Curiosidades

'O Grande Arco de Paris' relembra arquiteto obscuro que venceu 423 concorrentes

Filme de Stéphane Demoustier revisita a construção do monumento de Mitterrand e uma Europa de ambições políticas.

Agência O Globo - 02/09/2026
'O Grande Arco de Paris' relembra arquiteto obscuro que venceu 423 concorrentes
O Grande Arco de Paris - Foto: Reprodução

A história de “O Grande Arco de Paris”, que estreia nesta quinta-feira (3), é real e começa numa sala do Palácio do Eliseu, onde François Mitterrand (Michel Fau) ocupa a presidência da França. É 1983, e a equipe do chefe de Estado se prepara para anunciar o projeto escolhido para um novo arco na área de La Défense, na Zona Oeste da capital francesa. Quando o envelope é aberto, surpresa: o nome que aparece é o de Johan Otto von Spreckelsen (Claes Bang), um arquiteto dinamarquês de 53 anos desconhecido até mesmo pela embaixada de seu país. Seu projeto, um enorme cubo vazado de concreto e vidro, concebido como uma versão moderna do Arco do Triunfo, superou outros 423 candidatos, incluindo prestigiosos escritórios internacionais.

O filme de Stéphane Demoustier abre em tom de sátira, com o governo francês penando para localizar o obscuro vencedor, que até então só havia projetado quatro igrejas e a própria casa. Mas o que vem a seguir, contudo, é uma trama sobre os limites da ousadia artística e o choque entre a liberdade de criação, as ambições políticas e as exigências práticas de uma obra faraônica.

— A história me interessou pela possibilidade de falar sobre o ato da criação, através do retrato deste arquiteto — explica Stéphane Demoustier, em entrevista por videoconferência. — Mas também era uma maneira de falar sobre a França e a Europa de hoje, sobre o que elas eram e o que deixaram de ser. Naquele período, ainda tínhamos sonhos. Tínhamos um ideal, uma vontade política, um sonho europeu, um sonho compartilhado. Hoje, isso se evaporou.

Projeto pela paz

O Arco da Défense ficou pronto apenas em 1989, após inúmeros percalços. Embora apoiado por Mitterand, Spreckelsen precisa lidar com obstáculos burocráticos, técnicos e orçamentários. Ele estabelece uma relação ora paranoica, ora solidária com duas figuras: o famoso arquiteto e engenheiro Paul Andreu (Swann Arlaud); e Jean-Louis Subileau (Xavier Dolan), urbanista e funcionário público de carreira (e homem de confiança de Mitterrand). O primeiro é o “mestre de obras” que confronta a visão artística do dinamarquês com a realidade prática. O segundo tem a difícil tarefa de viabilizar o projeto politicamente e economicamente.

Spreckelsen, que morreu em 1987 sem ver a obra de sua vida completada, se revela um gênio intransigente, incapaz de aceitar modificações do seu projeto original. Recusa até mesmo alterações no subsolo que não serão vistas (“Deus verá”, justifica). No fim, é Andreu que completa o projeto, mantendo sua essência: a forma em cubo aberto, que celebra a paz em vez da guerra.

— Acho que somos um pouco prisioneiros de uma visão quase romântica do arquiteto, como alguém fechado em sua concepção idealista do trabalho — diz Demoustier. — E acredito que essa visão é totalmente falsa, porque a realidade da profissão de arquiteto é muito mais empírica. O filme mostra que Spreckelsen construiu muito pouco. No fundo, ele não era um praticante, não era um arquiteto que exercia a profissão. Paul Andreu, por outro lado, construiu no mundo inteiro e representa uma outra maneira de ser arquiteto: a do profissional que trabalha e encontra um caminho na realidade.

A radicalidade de Spreckelsen lembra a de outros arquitetos do cinema, como o protagonista de “Vontade indômita” (1949) e do mais recente “O brutalista” (2024). Todos eles, de alguma forma, traçam paralelos com o trabalho de cineasta, obrigado a negociar uma visão artística com produtores, equipes e limitações concretas. Concordam neste ponto tanto Demoustier quanto Xavier Dolan, intérprete de Subileau e diretor de filmes como “Mommy” (2014) e “Matthias e maxime” (2019).

— O filme ilustra esse combate permanente e desgastante entre o artista e tudo aquilo que, de fora, se coloca entre ele, seu sonho e sua visão — diz Dolan, um prodígio do cinema canadense que estreou seu primeiro filme no Festival de Cannes em 2009, aos 20 anos. — Às vezes, são restrições que podem ser benéficas para a realização de um projeto. Em outras, são tão opressivas que sufocam as ideias e acabam por desvirtuá-las. É sempre uma questão de negociação entre os bons e os maus compromissos, levando em conta também a sensibilidade dos nossos interlocutores.

Dolan, que fala pela primeira vez sobre o filme em companhia de Demoustier, conta que se frustrou com as negociações para realizar seu próximo projeto como diretor, um drama de época com toques de horror. O filme deveria ser produzido com recursos franceses, mas agora o cineasta busca financiamento em outros países europeus.

— Até esta entrevista, eu e Stéphane só havíamos falado do filme separadamente, o que é natural, já que ele é o diretor — diz Dolan. — Ter essa conversa agora é emocionante para mim, até porque ela acontece também num momento particular da minha vida, depois de um ano tentando viabilizar meu próprio projeto, negociado com instâncias governamentais na França.

Legado aberto

Embora carregue algumas das idiossincrasias de um burocrata e nem sempre seja simpático, o personagem de Dolan tem a sensibilidade necessária para tornar o projeto viável. Subileau é um avatar de Jean-Louis Subilon, figura real que participou da realização do projeto, e conhecido por ser um funcionário público apaixonado por cidades.

— No filme, a burocracia de Subilon não está exatamente a serviço dos artistas, mas também não está contra eles — diz Dolan. — Ela é conciliadora, respeita a criação e tem consciência de seus próprios limites. Subileau não se considera um artista, não acha que pode exercer a arquitetura, mas quer ajudar o arquiteto. Quer conciliar a visão dele com a realidade do Estado. Ainda existia na época uma ideia de colaboração e compromisso por parte do Estado. Hoje, temos a sensação de que é apenas o contrário.

Hoje, o Arco da Défense continua sendo reconhecido como uma obra-prima da arquitetura, confirmando a visão ousada de Spreckelsen e as concessões assumidas por Andreu. O arquiteto francês, por sinal, sempre foi um admirador do projeto, dizendo se tratar da “obra certa para o lugar certo”.

— O prédio brilha por sua simplicidade — diz Demoustier. — A ideia de fazer um prédio aberto, que não interrompe a perspectiva de quem parte do Museu do Louvre e atravessa o Arco do Triunfo, faz com que esse caminho tenha a vocação a se perpetuar. Com os anos que passam e a área que se desenvolve, o cubo vazado se mostrou uma ideia que resiste ao tempo e, eu diria até, é reforçada por ele.