Curiosidades
'Tem sexo nos meus livros porque as pessoas transam', diz Carla Madeira
Em entrevista ao videocast 'Conversa vai, conversa vem', autora reflete sobre a presença da sexualidade em seus livros e narra impacto de debater libido feminina com mulheres privadas de liberdade em presídios que visitou.
Uma vez perguntaram à Carla Madeira por que ela falava de comida em seus livros. 'Porque as pessoas comem, ué', explicou ela. A escritora mais lida do Brasil usa a mesma resposta quando a pergunta é sobre a presença do sexo em suas obras. Em entrevista ao videocast 'Conversa vai, conversa vem', no ar no Youtube do Jornal OGLOBO e no Spotify, a autora, que está lançando seu quarto romance, 'Quando' (e que já figura no primeiro lugar entre as obras mais lidas na lista do portal de literatura Publish News), explicou como busca trabalhar a sexualidade feminina em seus livros. Ela também se emocionou ao narrar o impacto de debater libido feminina com mulheres privadas de liberdade em presídios que visitou. Leia trecho:
Questões da sexualidade feminina permeiam os seus livros. Lucy, prostituta de 'Tudo é rio', gosta do que faz, o que, para muitos, soa como uma afronta. Em 'Quando', a personagem Margarida tem 'os quadris esmagados'. Qual a importância de abordar esses temas numa sociedade em que o homem é autorizado a gozar e o desejo da mulher é sacrificado?
Sexualidade é algo que move a história, move tudo. A gente vem disso. Se controla o corpo de uma pessoa, controla tudo. É um assunto que está presente o tempo inteiro. Me perguntaram por que tinha comida nos meus livros. Porque as pessoas comem. Tem sexo porque as pessoas transam. Aí, começo a fazer um giro nessa sexualidade. A da Lucy é fálica, a sexualidade do controle, como se controlar o gozo do outro fosse mais importante do que o próprio gozo. É masculino isso, é uma postura do homem. É legal jogar isso na mulher pra dizer: 'olha, vocês fazem isso o tempo inteiro e quando uma mulher faz esse barulho'. Margarida, no momento em que acha que vai poder, vem o homem e fala: 'Como assim essa libido toda?' E tem o simbólico da virada dele, que diz: 'Não se mexe, meu gozo vem da sua paralisia, da sua submissão.'
Literatura salva.
Ontem (no dia 25/8, quando essa entrevista foi realizada) você esteve no presídio feminino Tavalera Bruce, em Bangu, no Rio. Como foi essa experiência?
Emocionante, Maria. De chorar. Fico emocionada só de lembrar (os olhos enchem de lágrimas). O que pega é o irreversível. Tenho muito isso na minha literatura, a coisa definitiva. Umas meninas jovens... Fui num lugar de penas altíssimas, regime fechado. Elas leram 'Tudo é rio' dentro de um projeto lindo, que se chama 'Inspirar'. Estive em outros presídios femininos, quando falaram sobre Lucy. E foi lindo, lúdico, como se fosse uma suspensão da realidade. Por alguns minutos, ficaram alegres, esqueceram que estavam ali. Um dos eixos de 'Quando' é esse da espera.
Carimbo.
A mãe que espera o filho...
É como se a espera fosse um baixo contínuo, um ruído. Uma mãe esperando um filho que não vê há 20 anos. Só tem um momento que tem um ponto final: a hora em que ela está numa situação em que há a suspensão desse estado de uma dor contínua. Porque a beleza de uma situação consegue suspender, ir num lugar pleno. Tem uma frase no livro que é: 'Nada nos protege da beleza.' Porque ela é a nossa salvação, tem essa força e falar 'poxa, pode ser outra coisa a vida.'
E você viu essa suspensão nas mulheres dentro do presídio.
No momento de falar de Lucy, da sexualidade, eu vi. Ontem foi diferente. Foi lidar com a dimensão da esperança. O que é ter esperança? O que é poder imaginar? Plagiando uma frase que ouvi no presídio masculino: poder imaginar que, a partir do nome do livro, 'Tudo é rio,' que isso que estou vivendo vai passar. Vai demorar, mas para muitas daquelas mulheres vai passar, elas vão voltar para o mundo. E elas sabem disso. Então, como transformo isso que estou vivendo agora numa oportunidade? E essa é a luta desse projeto. É lindo ver. As voluntárias estão lá se dedicando para oferecer reflexão, pensamento.
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