Curiosidades
Superfãs no Rock in Rio: Com as redes e o streaming, os fandoms viram parte das estratégias de gravadoras, artistas e festivais
Impulsionados pelo mundo digital, fãs conseguem se aproximar de artistas para além das apresentações ao vivo e produtos oficiais
Quando Luan de Carvalho chegou ao Circo Voador, em outubro de 2024, com quatro mil folhas de papel impressas por ele em casa, a ideia era surpreender Os Garotin, trio formado por Anchietx, Cupertino e Léo Guima. Ele e outros fãs dividiram os custos da tinta e se organizaram para distribuir tudo na entrada do evento, na casa de shows na Lapa, no Rio. No momento em que os cartazes foram levantados pela plateia, a música parou. Nos papéis, estava escrita a frase “Quem diria que Os Garotin um dia chegariam?” Cupertino começou a chorar, enquanto Anchietx assistia à cena, surpreso. Guima reconheceu o fã na grade e perguntou: “Foi você, né, Luan?”
FESTIVAL DOS SONHOS:
A paixão de fã não é novidade. A Elvismania e a Beatlemania já mobilizavam multidões e movimentavam dinheiro muito antes da era digital. Hoje, a diferença está no alcance e na capacidade de organização destes ilustres anônimos que veneram artistas de destaque na área musical. Reunidos em diferentes redes sociais, fãs de todos os cantos do país e de todas as idades produzem conteúdos, promovem lançamentos e articulam ações para shows. São os chamados “superfãs”, comunidades estratégicas para artistas, gravadoras, plataformas de streaming e festivais como o Rock in Rio, que começa na sexta-feira.
Luan, que administra o perfil “QG dos Garotin”, seguido por 8.700 usuários no Instagram, como Juliana Santos e Danilo Borges, tem uma relação profissional com os cantores: ele já atuou como videomaker no festival The Town e, juntamente com a equipe dos artistas, organizou gincanas de divulgação com prêmios para fãs.
O grupo musical, que se apresenta no Palco Sunset do Rock in Rio no dia 11 de setembro, acredita que o “QG” é um canal para entender o próprio público.
— Nos reunimos com os fãs para ouvir o EP “Os Garotin Sessions 2” (2025) antes de ser lançado. Temos uma relação muito próxima. Luan é um cara com quem conversamos sobre a visão do fã e sobre a nossa visão artística — conta Léo Guima ao GLOBO.
Rock in Rio aposta em canal exclusivo com os fãs
Esta proximidade entre os artistas e sua plateia, longe dos palcos, é cada vez mais valorizada não somente pelas bandas, mas pela própria indústria do entretenimento. Tanto que a equipe de marketing do Rock in Rio passou a dedicar atenção específica aos superfãs. Há dois anos, foi criada a Gerência de Conexões e Influências, que tem entre seus focos justamente estreitar esse relacionamento com os chamados fandoms (da junção das palavras em inglês “fan” e “kingdom”, algo como “reino dos fãs”). Nesta edição do festival, foi criado o “Feat Rock in Rio”, perfil colaborativo no Instagram voltado para conteúdo feito pelo público.
— O objetivo é dar voz, vida e visibilidade aos conteúdos que os fãs fazem sobre nós — explica Ana Deccache, diretora de Marketing do Rock in Rio. — Eles conseguem engajar pessoas e, nessa era das conexões e das comunidades, é muito importante que a gente esteja conectado.
E o que torna alguém um superfã hoje? Segundo a Luminate, empresa americana que coleta e fornece dados oficiais para a indústria musical e de entretenimento, superfãs são aqueles que se envolvem com artistas e música de pelo menos cinco maneiras diferentes, como indo a apresentações ao vivo, comprando produtos oficiais e postando nas redes sociais.
Um estudo do grupo Goldman Sachs, por sua vez, estima que os ganhos com os superfãs poderiam acrescentar US$ 6,6 bilhões (cerca de R$ 34 bilhões) às receitas globais da música até 2035. Hoje, em média, um superfã gasta US$ 113 por mês em música ao vivo, enquanto um “fã comum” gasta US$ 39 no mesmo período.
Com tantas boas perspectivas em jogo, as gravadoras também já incluem os superfãs no centro das ações de marketing. Ricardo Bertozzi, diretor de Marketing da Sony Music Brasil, afirma que a empresa monitora conversas e compartilhamentos nas redes, produção espontânea de conteúdo e engajamento nas plataformas de streaming.
Além das métricas, o pertencimento também é importante no campo estratégico, e o Spotify já atua nesse contexto.
— Criamos ferramentas e experiências que ajudam a relação acontecer em diferentes momentos: do acompanhamento de um lançamento e uma playlist compartilhada a uma experiência presencial — detalha Ellen Rocha, Marketing Lead da plataforma.
Muito amor envolvido
O “Demi Lovato Brasil” (DLBR) foi criado em 2008 e é seguido por 347.200 usuários no X. O perfil está entre os “fandoms oficiais” do Rock in Rio, grupo selecionado a dedo pela equipe do festival para a produção de conteúdos dedicados ao evento e a artistas. No caso, a cantora americana Demi Lovato.
Victor Reis, de 31 anos, e Pablo Dias, de 30, acompanhavam pelo perfil tudo sobre Lovato, que se apresenta no Palco Mundo, no dia 12 de setembro. Para chegar à equipe que organiza o fandom, eles passaram por um processo seletivo em 2015 com outros fãs que também queriam entrar para esse grupo restrito dos administradores. Naquele ano, começaram a atuar como redatores do portal. O teste para assumir a vaga consistia na tradução de uma reportagem sobre Demi Lovato publicada em um veículo internacional. Entre as competências analisadas, estavam a avaliação da tradução e de habilidades “jornalísticas”, como seleção de fontes e imagens.
— As atividades eram bem divididas, como se fosse uma empresa. Tinha vários setores, e cada um entrava para fazer uma coisa — recorda Pablo.
Há 11 anos no “DLBR”, eles mantêm dedicação constante. Mesmo no tempo livre, são cobrados pelos Lovatics (como são chamados os fãs da cantora) a fazer uma cobertura em tempo real, numa pressão que se assemelha à de um jornalista especializado no assunto.
Apesar de parcerias com marcas relevantes, como a rede de hotéis Ibis e a empresa de cosméticos Natura, o “DLBR” ainda não gera uma renda significativa para a equipe. Segundo Victor, que também é publicitário, os valores oferecidos ficam abaixo do mercado tradicional.
— Ainda precisamos mostrar para as marcas que também conseguimos fazer esse tipo de publicidade. Ainda não nos enxergam como um pilar forte a ponto de investir valores muito altos — afirma o administrador.
K-pop: “um caso de amor platônico”
De diferentes formas, Luan, Victor e Pablo já foram notados pelas respectivas equipes dos artistas que admiram. Porém, para as administradoras do “Stray Kids Brasil”, perfil dedicado ao grupo coreano headliner do Palco Mundo em 11 de setembro, esse contato mais próximo está longe de ser uma realidade.
A conta, também incluída entre os fandoms oficiais do festival, foi criada por Julia Batista, de 27 anos, em 2017, e também é dirigida por Valéria Torres, de 25, e Julia Seraphim, de 23. Segundo as fãs, as empresas de K-pop são muito rígidas, o que dificulta a interação direta com os ídolos.
— Eu diria que é um amor platônico, porque não existe contato direto entre as Stays (nome dado à fanbase) e os Stray Kids — diz Seraphim.
Elas estão em um grupo com fãs internacionais do Stray Kids. Na comunidade, estipulam ações em escala global, que envolvem metas de desempenho para os lançamentos dos artistas.
Apesar de o grupo contar com 196.500 seguidores no X e de uma dedicação integral, elas ainda não se veem como “profissionais”. Quando perguntadas se cobrariam por parcerias, afirmam que o ganho financeiro não está entre os objetivos da página.
— Isso é mais um hobby, uma diversão, um ato de amor — explica Seraphim.
Mas para a indústria do K-pop não é assim. A JYP Entertainment, que gerencia o grupo, aumentou sua receita em 126% com a última turnê do Stray Kids, faturando R$ 846 milhões.
‘Pai e mãe’ de superfãs
Ostentar a carteirinha de superfã não é para os fracos — até porque tem que equilibrar a paixão pelo artista com o lado prático da vida.
— Hoje não sou administrador, hoje vou viver — é assim que Gustavo Santos, de 19 anos, administrador do fã-clube “Priscila em Senna”, diferencia os momentos em que atua como social media daqueles em que quer só curtir o show de sua “musa”.
Quando ele deixa a função de lado, Iraci Moura, de 60 anos, assume o comando, e os dois se revezam no que chamam de papel de “pai” e “mãe” dos outros Museiros (como são chamados os fãs da pernambucana Priscila Senna) nos shows.
— A gente é responsável pelo grupo. Se alguém vai ao banheiro, a gente fica de olho — explica Iraci, para quem a lógica é de colaboração. — Quando um não tem dinheiro (para ir a um show, por exemplo), o outro tem, a gente se ajuda.
A rotina é intensa. Gustavo diz que usa até o horário de almoço na padaria onde trabalha para editar e publicar conteúdos. Iraci se divide entre o voluntariado em um grupo de idosos e as atividades com a conta. A comunidade, que reúne 13.700 seguidores no Instagram, prepara-se para cobrir — ainda que à distância — um momento especial: no dia 12 de setembro, Priscila Senna estreia no Rock in Rio, no Espaço Favela, na primeira grande apresentação de brega nordestino da história do festival.
Iraci e Gustavo, que vivem em Recife, estarão a cerca de 1.900 quilômetros da Cidade do Rock e não na plateia quando a cantora subir ao palco. Mas estarão celebrando e se preparando para a cobertura através das redes.
— Cada conquista que ela alcança, a gente sente orgulho. Quando soube que ela ia tocar lá, foi um delírio! — conta Iraci.
‘Todos num só coração’
Emoção, nesse grupo, é o que não falta. Tem gente que até desmaia quando a musa chega perto, ainda mais quando chega de surpresa. Isso aconteceu, por exemplo, na festa de dois anos do fandom. Naquele dia, quando menos se esperava, ninguém menos que Priscila Senna apareceu para dar um alô rápido, antes de seguir para um show no outro lado da cidade. Resultado: a fã Alessandra desmaiou na mesma hora. Mas tudo bem. É muito amor envolvido.
E assim, entre a paixão pura e simples e uma dedicação quase profissional, os superfãs vão ganhando espaço no coração de seus ídolos e no mercado fonográfico. Os batimentos cardíacos desta turma estão a toda, na contagem regressiva para o Rock in Rio. Como diz a música-tema do festival, é como “Se a vida começasse agora/ E o mundo fosse nosso outra vez/ E a gente não parasse mais de cantar, de sonhar...”
* Cazzu Andrade e José Vieira são alunos do e supervisionados por Marcelo Balbio
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