Curiosidades

Espaço histórico da cultura carioca e de resistência à ditadura, Teatro Axia Casa Grande completa 60 anos nesta terça-feira (25)

Palco de shows e montagens icônicas, das Diretas Já! e do fim da Censura, endereço inaugurado em 1966 no Leblon terá leitura de Fernanda Montenegro para celebrar

Agência O Globo - 25/08/2026
Espaço histórico da cultura carioca e de resistência à ditadura, Teatro Axia Casa Grande completa 60 anos nesta terça-feira (25)
Espaço histórico da cultura carioca e de resistência à ditadura, Teatro Axia Casa Grande completa 60 anos nesta terça-feira (25)

Há exatos 60 anos, num galpão alugado na Avenida Afrânio de Melo Franco, em um Leblon ainda distante do requinte que passaria a ser associado, os produtores Max Haus (1935—2013) e Moysés Ajhaenblat (1935—2024) e os jornalistas Sérgio Cabral (1937—2024) e Moysés Fuks inauguraram o café-teatro Casa Grande (rebatizado como Axia Casa Grande em maio, em um contrato de naming rights de três anos). Nas décadas seguintes, o espaço consolidou-se como um dos principais palcos cariocas (e o maior da Zona Sul da cidade), abrigando diferentes momentos das artes cênicas brasileiras. Nesta terça-feira (25), a data será celebrada com uma leitura, para convidados, de Fernanda Montenegro.

Na Praça Mauá:

A abertura, em 25 de agosto de 1966, com nomes como Elis Regina, Nara Leão, Maria Bethânia, Moreira da Silva e Quinteto Villa-Lobos, marcou sua importância para a geração que lançou as bases do que viria a ser batizado como MPB — nos anos seguintes, passaram pelo palco diversos artistas como Chico Buarque, Gal Costa, Elba Ramalho, Kleiton e Kledir.

As montagens teatrais tiveram seu primeiro grande momento com “Brasileiro, profissão: esperança” (1971), de Paulo Pontes, com Ítalo Rossi e Bethânia no elenco, sucesso que ajudou a quitar as dívidas contraídas pelos fundadores para a reforma realizada em 1969. O público testemunhou ali fenômenos como a sucessão de gerações do humor, do monólogo “Um gordoidão no país da inflação” (1983) aos textos de Miguel Falabella — “A partilha” (1990); “Como encher um biquíni selvagem” (1992), estrelado por Cláudia Jimenez; “Louro, alto, solteiro procura” (1994), com ele próprio em cena. Montagens históricas também passaram pela casa, como “O mistério de Irma Vap” (1986), com Marco Nanini e Ney Latorraca, que permaneceu por três dos seus 11 anos em cartaz; a estreia no Rio de “A máquina” (2000), que revelou Lázaro Ramos, Wagner Moura, Vladimir Brichta e Gustavo Falcão; além dos musicais que transformaram a cena nos anos 2000.

Além dos profissionais que passaram pelo palco, nas coxias, gerações das famílias dos fundadores assumiram o espaço: atualmente, o Casa Grande é gerido por Leonardo e Sílvio Haus (filhos de Max Haus) e Rodrigo Gerheim (filho de Moyses Ajhaenblat). A terceira geração já está no batente com Eduardo e Gabriel Haus (filhos de Leonardo); Bernard e Arthur Haus (filhos de Silvia); e Thiago Gerheim (filho de Rodrigo) — na foto feita pelo GLOBO, a quarta geração é representada por Gael, filho de Eduardo Haus.

— Foi um ato de grande coragem inaugurar um teatro naquele período conturbado, início da ditadura, com um Leblon muito diferente do que se tornou. A era de terra batida, sem iluminação pública, onde se chegava de bonde. Temos que lembrar que o Túnel Rebouças ainda não tinha sido inaugurado — contextualiza Leonardo Haus.

Além de sua importância cultural, o Casa Grande também foi um espaço de resistência política, onde foram realizados encontros como os Ciclos de Debate, possibilitando a troca de ideias e informações em meio à repressão militar. Na Abertura, o teatro abrigou o lançamento da campanha das Diretas Já!, em 1984, e foi o palco da cerimônia de assinatura do decreto que pôs fim à Censura, no ano seguinte. O néon “Território da democracia” no lobby reforça essa parte da história.

— Os artistas e intelectuais criaram o Grupo Casa Grande, que organizou debates e cursos, mas também era uma forma alternativa de se reunir naquele período. Depois, quando foram abertos os arquivos da ditadura, descobrimos que havia agentes mapeando essa movimentação — conta Sílvia Haus. — A gente, que cresceu e trabalha aqui dentro, muitas vezes perde a dimensão dessa importância. Vira uma coisa cotidiana. Por isso é tão emocionante quando artistas ou o público nos falam o quanto o teatro fez parte de suas vidas.

A terceira geração se prepara para enfrentar desafios semelhantes aos vividos pelos pais e avós. Entre os momentos de tensão, o mais grave foi o incêndio que destruiu o espaço em 1997 — Leonardo se emociona ao lembrar o pai lhe dizendo, logo depois da tragédia: “A gente vai reconstruir.” Um orgulho que Thiago Gerheim, formado em Gerenciamento de Projetos e Negócios Internacionais pela Universidade Internacional da Flórida, agora passa adiante:

— Meu avô sempre quis que eu estivesse aqui, fazendo parte do teatro desde cedo, mas fiquei muito tempo fora do país. Voltei há dois anos e desde então estou ajudando a escrever esses próximos capítulos, preservando e levando à frente esse legado.