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Revolução do Haiti: a história vetada pela Fifa em camisa da Copa

Uniforme da seleção haitiana fazia referência à Batalha de Vertières, marco da independência do país e da abolição da escravidão

Agência Brasil 12/06/2026
Revolução do Haiti: a história vetada pela Fifa em camisa da Copa
Gravura sobre o Haiti colonial; camisa da seleção teve referência histórica vetada pela Fifa.

Quando estrear na Copa do Mundo de futebol, no sábado (13), o Haiti não exibirá mais em sua camisa a ilustração de um episódio emblemático da história moderna: a revolução que levou à abolição da escravidão e à independência do país, entre 1791 e 1804.

A seleção caribenha precisou alterar os uniformes de jogo após veto da Federação Internacional de Futebol (Fifa). A entidade alegou que a imagem configurava manifestação política, o que é proibido por seu regulamento.

O desenho mostrava um grupo de pessoas segurando uma bandeira vermelha e branca. Em entrevista ao The Athletic, veículo dos Estados Unidos ligado ao The New York Times, um representante do Haiti afirmou que a arte fazia referência à Batalha de Vertières. Ocorrido em 1803, o confronto foi decisivo para a derrota francesa no território haitiano.

A inclusão da imagem valorizava um símbolo de orgulho nacional e também remetia a uma coincidência histórica. A batalha ocorreu em 18 de novembro de 1803. Já a seleção de futebol do Haiti garantiu vaga na Copa do Mundo em 18 de novembro de 2025, ao vencer a Nicarágua por 2 a 0, pelas Eliminatórias.

O professor e mestre em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Gabriel Léccas, pesquisa a memória da Revolução Haitiana. Ele lembra que esta não é a primeira vez que uma entidade esportiva censura imagens históricas associadas a uma delegação do Haiti.

Em fevereiro deste ano, nos Jogos de Inverno na Itália, o Comitê Olímpico Internacional (COI) proibiu uma ilustração de Toussaint Louverture, um dos líderes da revolução, no uniforme que o Haiti usaria na cerimônia de abertura. O argumento também foi o de que se tratava de elemento político.

“São demonstrações do silenciamento histórico e político da memória da revolução e dos sujeitos históricos que a construíram. Esse silenciamento se deu no século XIX pelos discursos escravistas, quando as elites temiam uma nova revolução escrava.”

Segundo Léccas, esse processo se expressa em discursos racistas, marcados por uma visão de mundo que não reconhece o protagonismo de sujeitos históricos não brancos na luta por direitos e no enfrentamento das hierarquias raciais.

Entenda, a seguir, o que foram a Revolução do Haiti e a Batalha de Vertières.

Colonização

Segundo o historiador Marco Morel, no livro A Revolução do Haiti e o Brasil Escravista (2017), a ilha caribenha era habitada pelo povo indígena Taïno, também chamado de Arawak, que denominava o território de Haïti, ou “terra montanhosa”, antes da chegada dos europeus. Em 1492, Cristóvão Colombo desembarcou no local e batizou a ilha de Hispaniola.

A população indígena, estimada entre centenas de milhares e um milhão de pessoas, foi dizimada em poucas décadas por massacres, doenças trazidas pelos europeus e pelo trabalho forçado nas minas imposto pelos espanhóis.

Para suprir a falta de mão de obra, o rei Carlos V, da Espanha, autorizou, em 1517, a importação de africanos escravizados para a ilha. Os espanhóis concentraram sua colonização na parte oriental. A porção ocidental foi cedida à França em 1697 e passou a ser chamada de Saint-Domingue, ou São Domingos.

A economia nessa área era baseada em um tripé de agricultura de exportação: cana-de-açúcar, café e anil. Em 1789, a colônia representava dois terços do comércio exterior da França e era o maior mercado individual do tráfico negreiro europeu. A sociedade era dividida entre uma minoria de brancos e negros libertos e uma maioria formada por africanos e seus descendentes escravizados.

A vida dos escravizados era regulada pelo Code Noir, o Código Negro de 1685, que previa castigos corporais severos e mecanismos para evitar rebeliões. As medidas, no entanto, não impediram o colapso do sistema colonial.

Revolução

No livro Os Jacobinos Negros: Toussaint L’Ouverture e a Revolução de São Domingos, o historiador caribenho C. L. R. James explica que o enfraquecimento do poder da França e a circulação, na ilha, de ideais iluministas de liberdade e igualdade criaram um ambiente favorável à revolta.

A rebelião foi organizada por lideranças de origem africana, como Toussaint Louverture, Jean-Jacques Dessalines e Henri Christophe. Esses personagens foram chamados pelo pesquisador de “jacobinos negros”, pela semelhança com os jacobinos da Revolução Francesa (1789–1799), grupo associado às camadas populares e à defesa mais firme da igualdade social.

Em São Domingos, o levante armado começou efetivamente na noite de 22 de agosto de 1791, quando centenas de engenhos e plantações foram destruídos e colonos brancos foram mortos. A ilha entrou, então, em uma guerra que durou 12 anos.

Embora a França tenha decretado formalmente a abolição da escravidão em suas colônias em 1794, o governo liderado por Napoleão Bonaparte enviou uma expedição militar em 1802 com o objetivo de restabelecer o regime escravista na ilha. A medida provocou a união das forças rebeldes locais em uma guerra total pela independência.

Batalha de Vertières

O confronto decisivo contra as tropas francesas ocorreu em novembro de 1803, nas proximidades do Cabo Francês, atual Cabo Haitiano. Forças rebeldes formadas por negros, sob liderança de Jean-Jacques Dessalines, concentraram a ofensiva contra o exército comandado pelo general francês Donatien de Rochambeau.

Durante os combates, destacou-se a atuação do oficial haitiano François Capois, conhecido como Capois-la-Mort, que liderou o avanço de sua coluna militar sob fogo de artilharia. A vitória das tropas comandadas por Dessalines forçou a evacuação e a rendição definitiva dos soldados franceses no território.

Independência e impacto

Em 1º de janeiro de 1804, Dessalines proclamou oficialmente a independência de São Domingos, rebatizada com o nome de origem indígena Haiti. O ato marcou a fundação da primeira república negra do mundo e do primeiro Estado nacional das Américas a abolir legalmente a escravidão desde sua origem.

O processo revolucionário haitiano teve repercussão internacional e influenciou movimentos emancipacionistas e debates sobre direitos civis e raciais em outros territórios das Américas, inclusive no Brasil durante o período imperial.

Para o historiador Gabriel Léccas, um dos elementos mais importantes da Revolução Haitiana foi o fato de ela ter sido a primeira a combinar a luta anticolonial com um programa político abolicionista.

“O traço que contribui diretamente para esse pioneirismo foi o protagonismo de negros, libertos e escravizados nas lutas de independência.”

O professor explica que a revolução fundou um império abolicionista em que os cidadãos, de qualquer cor, eram denominados negros, ressignificando o termo negritude como identidade política.

“Esse aspecto questionou a ideia de humanidade elaborada por movimentos como a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos, que inicialmente não reconheceram a cidadania de negros e mestiços.”