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Maior grupo de chimpanzés selvagens registra divisão letal inédita em Uganda, relatam pesquisadores
Estudo revela ruptura violenta e rara entre chimpanzés de Ngogo, fenômeno observado ao longo de três décadas.
A comunidade de chimpanzés de Ngogo, em Uganda, tornou-se palco do que os pesquisadores descrevem como a primeira divisão letal claramente documentada dentro de um único grupo selvagem da espécie.
Após décadas convivendo, alimentando-se e patrulhando juntos, os animais passaram a se evitar e, posteriormente, a se atacar. Cientistas compararam o processo a uma espécie de "guerra civil" entre primatas. O observado, acompanhado por mais de 30 anos, revela como relações sociais deterioradas podem desencadear conflitos profundos, mesmo entre indivíduos da mesma comunidade cultural.
Para os autores do estudo, liderados por Aaron Sandel, da Universidade do Texas em Austin, o caso desafia a explicação tradicional sobre violência coletiva e sugere que dinâmicas relacionais, mais do que fatores externos, podem estar na raiz de divisões fatais.
A descoberta reacendeu debates iniciados nos anos 1970, quando Jane Goodall registrou uma cisão violenta entre chimpanzés na Tanzânia. Embora aquele episódio tenha se tornado emblemático, as críticas posteriores questionaram se a intervenção humana teria influenciado o conflito. Em Ngogo, porém, a ruptura ocorrida em condições naturais, fortalecendo a evidência de que tais divisões emergem espontaneamente.
Os chimpanzés são conhecidos por atacar grupos vizinhos para defender territórios ou recursos, mas conflitos internos prolongados são considerados extremamente raros - estimados geneticamente como eventos que ocorrem apenas uma vez a cada cinco séculos.
Ainda assim, em 2015, logo após a ascensão de um novo macho alfa, os pesquisadores notaram que a grande comunidade de Ngogo começou a se fragmentar em duas facções distintas.
A partir desse momento, comportamentos antes comuns — como encontros amistosos e alimentação conjunta — deram lugar à fuga, perseguições e um período inédito de seis semanas de evitação total. O antigo centro do território se transformou em fronteira patrulhada e, em 2017, a tensão explodiu em violência aberta, com o grupo ocidental, menor, iniciando ataques contra o grupo central.
Em 2018, a separação tornou-se definitiva: os grupos já não compartilhavam espaço, nem se reproduziam entre si. A atitude aumentou ainda mais em 2021, quando chimpanzés ocidentais foram vistos matando filhotes do grupo rival. Entre 2018 e 2024, a média anual de mortes atribuídas aos ocidentais — um macho adulto e dois filhotes — superou em muito as taxas típicas de confrontos entre grupos diferentes.
Além das mortes confirmadas, mais de uma dúzia de chimpanzés do grupo central desapareceram sem explicação, levantando a suspeita de que também foram vítimas da facção ocidental. Para os pesquisadores, o tamanho das especificações grande da comunidade original — quase 200 indivíduos — pode ter ultrapassado a capacidade de manutenção das relações sociais resultantes, contribuindo para a ruptura.
Ainda assim, especialistas externos, como James Brooks, do Centro Alemão de Primatas, alertam que é cedo para generalizações. O caso, porém, oferece dados detalhados para compreender como fatores socioecológicos moldam conflitos em espécies altamente sociais — incluindo a humana, que compartilha 98,8% do DNA com os chimpanzés, mas não é biologicamente predestinada à violência.
Os autores do estudo destacam que, assim como entre os chimpanzés, as relações humanas podem tanto nas divisões alimentares quanto na promoção da cooperação. Pequenos gestos cotidianos de reconciliação, afirmam, podem ser decisivos para evitar que isso se transforme em rupturas irreversíveis.
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