Curiosidades

Por que óculos inteligentes como Meta Glasses têm gerado discussões sobre privacidade e limites das inovações

Acessórios acoplados a ferramentas de inteligência artificial podem filmar e fotografar sem que muitas pessoas percebam; mulheres costumam ser as mais afetadas

Agência O Globo - 22/08/2026
Por que óculos inteligentes como Meta Glasses têm gerado discussões sobre privacidade e limites das inovações
Metaglass - Foto: Reprodução

Influenciadora e caçula do clã Kardashian, Kylie Jenner, aparece num vídeo no Instagram de frente para o espelho maquiando os lábios. Seus mais de 380 milhões de seguidores a veem usando apenas roupão e óculos escuros. Talvez nem todos percebam que o acessório no rosto dela tem uma luz branca piscante na lateral. Mas é bom ficar atento: este é o sinal de que imagens estão sendo captadas pelo AI Glasses da Meta, os óculos inteligentes da dona de Facebook, Instagram e WhatsApp e os mais populares do mercado.

Os acessórios (de grau ou não, com lente escura ou transparente, com preço em torno de R$ 4 mil) gravam vídeo, fotografam, tocam música e estão acoplados a ferramentas de inteligência artificial que ajudam, por exemplo, a traduzir no ouvido do dono o que alguém está falando em outra língua. Tudo por comando de voz, com um simples “Hey, Meta”. Por tantas funcionalidades, seu uso tem levantado discussões entre especialistas e consumidores sobre inovação, privacidade e direito de imagem. Ontem, foi anunciado que, ao argumentar que eles permitem a gravação de vídeos e a captura de fotos e áudio das pessoas ao redor, muitas vezes sem que elas percebam, para as organizações, isso cria riscos de violência, assédio e violação de direitos.

Se os benefícios desses óculos compensam os riscos de ser fotografado ou gravado de forma sorrateira é a grande questão, especialmente para menores e para as mulheres. Elas são as principais vítimas de cliques indiscretos em praias, salas de aula, boates e onde mais haja oportunidade de ridicularizá-las. No Brasil, já houve prisão por causa disso. Segundo o site G1, em julho, um médico foi preso suspeito de gravar, com os óculos, uma paciente durante um exame ginecológico.

A misoginia é criativa ao usar novas tecnologias — diz Clarice Tavares, diretora do InternetLab, centro independente de pesquisa nas áreas de direito, tecnologia e sociedade, afirmando que outros grupos, como entregadores e pessoas em situação de rua, também têm sido vítimas. — É uma dinâmica que se apoia em inovações para inferiorizar o outro. E quem sofre tem pouco controle sobre a imagem. É mais fácil perceber estar sendo filmado por uma câmera de celular e impedir.

Não à toa, esses óculos têm sido chamados, em inglês, de “pervert glasses” ou “óculos de pervertido”. O grupo ativista Everyone Hates Elon (“Todos odeiam Elon”, em tradução livre) chegou a espalhar por Londres vários cartazes com uma montagem do abusador de menores Jeffrey Epstein (1953-2019) usando o Meta Glasses. “Óculos para quem não faz questão de consentimento”, diz o cartaz.

Mundo afora, muitos estabelecimentos estão criando regras para evitar flagras indesejados. No Reino Unido, a rede de pubs Wetherspoons proibiu o acessório, assim como a rede de teatros e cinemas ATG Theatres. A Royal Caribbean, uma das maiores empresas de cruzeiros do mundo, baixou a norma de que está proibido o uso em determinadas áreas de seus navios, como cassinos, spas e banheiros comunitários.

Em tese, dá para perceber quando os óculos inteligentes estão gravando: um LED, localizado na lateral de uma das lentes, acende automaticamente. O problema é que muita gente tem colocado adesivos pretos para tapar a luz e filmar sem chamar atenção. Luiza Morando, de 30 anos, que se intitula “blogueira de óculos”, por criar conteúdo sobre lentes e armações, conhece bem essa falcatrua. Vez ou outra faz postagens sobre o AI Meta Glass e, por isso, chamou atenção dos burladores do sistema, que vendem livremente na internet os tais adesivos bloqueadores, com preço entre R$ 20 e R$ 90.

— Já recebi mensagem de um vendedor me oferecendo esse adesivo — conta a influenciadora.

Também dona de uma ótica em Carangola (MG), ela diz ter recebido treinamento do fabricante para conversar sobre privacidade na hora da venda de um par. O assunto, ela garante, é algo que martela na cabeça dos clientes.

— Além da luz que avisa sobre a filmagem, você precisa informar as pessoas que está gravando — diz. — É sobre respeitar o espaço do outro.

No consultório da cirurgiã plástica carioca Cristiane Todeschini, de 50 anos, o procedimento é o mesmo: sempre deixar todo mundo a par de qualquer gravação.

— Não é incomum ser surpreendida por algum nódulo ou condição anatômica que gostaria de registrar e mostrar para o paciente — diz Cristiane. — Ele é o primeiro a saber que fiz isso e o material fica retido comigo e com a pessoa.

Em nota, a Meta informou ao GLOBO que “se houver tentativa de adulterar a luz de LED, como a aplicação de bloqueadores sobre ela, a câmera deixa de funcionar.” Disse ainda que “aprimoramos continuamente nossa capacidade de detectar alterações e, recentemente, atualizamos o sistema dos óculos para desativar a câmera caso seja detectada qualquer manipulação física no LED”. A empresa garante “remover conteúdo que violam nossas políticas assim que tomamos conhecimento deles, o que inclui materiais destinados a degradar ou humilhar pessoas.”

— As pessoas vão testar o limite da tecnologia, e as empresas precisam se antecipar às possibilidades de burlar o sistema para garantir que seu produto seja seguro — diz Clarice Tavares.

A discussão entre a inovação dos óculos inteligentes e a invasão de privacidade anda acalorada porque o mercado está fervendo. A EssilorLuxottica, dona das marcas Ray-Ban e Oakley e parceira da Meta nos AI Glasses, anunciou, em fevereiro, ter vendido sete milhões de unidades no exterior em 2025, mais do que o dobro do ano anterior. A empresa de Mark Zuckerberg disputa espaço com a chinesa Xiaomi e um sem-número de modelos genéricos, vendidos em sites como Mercado Livre ou Shopee por pouco mais de R$ 100.

De olho neste mercado, a Google prometeu, para o segundo semestre deste ano, a sua cartada: uma parceria com a Samsung de óculos integrados ao sistema de IA Gemini. É a segunda vez que a empresa tenta entrar nesse segmento. Em 2013, ela havia lançado o Google Glass, que definitivamente não pegou e saiu de linha. Na época, além das críticas sobre privacidade, os modelos não eram considerados suficientemente bonitos para se usar por aí.

— Houve uma evolução da indústria nas peças e os óculos inteligentes foram totalmente reimaginados — diz o engenheiro da computação André Brito, de Manaus, que investiu no apetrecho agora principalmente para abastecer seu Instagram de fotos e vídeos com novidades de tecnologia. — Hoje, são muito menores, mais leves.

E não foi só o banho de loja que ajudou a mudar a visão sobre esses acessórios. Para Izabela Domingues, professora e pesquisadora do Núcleo de Design e Comunicação da UFPE, o tempo foi essencial para que outros produtos preparassem o consumidor.

— A passagem de mais de uma década fez com que as pessoas se familiarizem mais com esses agentes que favorecem a vida cotidiana — diz Izabela. — O público está realmente acostumado com a ideia de um smartwatch ou uma Alexa, por exemplo. Eles viraram extensão do corpo.