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Ed Sheeran se manifesta após saída de Macklemore da turnê por apoio à Palestina: 'Não sou cúmplice'

Cantor diz ter tentado 'construir pontes' para manter rapper na programação e afirma que decisão final de retirá-lo coube promotores

Agência O Globo - 15/09/2026
Ed Sheeran se manifesta após saída de Macklemore da turnê por apoio à Palestina: 'Não sou cúmplice'
Ed Sheeran - Foto: Reprodução

O episódio ganhou dimensão política depois que Macklemore, atração de abertura dos shows, subiu ao palco do MetLife Stadium, nos dias 4 e 5 de setembro, e declarou seu apoio à causa palestina. Na segunda apresentação, disse que gostaria de usar os grandes palcos americanos para dizer duas palavras que eram particularmente importantes para ele: “Free Palestine” (“Palestina Livre”).

Em seguida, apresentou “Hind’s all”, música de protesto lançada em 2024 em reação à guerra na Palestina. Na canção, Macklemore descreve a destruição do território palestino como um “genocídio” e critica a forma como as redes sociais e as plataformas digitais lidam com o conteúdo relacionado ao conflito. O videoclipe exibido durante a apresentação trazia imagens de violência e de protestos estudantis nos Estados Unidos.

Macklemore também procurou estabelecer uma fronteira entre sua crítica a Israel e qualquer hostilidade contra judeus. No palco, dirigiu-se à comunidade judaica para dizer que criticar Israel, o apartheid e o que considera genocídio não significava criticá-la. Sua mensagem, afirmou, era de paz, amor e defesa da dignidade, do respeito e da igualdade entre os seres humanos.

As declarações, no entanto, provocaram reação imediata de organizações como a Liga Antidifamação (ADL) e o StopAntisemitism. O Conselho Israelense-Americano publicou uma petição pedindo que Sheeran e os locais da turnê retirassem Macklemore da programação, sob a alegação de que o rapper havia recorrido a “imagens seletivas, mensagens tendenciosas e alegações contestadas”. O grupo defendeu que a turnê permanecesse concentrada na música, e não no que classificou como propaganda política. Na última segunda-feira (14), o tema figurou entre os assuntos mais comentados do X a nível mundial.

A controvérsia atingiu diretamente os próximos shows da turnê. Macklemore afirmou, em entrevista, que Robert Kraft, proprietário do time de futebol americano New England Patriots e responsável pelo Gillette Stadium, nos arredores de Boston, teve papel decisivo no desfecho da polêmica.

Segundo o rapper, Sheeran lhe contou que Kraft havia determinado que ele não poderia mais se apresentar no estádio. E mais: Macklemore afirmou que Kraft teria conversado com outros proprietários de estádios e que, coletivamente, eles teriam estabelecido um ultimato: se ele permanecesse na turnê, não poderia mais se apresentar em nenhum local.

Kraft confirmou que decidiu impedir a apresentação de Macklemore no Gillette Stadium. A justificativa apresentada por ele, porém, foi mais ampla. Em comunicado, afirmou que a decisão estava relacionada tanto à participação do rapper na turnê quanto a um histórico de retórica e imagens que Kraft considera antissemistas e profundamente ofensivas à comunidade judaica.

O empresário também criticou a maneira como Macklemore vem abordando o conflito. Disse concordar que houve muitas mortes e sofrimento, mas afirmou que “apresentar apenas informações seletivas e ignorar as ações do Hamas” não seria honesto e contribuiria para ampliar a divisão e o ódio. Foi nesse cenário que Macklemore acabou retirado oficialmente da turnê.

A manifestação de Ed Sheeran acrescenta agora uma peça importante ao episódio. Em comunicado público, o cantor procurou deixar claro que não considera sua posição equivalente à decisão de retirar Macklemore da turnê. O artista enfatiza que a decisão foi tomada por forças alheias.

Sheeran afirmou que ficou “horrorizado” com o conflito entre Israel e Palestina e classificou o sofrimento provocado de ambos os lados como uma “tragédia humana”. “Há guerras demais acontecendo ao redor do mundo, causando uma dor imensurável, e nenhuma delas deveria ser tolerada.”

Mas fez uma distinção importante: segundo ele, os produtores locais de seus próximos shows comunicaram que retirariam as apresentações caso Macklemore continuasse na programação. Sheeran disse ter sido informado de que a reação não se devia necessariamente a tudo o que o rapper havia dito, mas à maneira como parte de sua mensagem havia sido apresentada durante a performance.

“Conversei longamente com os responsáveis pelos locais durante toda a semana, tentando construir uma ponte. Uma dessas pessoas foi Robert Kraft”, continuou Sheeran. “Também participei de conversas diretas com os promotores, juntamente com ativistas dos dois lados, tentando encontrar uma solução que fosse aceitável para todos, mas a decisão dos locais e dos promotores foi final.”

Segundo Sheeran, a decisão dos locais e dos promotores foi definitiva. “Não sou cúmplice. Tenho minhas opiniões pessoais sobre esse conflito devastador. O fato de eu escolher não falar publicamente não significa que eu não tenha opiniões, nem significa que eu não me importe”, acrescentou Sheeran. “Também não significa que eu não apoie causas à minha maneira, pessoalmente. Existe uma razão pela qual não uso minha plataforma profissional para fazer política: meu público inclui jovens, muitas vezes crianças, de todas as origens. As pessoas que vão aos meus shows não esperam encontrar um fórum político.”

O cantor e compositor encerrou sua declaração destacando que existem “múltiplas maneiras de chegar ao mesmo objetivo: a paz”.

O episódio se insere numa discussão mais ampla sobre os limites do posicionamento político de artistas em grandes eventos culturais. O apoio aos palestinos e as críticas às operações militares israelenses em Gaza se tornaram um dos temas mais controversos da música pop internacional.

No ano passado, a dupla britânica de punk-rap Bob Vylan foi alvo de investigação criminal no Reino Unido depois de gritar “Morte, morte às IDF” — referindo-se ao exército de Israel — durante o festival de Glastonbury. A investigação acabou encerrada porque a polícia concluiu que as evidências não atingiam o limiar necessário para um processo criminal.

Também no ano passado, a cantora Kehlani, que manifestou apoio à causa palestina, foi retirada da programação do SummerStage, no Central Park, após pressão da administração do então prefeito de Nova York, Eric Adams.

A “Loop Tour”, de Ed Sheeran, segue pela América do Norte, com passagem pela Filadélfia e encerramento da etapa americana previsto para 7 de novembro, em Tampa, na Flórida.