Curiosidades

Não era uma amiga me dizendo que é gay, era a minha filha, diz autora mais lida do Brasil sobre homofobia em novo livro

Em entrevista ao videocast 'Conversa vai, conversa vem', Carla Madeira conta como a realidade da filha lésbica a fez refletir sobre a homofobia.

Agência O Globo - 31/08/2026
Não era uma amiga me dizendo que é gay, era a minha filha, diz autora mais lida do Brasil sobre homofobia em novo livro
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: OpenAI (GPT Image)

A notícia de que a filha era gay colocou a escritora diante de uma série de questões. A autora mais lida do país foi tão impactada por essa realidade que se impôs em sua vida que tratar do tema homofobia em seu novo livro tornou-se um processo natural.

Lançado há duas semanas, o quarto romance de Carla, "Quando", já figura no primeiro lugar da lista dos mais vendidos de ficção do portal literário PublishNews. Em entrevista ao videocast do Jornal O GLOBO, que vai ao ar nesta segunda-feira (31), às 18h, no YouTube e no Spotify, ela revela o que aprendeu com a "adorável sapataria", como ela define, no livro, as meninas que amam meninas que começaram a frequentar sua casa.

Homofobia é outro tema forte do livro. Você tem uma filha lésbica. Como essa notícia bateu em você? Viver esse contexto familiar te fez querer abordar o assunto no livro? Se serve dessa experiência na sua literatura?

Imaginar é sempre revelar um pouco de si mesmo. A gente não escapa disso. A imaginação trabalha numa conversa com a memória ou com o inconsciente. Mas é algo da ordem do afeto. Na adolescência da minha filha, Ana, eu achava que ela tinha uma energia com os meninos muito intensa. De vivências, experiências... Quando ela chegou para mim e disse: "estou namorando uma menina", minha primeira reação foi: "bom, não tenho nenhuma questão com pessoas gays". Convivia com muitos amigos e amigas. Mas... não era uma amiga me dizendo que é gay, era a minha filha. "Será que tenho que dizer alguma coisa como mãe?", pensei. E entendi que tinha. Falei: "Minha filha, a gente vive num país conservador, preconceituoso e violento".

Era mais o medo do mundo...

Falei: "Tem que se cuidar, se proteger, ter estratégia. Vai viajar com a sua namorada, tem que saber pra onde está indo e como o jogo é jogado nesse lugar. Você tem sua casa, toda a liberdade". E ela é atenta a isso. Ela e Isabela, minha nora, que é uma querida, uma médica, são muito tranquilas com isso. Namoram há muito tempo, a relação é muito bacana. Foi interessante porque as amigas vieram.

Carla Madeira.

As amigas da sua filha...

Meninas que amam meninas. No final do livro, eu até agradeço "à adorável sapataria". São meninas que passaram a conviver na minha casa. Passei a entender histórias de como foi contar em casa, comecei a me comover com experiências de muita violência, rejeição, de pais que não deram conta. E isso começou a fazer parte dos meus afetos. Não foi uma coisa de "ah, vou escrever sobre homofobia". Estou imersa nisso e, hoje, é uma coisa que me afeta.

Carla Madeira.