Curiosidades

Artigo: Carreiras conectadas no palco, mas específicas

Não se pode perder de vista a importância das trajetórias de Glória Menezes e Laura Cardoso no teatro

Agência O Globo - 20/08/2026
Artigo: Carreiras conectadas no palco, mas específicas
Laura Cardoso e Glória Menezes - Foto: Reprodução

Laura Cardoso e Glória Menezes são atrizes associadas à televisão, ainda que em medidas diferentes, dada a quantidade de novelas que fizeram e a repercussão alcançada por muitas das personagens que interpretaram. Contudo, as carreiras de ambas se estendem além da projeção obtida junto ao grande público. Não se pode perder de vista a importância de suas trajetórias no teatro, valendo lembrar, inclusive, que trabalharam com os mesmos diretores — casos de Antunes Filho e Flávio Rangel.

Bruno Härter:

Nathália Timberg, de 97 anos,

O contato inicial de Laura e Glória com Antunes se deu na época em que o encenador esteve à frente de uma companhia, o Pequeno Teatro de Comédia. Laura estreou em teatro num espetáculo assinado por Antunes — “Plantão 21”, de Sidney Kingsley, em 1959. No ano seguinte, Glória participou de “As feiticeiras de Salém”, encenação de Antunes para a peça de Arthur Miller.

Apesar de serem realizações bem próximas, as abordagens de Antunes foram distintas. Em “Plantão 21”, se dedicou a uma pesquisa sobre o realismo e, não por acaso, a cenografia de Tulio Costa reproduzia, em minúcias, o ambiente de uma delegacia de polícia. Já em “As feiticeiras de Salém”, evidenciou procedimentos do teatro brechtiano e demonstrou postura engajada, aproveitando o teor político da peça de Miller, influenciada pelo contexto de opressão do macarthismo que vigorou nos Estados Unidos na metade do século XX.

Tony Ramos lamenta a perda das colegas de TV:

As atrizes voltaram a ser conduzidas por Antunes. Glória integrou, em 1965, a controversa montagem de “Júlio César”, de William Shakespeare, concretizada a partir de uma parceria entre Antunes e a atriz e produtora Ruth Escobar. Laura retomou o elo décadas depois, em 1993, na segunda encenação de Antunes para “Vereda da salvação”, peça de Jorge Andrade, centrada na tragédia de colonos de uma fazenda que vão sendo cada vez mais envolvidos na onda de fanatismo propagada por um deles, Joaquim. Nesse espetáculo excepcional, que fazia referência a massacres da realidade brasileira (chacina da Candelária, de Vigário Geral), Laura interpretou, com brilhantismo, Dolor, a mãe de Joaquim que tenta, sem sucesso, deter o fervor messiânico do filho.

Sob a direção de Flávio Rangel, Glória atuou — ao lado do marido, Tarcísio Meira — em “Tudo bem no ano que vem”, texto de Bernard Slade, em 1976. Laura fez outros espetáculos dele — “A nonna”, peça de Roberto Cossa, em 1980, e “A herdeira”, adaptação do romance de Henry James, em 1985. Além dos eventuais pontos de conexão em seus percursos profissionais, Laura e Glória pertenceram à mesma geração e circularam, com notável habilidade, entre veículos diversos. Laura adquiriu experiência no rádio, migrou para a TV Tupi, onde se estabeleceu, e começou, paralelamente, a atuar no teatro e no cinema. Glória passou por formação na Escola de Arte Dramática (EAD) e logo ingressou no teatro, na televisão (também TV Tupi) e no cinema.

Em relação às carreiras de Laura e Glória no teatro, cabe assinalar a relevância de trabalhos específicos. Antunes Filho e Flávio Rangel não foram as únicas parcerias artísticas de Laura, que foi dirigida por Antonio Abujamra e Miguel Falabella. Sob a condução de Abujamra, Laura fez “As criadas” (assinada com Alberto D’Aversa), de Jean Genet, em 1968, e “Volpone”, de Ben Johnson, em 1977. Falabella, por sua vez, dirigiu Laura em dois espetáculos bastante promissores: “Todo mundo sabe que todo mundo sabe”, em 1996, comédia do próprio Falabella e de Maria Carmem Barbosa sobre a derrocada de aristocratas falidos, e “Veneza”, em 2003, peça de Jorge Accame, na qual a atriz interpretou Gringa, personagem que, por não enxergar, parte em viagem imaginária rumo à sonhada cidade italiana. Não há, porém, como deixar de destacar “Vem buscar-me que ainda sou teu”, texto de Carlos Alberto Soffredini, que rendeu encenação artesanal, minuciosa, de Gabriel Villela, com Laura no papel de Aleluia Simões, dona de um circo-teatro.

Glória transitou entre montagens e textos de perfis variados. Foi dirigida por Amir Haddad em “Vagas para moças de fino trato”, peça de Alcione Araujo, numa atuação intencionalmente desglamourizada, em 1975. Resgatou a contracena com Tarcísio Meira, depois de “Linhas cruzadas”, em “Um dia muito especial”, montagem de José Possi Neto, em 1986, a partir da história contada, no cinema, por Ettore Scola, sobre o encontro entre um homem perseguido e uma mulher sofrida, moradores de um prédio, no dia em que quase todos saem para acompanhar a visita de Hitler a Mussolini. Também ao lado de Tarcísio fez “O duplo/Doppelganger”, em 1991, texto e direção de Domingos Oliveira.

Montagens marcantes

Dois espetáculos marcaram Glória na primeira década do século XXI: “Jornada de um poema”, peça de Margaret Edson, em que a atriz, conduzida por Diogo Vilela, realizou comovente ato de exposição ao interpretar uma professora de literatura confrontada com o diagnóstico de um câncer terminal, e “Ensina-me a viver”, montagem de João Falcão para o texto de Colin Higgins sobre a idosa repleta de pulsão de vida que se envolve com um rapaz mórbido.

Os trabalhos de Laura Cardoso e Glória Menezes no teatro constituem uma parte fundamental, mas incompleta, das trajetórias dessas atrizes, que, com suas partidas, deixam um significativo vazio no panorama cultural brasileiro.

* Daniel Schenker é autor do livro “Teatro dos 4 – A cerimônia do adeus do teatro moderno”