Curiosidades
País mais seguro do mundo, Islândia vive boom da literatura policial: ‘Há mais assassinatos fictícios no país do que reais’
Nação nórdica, que virou notícia quando registrou oito homicídios em um ano, tem até primeira-ministra escrevendo romance de crime
A Islândia é realmente surpreendentemente segura. Tão segura que virou notícia nacional neste país nórdico de menos de 400 mil habitantes quando o número anual de assassinatos chegou a oito em 2024. Segundo várias pesquisas, é o país mais seguro do mundo. Mas você jamais imaginaria isso ao olhar para as livrarias, onde há assassinatos em toda parte.
— Há mais assassinatos fictícios na Islândia a cada ano do que reais. O que é bom — disse Katrin Jakobsdottir, ex-primeira-ministra que coescreveu dois romances policiais.
Nas últimas décadas, o gênero policial se tornou o favorito da literatura islandesa. A explosão das histórias de detetive faz parte da tradição da região. No entanto, países como a Suécia, com sua violência de gangues, e a Finlândia, com sua fronteira compartilhada com a Rússia, convivem com a ameaça de violência real.
Cânone literário
Na Islândia, onde pouca gente sequer tranca o carro fora da região da capital, a sensação de segurança é o desafio fundamental para os autores. Suas tramas precisam ser construídas sobre ressentimentos enterrados e segredos horripilantes escondidos na neblina e nos fiordes. Caso contrário, como poderiam matar seus personagens de forma convincente?
— Existe aquela ideia de que você acha que conhece todo mundo porque vive em um país pequeno — disse Jakobsdottir. — Mas isso não é bem a verdade.
As épicas sagas islandesas — escritas principalmente nos séculos XIII e XIV e que narram disputas de sangue nórdicas e triângulos amorosos complexos — ainda fazem parte do cotidiano na Islândia: alunos do ensino médio as leem. A importância é tamanha que o escritor Olaf Olafsson chamou as sagas de “segunda Bíblia dos islandeses” no New York Times. O escritor de romances policiais Ragnar Jonasson, que traduziu obras de Agatha Christie para o islandês e vendeu cerca de cinco milhões de seus próprios livros, disse acreditar que as sagas ajudam a explicar por que o gênero policial é tão popular no país: elas transbordam vingança, traição e assassinatos — os ingredientes de uma boa ficção policial.
Muitas sagas, disse Jonasson este mês em Reykjavik, são “verdadeiros thrillers”. Algumas são autênticos dramas jurídicos.
— Elas tratam de foras da lei, de justiça e de vingança — disse Jonasson, que trabalhou com Jakobsdottir nos dois livros dela. — A escrita está em nosso DNA. Todo mundo na Islândia é um contador de histórias.
Não é exatamente surpreendente que pessoas desapareçam em uma cidade grande como Chicago ou Londres. Mas, na Islândia, ninguém consegue realmente desaparecer à vista de todos. Por isso, cada assassinato precisa ser cuidadosamente explicado.
Yrsa Sigurdardottir, uma das principais escritoras de romances policiais da Islândia, disse que isso é um desafio.
— Ainda temos dificuldade com essa questão da verossimilhança — disse ela, ao lado de Jonasson, com quem também está escrevendo um livro e organizando um festival de ficção policial. — O leitor não precisa ler e pensar: “Ah, sim, isso aconteceu.” Ele só precisa pensar: “O.k., isso não aconteceu, mas poderia acontecer.”
Mas a maioria dos homicídios na Islândia não serve de material para a literatura.
— O assassinato típico na Islândia envolve dois caras bêbados numa cozinha — disse Sigurdardottir. — Um pega uma faca, discutem, a polícia chega e o assassino está lá parado com a faca na mão.
E ninguém acreditaria em um psicopata sanguinário, disse Eva Bjorg Aegisdottir, outra romancista policial.
— Tivemos apenas um assassino em série na Islândia — disse ela. — Mas isso foi no século XVI.
Medicina forense
Muitas vezes, escritores precisam encontrar maneiras de eliminar seus personagens que possam, quem sabe, parecer mortes por causas naturais. Muitos recorreram ao Dr. Petur Gudmannsson, o único patologista forense do país que atuava em tempo integral, em busca de orientação. Ele chegou a ministrar um curso para escritores de romances policiais — mas parou de lecionar nos últimos anos. O conteúdo ficou excessivamente sangrento, disse ele, transformando-se quase em um espetáculo mórbido.
Ele ainda recebe perguntas de escritores islandeses de romances policiais que estão elaborando tramas de assassinato. Geralmente, ele os aconselha a tratar esses assassinatos como o que realmente são: fantasias.
— A maioria dos assassinatos na Islândia são fictícios, então não precisam ser realistas — disse ele. — Você pode dizer o que quiser.
Em vez disso, muitos escritores islandeses voltam-se para segredos ocultos.
Isso é fácil de fazer na Islândia, um país situado tão ao Norte que permanece na escuridão durante grande parte do ano. Margret Ann Thors, escritora islandesa-americana, disse que isso proporciona muitas noites desertas, nas quais personagens podem facilmente desaparecer ou acabar mortos.
— Não há tanta gente circulando por aí — disse Thors, que lançou este mês o romance “Freyja”, sobre o desaparecimento de uma criança ocorrido há 20 anos.
Muitos escritores optam por casos antigos não resolvidos. Em “The Wake”, de Sigurdardottir, um segredo oculto abala uma reunião familiar infeliz.
Aegisdottir também busca segredos ocultos. Ela publicou recentemente “Home before dark” nos Estados Unidos, história de uma adolescente que desaparece em uma região remota:
— Não podemos ter livros com assassinatos muito brutais. Trata-se mais da ideia de alguém que você conhece escondendo algo.
É aí, no desconhecido, que florescem as melhores histórias policiais do país.
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