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Crítica: Primeiro romance de Annie Ernaux ganha edição brasileira

Publicado em 1974, 'Os armários vazios' aborda temas que Ernaux exploraria em sua obra.

Agência O Globo - 22/08/2026
Crítica: Primeiro romance de Annie Ernaux ganha edição brasileira
Annie Ernaux - Foto: Reprodução

O Cahier de L’Herne é uma publicação francesa dedicada a autores consagrados. Em maio de 2022, meses antes de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, Annie Ernaux foi tema de um cahier e trouxe uma carta que recebeu de Simone de Beauvoir em 1974. A jovem autora havia recém-publicado “Os armários vazios”, seu livro de estreia, que só agora ganha a primeira edição brasileira. Beauvoir afirma: “É normal ser incompreendida quando se escreve um livro voluntariamente um pouco ambíguo.” Contudo, também esperava que isso não desanimasse Ernaux, pois acreditava que ela tinha “algo a dizer e muito talento”. “Falo muito de seu romance”, finalizou Beauvoir.

Eliana Alves Cruz:

'Remando contra a maré':

Ernaux já mencionou o quanto a leitura de “O segundo sexo”, aos 18 anos, em 1958, foi uma revelação para ela, enraizando em sua vida um “feminismo vibrante, reforçado pelas condições de meu aborto clandestino”. A própria Ernaux parece reconhecer a ambiguidade citada por Beauvoir. Em seu primeiro trabalho literário, ainda não adotou o estilo autossociobiográfico que a consagraria a partir de “O lugar”, de 1983. Além disso, Ernaux declarou acreditar, na época, que estava “entrando mal, de maneira suja e incorreta” na literatura, zombando de sua família e se colocando numa “zona perigosa”, como declarou à Frédéric-Yves Jeannet em “A escrita como faca e outros textos”. Mas foi com essa revolta descrita na obra que Ernaux relatou ter tomado “gosto” pela escrita e percebido que tinha algo a dizer.

Em “Os armários vazios”, a protagonista não é a autora, mas uma personagem chamada Denise Lesur, universitária que, grávida, está na casa de uma “fazedora de anjos” — nome dado às mulheres da época que ajudavam outras a abortarem clandestinamente na França. O aborto foi descriminalizado no país em 1975 com a Lei Veil e, desde 2024, é direito da mulher na Constituição francesa.

Denise está ali para inserir uma sonda que provoque a expulsão do embrião. Embora seja uma obra de ficção, é impossível não relacionar a cena ao que Ernaux relata anos depois em “O acontecimento” (2000), sobre sua experiência de aborto clandestino em 1963-1964. Denise é marcada por muita raiva e relaciona a gravidez indesejada à sua origem social, que vai sendo lembrada ao longo da narrativa. Seus pais são donos de um café-mercearia, outro ponto em comum com a história de Ernaux. Lidavam com clientes bêbados e escandalosos. Banho? A criança Denise só tomava uma vez por semana, aos sábados, “de pé na bacia de água com sabão que servia para lavar o corpo, os dentes, o negocinho, tudo na mesma água, sem enxaguar. E minha mãe ainda usava essa água para esfregar o chão na segunda-feira seguinte, por causa do sabão dissolvido nela”.

É somente quando Denise vai para uma escola particular, no ginásio, que percebe o mundo do qual veio, se envergonha e tenta romper com ele. Ao sofrer bullying das meninas mais ricas, se compara com elas. Eram “dois mundos” e atesta: “Com certeza minha casa é um circo.” Aos poucos, através dos estudos, vai se dando conta do abismo social entre ela, sua família e os colegas, professores e autores que lê. Desenvolve um “pavor insano de se parecer com eles, meus pais”.

A Denise universitária e grávida, que aparece no livro relembrando sua trajetória, tem insights: numa cena diz achar que, embora as meninas da escola provavelmente nunca se expusessem como ela a uma fazedora de anjos, também não frequentariam, como ela, a universidade. Excelente aluna, ela foi para a universidade como bolsista e, por exemplo, tomou banho de chuveiro pela primeira vez.

A educação que traz à tona a revolta também a faz “viver num mundo mais bonito, mais puro, mais rico (...) Tudo feito de palavras”. Os leitores de Ernaux percebem muitas semelhanças entre o que é vivido e sentido pela Denise fictícia e a Annie que mais tarde escreveria sobre sua vida e seus conteúdos. Afinal, isso é o que sempre a interessou.

O aborto não é tratado de forma tão explícita como em “O acontecimento” e seus detalhes incômodos, revelados como episódios de transgressão e sacrifício. Ali, a intenção de Ernaux é clara: chocar para que uma história superada (pelas leis, mas nunca por ela) seja contada, a fim de que nunca mais reine o silêncio sobre as violências sofridas pelo corpo.

Em “Os armários vazios”, Denise ainda desconhece as armas que possui, mas sente raiva, e é nesse momento que se revela a força da literatura ernausiana. Uma literatura que, como ela mesma disse em seu discurso ao ganhar o Nobel, tem como intenção “vingar” sua “raça” — a raça sendo as pessoas que compartilham de sua origem social. Ernaux expressou querer “escrever para entender os motivos dentro e fora de mim que me distanciaram de minhas origens”. Ler “Os armários vazios” ajuda a compreender muitos dos temas que mais tarde comporiam sua teia literária.

Mariana Timóteo é jornalista e mestra em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB)