Curiosidades

Filarmônica de Berlim chegará ao Brasil sem medo da sombra de Karajan

Kirill Petrenko comanda a segunda visita do renovado grupo orquestral em dois concertos beneficentes na Sala São Paulo, em outubro

Agência O Globo - 25/09/2026
Filarmônica de Berlim chegará ao Brasil sem medo da sombra de Karajan
Kirill Petrenko - Foto: Reprodução / Instagram

O russo Kirill Petrenko vê o nome de Herbert von Karajan sempre que chega à Filarmônica de Berlim – o regente austríaco batiza, inclusive, a rua que dá endereço à sala de concertos. De 1954 até sua morte, Karajan comandou uma das mais extraordinárias máquinas sinfônicas já construídas e deixou atrás de si centenas de gravações, uma ideia de beleza orquestral baseada em cordas luxuosamente polidas e uma sombra com a qual cada um de seus três sucessores teve que lidar. Petrenko, o terceiro maestro após a morte de Karajan, diz que já todo esse legado tornou-se apenas parte da tradição:

— Não tenho mais medo de ser comparado a Karajan. Aquilo agora é história. Estamos no presente e preparando o futuro. Estudei seus ataques de cordas, suas indicações de dinâmica, compreendi muito de seu legado, mas agora me sinto bastante livre para tomar minhas decisões. Eu decido como isso deve soar hoje. Petrenko chama esse processo de recriação da tradição: receber algo, compreendê-lo e acrescentar a própria experiência.

'Jesus do Rio'?

Crítica:

Petrenko diz ainda reconhecer no som da Filarmônica uma cor escura, rica e espessa, herdada das antigas orquestras alemãs. Quer preservá-la. Mas insiste em que identidade não pode significar tocar tudo da mesma maneira: Haydn deve soar como Haydn; Tchaikovsky, como Tchaikovsky – algo bem diferente do que Karajan propunha.

É com essa suave ruptura que o Brasil (mais precisamente, São Paulo) recebe a nova visita da Berlin Phil (marca global da Filarmônica). A orquestra volta 26 anos depois de sua única passagem pelo país, sob direção do italiano Claudio Abbado, para dois concertos beneficentes, organizados pela TUCCA — Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer.

O programa (que vai se repetir por Nova York, Bogotá e Buenos Aires) chega à Sala São Paulo no dia 18 de outubro (domingo, já esgotado), com o Concerto para Piano e Orquestra nº1, de Brahms (o solista será o islandês Vikingur Olafsson); na segunda parte, “Assim Falava Zaratustra”, poema sinfônico de Richard Strauss célebre por acompanhar a abertura do filme “2001”, de Stanley Kubrick. Na segunda-feira (19), é a vez das “Variações Enigma”, do britânico Edward Elgar – que Karajan detestava e chamava de "Brahms de segunda mão", mas que Petrenko afirma morar em seu coração. O programa se concluirá com a Quarta Sinfonia de Tchaikovsky.

Será um cenário muito diferente de quando a orquestra chegou ao Brasil em 2000, quando era apenas o conjunto mais importante da indústria fonográfica. Hoje, transformada num verdadeiro grupo de mídia composto por produção de conteúdo e plataforma de streaming Digital Concert Hall (DCH), além dos 120 concertos anuais, ela chega com curiosidade sobre a audiência sul-americana. Já em 2010, a Colômbia aparecia como um dos países mais importantes do DCH. Agora, segundo a diretora executiva da orquestra, Andrea Zietzschmann, a medição da audiência pode levar a novas iniciativas de marketing no continente.

A turnê terá ainda uma espécie de segunda programação, voltada para educação e beneficência. Em São Paulo, integrantes da orquestra farão um concerto no Hospital-Dia da TUCCA, na manhã do dia 19. Haverá ainda dez masterclasses gratuitas. Segundo Bela Pulfer, diretora do TUCCA Música Pela Cura, o concerto foi totalmente bancado por venda dos ingressos e toda a arrecadação vai para a compra de medicamentos para crianças com câncer.