha: Há muitas coisas que estão distorcidas. A minha mãe nunca passou para fora de Cabo Verde. Ela nem gosta de ir para as outras ilhas. Para tirá-la de São Vicente e ir para outras ilhas, já é com muito esforço. Então, no primeiro momento, a minha mãe não queria vir.
Quando ouvi que eu tinha que pagar a caução de US$ 15 mil [exigência dos Estados Unidos para entrada no país], ela disse que não valia, que preferia que eu desse o dinheiro a ela. E, como ela nunca teve passaporte, ela não ligou para aquilo. Depois, já no final, quando ela viu que o meu pai já tinha ido tratar do visto, ela se sensibilizou e sentiu que era bom estar aqui. E, nesse momento, está tudo a ser tratado.
Há muitas notícias que são falsas, há muita gente que tem tentado ajudar e agradeço por isso, do fundo do coração, mas todas as exceções que têm que ser tratadas, estão sendo. Vou tentar ver se convenço a minha mãe a vir, porque eu gostaria que ela estivesse aqui também, mas é sempre complicado a minha mãe viajar, e espero que também consiga alguém para viajar com ela, porque ela não fala línguas estrangeiras e nunca casual.
>> Depois da entrevista, a mãe de Vozinha obteve o visto para viajar para a Copa do Mundo
André Vieira: Eu queria que você falasse como foi seu começo no futebol. E também contase um pouquinho do motivo da “Vozinha” .
Vozinha: O meu pai jogou futebol por diversão. Na minha casa, todos amam futebol e, desde sempre, tive aquela paixão por futebol, como vocês dizem no Brasil, né, desde o jardim de infância.
Sempre gostei de ir à baliza e também gostava de jogar de central, mas, quando cheguei à idade dos infantis, o treinador disse que tinha que decidir entre a baliza ou ser jogador de campo. E, como eu sempre amei a baliza, descobri por lá. No início, foi tudo muito bom, porque, na idade do sub-12, todo o mundo era da mesma altura. Sempre fui um dos melhores guarda-redes da minha ilha.
Depois, já na idade do sub-17, eu era um pouco baixinho. Então, muitas vezes, os treinadores abdicavam de mim, porque era muito baixinho e metiam os guarda-redes [goleiros] maiores e mais altos.
Mas eu sempre cresci entre casa e rua. Eu passando mais tempo na rua a jogar futebol do que em casa. Acho que sempre fui uma pessoa muito focada, muito dedicada, muito disciplinada. Sempre sonhei com o futebol, em ser profissional.
Cresci com os meus avós, daí que vem o meu nome, porque era muito rebelde, andava sempre na rua. Às vezes, levava alguma porrada, no jogo ou fora do jogo, e, às vezes, não conseguia dar, porque as outras pessoas eram maiores ou eram mais fortes. E eu fiquei com raiva e falei que ia fazer reclamação às minhas avós.
As minhas avós sempre serviram lá para mim e a minha mãe. E é isso. Sou um miúdo da ilha de São Vicente e cresci na rua. Cresci, sempre tive casa, mas passando mais tempo da minha infância na rua jogando futebol.
Comecei a jogar nos juniores, com 17 anos, e representei os clubes Ribeira Bote, Derby, Mindelense, Batuque. Depois, surgiu a oportunidade de ir para Angola, no Progresso, onde comecei a minha trajetória profissional.
Ainda joguei seis meses em Cabo Verde, queria ir para a Europa. Joguei uma época no Zimbru [da Moldávia], depois estive no Gil Vicente [Portugal] por uma época, e joguei cinco anos no Chipre, no AEL Limassol ─ a equipa em que eu joguei mais tempo. Depois, tive uma experiência na Eslováquia, e, nos dois últimos anos, joguei no GD Chaves, de Portugal.
O meu contrato terminou em maio e, nesse momento, sou um jogador livre. Estou aqui focado na seleção e no Mundial, pronto para ajudar o meu país.
André Vieira: O que o futebol mudou na sua vida, na vida da sua família, e qual a importância que tem esse esporte para você?
Vozinha: Eu amo o futebol. O futebol me conseguiu dar condições para ajudar a minha avó, que foi alguém que fez tudo para que eu tivesse uma boa educação e que, no final, teve Alzheimer e é uma pessoa que precisava muito de mim. Consegui ajudá-la, consegui ajudar minha mãe, consegui construir a casa da minha mãe. Graças a Deus, sempre tive as três refeições por dia, porque as minhas avós e os meus pais, mesmo não estando na mesma casa, sempre foram presentes na minha vida, mas o futebol deu-me tudo.
Tornou-me no que eu sou: uma pessoa ─ acho que ─ muito humilde, uma pessoa muito respeitada, amiga de todos, uma pessoa muito disciplinada e trabalhadora. É uma pessoa muito resiliente, porque começou a jogar o futebol profissional com 25 anos, próximo de ter 26, ainda mais para um guarda-redes que não teve formação de base. É muito tarde, mas os anos todos que eu tive no futebol são anos gratificantes. Tive momentos altos e baixos, mesmo na seleção. Eu sempre fiz com amor e eu amo o meu país, eu amo representar a minha seleção.
André Vieira: A gente percebe em Cabo Verde a influência da novela e a influência do próprio futebol. Eu queria saber de você como o Brasil te influencia, para além de jogador, como pessoa?
Vozinha: Nós, em Cabo Verde, apesar de sermos muito ricos na cultura, na música, sempre ouvimos os artistas brasileiros, ainda mais os das décadas passadas. O meu avô divertido de Roberto Carlos, por exemplo. Ivete Sangalo também ouvimos, por causa das músicas do carnaval, e Cidade Negra, Revelação, Seu Jorge. Então, sempre consumimos um pouco da música brasileira em Cabo Verde.
André Vieira: A gente esteve em uma escola de futebol e muitos dos meninos, não só os goleiros, você tem como ídolo. Quem é o seu ídolo?
Vozinha: Eu já tive muitos ídolos, mas gostei muito do Michel Preud'homme, que era guarda-redes do Benfica e da seleção da Bélgica, porque eu era um adepto do Benfica. Gostava muito do Rogério Ceni e do [José Luis] Chilavert, porque, quando era miúdo, gostava de bater pênaltis. O [Gianluigi] Buffon, para mim, é uma referência da baliza mundial, e muito apreciado pelo [Edwin] van der Sar. O Buffon, dentro da baliza, e o van der Sar, por ser versátil e muito bom com os pés.
André Vieira: Você está falando da sua família, da importância do futebol, o que te emociona, o que toca o seu coração?
Vozinha: No nosso país, o reconhecimento é muito pouco. Somos um país sem muitas referências nacionais. E isso, eu acho, é um grande erro. Graças a Deus e ao esforço de toda a federação e de todos os jogadores, mesmo os anteriores, hoje em dia, a seleção, os Tubarões Azuis, têm um nome e já vemos muitas pessoas com a euforia, com o amor próprio, o orgulho de serem cabo-verdianos. As crianças se espelham na gente.
E me emociono porque, nesses momentos, gostaria que as avós fossem vivas, porque foram as pessoas, tirando os meus pais, que deram tudo para eu ser a Vozinha que sou hoje.
André Vieira: Em que você acha que Brasil e Cabo Verde se parecem?
Vozinha: É uma cultura muito igual. Somos países de língua portuguesa e também fomos colonizados. Então, acho que a alegria do cabo-verdiano e do brasileiro é parecida. O clima, as praias. E vocês gostam muito de se divertir, das festas, nós também, mas, culturalmente, Brasil e Cabo Verde são países muito ricos culturalmente.
André Vieira: Tem algum lugar que você gostaria de chegar depois de ter conquistado tanta coisa, agora participando de uma Copa do Mundo?
Vozinha: Nesse momento, eu quero ajudar Cabo Verde a chegar o mais longe possível no Mundial. Sei que não vai ser fácil, temos que trabalhar muito para isso. Eu acho que, pela carreira que eu fiz, por tudo o que eu fiz como pessoa e como jogador, talvez merecesse jogar em campeonatos de dimensões maiores, mas também sei que, muitas vezes, vou ver a idade.
Nesse momento, espero que, sinceramente, depois disso tudo, aplique algum lugar onde eu possa ser feliz, fazer um bom contrato e estar satisfeito. Vamos ver o que o futebol e a vida têm guardado para mim para esses últimos dois, três ou quatro anos da minha carreira.
Eu sou grato por estar aqui na Copa e estar representando meu país. Era só um sonho e eu estou na realidade. No futebol, o dia de amanhã, não sabemos, mas o que importa é o dia de hoje. Vamos trabalhar para dignificar Cabo Verde. E, quiçá, eu abro portas para alguns mercados, onde me queiram mesmo com a minha idade e onde possa ser feliz.
André Vieira: Vem aí Uruguai e Arábia Saudita. Qual é a principal dificuldade desses dois grupos, dessas duas vezes que você vai encontrar logo, logo?
Vozinha: Acho que vai ser muito difícil. O Uruguai é uma seleção que tem uma alma, uma garra, que é extraordinária. Uma seleção que já foi campeã mundial, com jogadores top mundiais. Vamos estar a fazer de tudo para contrariar o Uruguai.
Arábia também é uma seleção que já tem mais andanças no Mundial que a gente. Uma seleção que venceu a Argentina no último Mundial. Mas temos que pensar em nós, entrar no campo como entramos com a Espanha, não vender caras, não vender nomes, e fazer o que tiver ao nosso alcance.
André Vieira: E, para finalizar, uma mensagem para o mundo, para o seu povo e para todo mundo que te acompanha.
Vozinha: Agradecer por todo o carinho que tenho recebido, por tudo que tenho feito por mim, os apoios a todos. Só digo obrigado. Obrigado mesmo, de coração. Estou de coração cheio. E continuo apoiando Cabo Verde.
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