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Morre Dolly Parton: como artista virou um ícone inesperado da comunidade LGBTQIAPN+ nos EUA

Cantora, criada em uma região rural e profundamente religiosa, tornou-se referência para fãs gays e lésbicas ao defender a tolerância e apoiar artistas drag

Agência O Globo - 26/08/2026
Morre Dolly Parton: como artista virou um ícone inesperado da comunidade LGBTQIAPN+ nos EUA
Dolly Parton - Foto: Reprodução / Instagram

Em um bar gay de Washington, Cameron Austin vestiu um traje completo de caubói, com botas combinando, para tomar um drinque enquanto “When I’m Gone”, de sua “diva” Dolly Parton, tocava nos alto-falantes. Aos 28 anos, o jovem do leste do Tennessee diz que a cantora o acompanha desde o início da vida.

Despedida:

Com saúde debilitada:

— Eu não cresci ouvindo muitos dos ícones gays nos quais normalmente pensamos, mas ela é quem está comigo desde o começo — afirmou Austin durante uma festa em homenagem à cantora: — Dolly sempre esteve lá por mim.

Na morte, assim como em vida, Parton foi uma figura unificadora incomum em um Estados Unidos profundamente polarizado. Seu legado é celebrado pela Casa Branca de Donald Trump e, principalmente, em bares gays de todo o país. Para muitas pessoas gays e lésbicas, a cantora se tornou uma aliada inesperada ao defender a dignidade e os direitos da comunidade muito antes de esse posicionamento se tornar amplamente aceito.

Dolly Parton adotou linguagem de tolerância

Parton saiu da extrema pobreza em uma região rural e nunca planejou se tornar um ícone gay, mas abraçou esse papel, demonstrando também carinho especial por artistas drag. Em certa ocasião, ela se inscreveu discretamente em um concurso de imitadoras de Dolly Parton e acabou perdendo.

— Simplesmente entrei na fila e atravessei o palco, e eles pensaram que eu era um gay baixinho, e fui a que recebeu menos aplausos. Mas, por dentro, eu estava morrendo de rir — contou Parton à ABC News em 2012.

Sua música “Family”, de 1991, também defendia explicitamente a tolerância à diversidade, em um momento em que a crise da Aids ainda atingia e estigmatizava a comunidade LGBTQIAPN+.

Embora mantivesse distância de boa parte das disputas políticas do cotidiano, Parton defendia os direitos da comunidade LGBTQIAPN+ em uma linguagem ligada à moral religiosa do sul dos Estados Unidos.

— Acho que sempre fui aceita na comunidade gay porque eu os aceito — disse Parton certa vez à CNN: — Eles sabem que não os julgo. Acho que as pessoas são quem são, e eu não sou Deus, não sou uma juíza. Devemos amar uns aos outros exatamente por quem somos e pelo que somos.

Fé cristã não a afastou da comunidade LGBTQIAPN+

Nadine Hubbs, professora de estudos da mulher e de gênero e de música na Universidade de Michigan, afirmou que a educação religiosa de Parton ajudou a moldar sua relação com a comunidade LGBTQIAPN+, em vez de afastá-la dela.

— Seu avô era um pregador pentecostal, e ela cresceu cantando naquela igreja, e sempre falou de maneira muito clara sobre sua fé — afirmou Hubbs.

Segundo a professora, a cantora conseguiu unir sua religiosidade a uma mensagem de acolhimento.

— Dolly mostrou como não apenas você poderia ser amorosa e aceitar a si mesma e aos outros, mas fazer isso dentro de uma estrutura profundamente cristã — disse Hubbs, destacando o apelo dessa mensagem no sul dos Estados Unidos.

Parton também mantinha um tom descontraído ao tratar do tema. Em uma participação em um programa de televisão em 2019, alterou a famosa letra de “Jolene” para “Drag queen!, drag queen!”.

Cantora apoiou drag queen contra lei no Texas

Em 2023, quando políticos do Texas buscaram criminalizar diversas apresentações drag, Parton apoiou uma artista que fazia oposição à legislação.

Brigitte Bandit, drag queen de 34 anos de Austin, levou um livro infantil sobre Parton ao Capitólio estadual do Texas, onde testemunhou contra o projeto de lei.

— Senti que isso era muito identificável como drag queen e por isso levei aquele livro para depor — contou Bandit.

Mais tarde, Parton providenciou discretamente para que Bandit fosse surpreendida com um violão acústico personalizado, adornado com pedrarias e com a mensagem: “Para Brigitte, com amor, Dolly”.

— Ela é uma diva — disse Bandit.

A artista afirmou esperar que as pessoas levassem em consideração a mensagem de Parton e adotassem uma postura semelhante.

— Esperava que as pessoas reservassem um minuto para ouvir sua mensagem e fossem um pouco mais como Dolly — afirmou Bandit.