Curiosidades

Laura Cardoso: uma atriz completa que impressionava pela força do olhar

País perde um dos maiores nomes da dramaturgia, que marcou época no rádio, teatro, cinema e televisão com personagens multifacetadas

Agência O Globo - 18/08/2026
Laura Cardoso: uma atriz completa que impressionava pela força do olhar
Laura Cardoso - Foto: Reprodução Redes Sociais

A habilidade de construir personagens multifacetadas marcou a carreira de Laura Cardoso. Com extensos recursos de expressão, a atriz impressionava pela força do olhar. Ao longo dos anos, transitou, com desenvoltura, por variados meios artísticos – rádio, televisão, teatro e cinema –, adaptando-se sempre às mudanças e inovações.

A trajetória profissional de Laura começou, na adolescência, no rádio – mais exatamente, na Rádio Cosmos, logo migrando para a Rádio Tupi. Quando a televisão chegou ao Brasil, a atriz se estabeleceu na TV Tupi. Trabalhou de modo apaixonado e incansável nessa fase inicial, em que a TV era feita de maneira artesanal, valendo evocar o programa “Tribunal do coração” e o teleteatro “TV de vanguarda”. Manteve-se na Tupi até o encerramento das atividades da emissora, em 1980. Inaugurou, então, o seu período de excelência na TV Globo – a partir de “Brilhante”, novela de Gilberto Braga.

Bem antes, porém, Laura estreou no teatro. Foi pelas mãos de Antunes Filho na montagem de “Plantão 21”, peça de Sidney Kingsley, em 1959, que contava com concepção cenográfica que reconstituía em detalhes o ambiente de uma delegacia de polícia. Muito tempo depois (em 1993), retomou o elo com Antunes na excepcional encenação de “Vereda da salvação”. Nessa segunda montagem de Antunes para a peça de Jorge Andrade, Laura realizou uma das maiores interpretações de sua carreira, como Dolor, a mãe do fanático Joaquim. A atriz surpreendeu com o trabalho físico (a postura permanentemente curvada) e vocal (na cena em que imprimia um registro distante do seu habitual).

Laura conquistou outros momentos de brilho intenso no teatro. Em “Vem buscar-me que ainda sou teu”, peça de Carlos Alberto Soffredini montada por Gabriel Villela, fez Aleluia Simões, personagem que conduz uma companhia mambembe de circo-teatro. Em proposta totalmente diferente, divertiu o público em “Todo mundo sabe que todo mundo sabe”, de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, sátira ao universo dos aristocratas falidos.

A proximidade com Falabella rendeu, inclusive, mais uma atuação elogiada – em “Veneza”, peça do argentino Jorge Accame, na qual interpretou Gringa, dona de um bordel que sonha em visitar, pela última vez, a cidade italiana. Gringa não enxerga e, graças ao empenho daqueles que a cercam, embarca numa viagem de fantasia. E Laura mergulhou no mundo denso do sueco Lars Norén em “Outono e inverno”, texto centrado em intrincadas relações familiares levado ao palco por Eduardo Tolentino de Araujo.

Na televisão, obteve destaque em diversas produções da TV Globo. Não há como deixar de lembrar de seus trabalhos nos remakes de novelas de Ivani Ribeiro, casos de “Mulheres de areia” e “A viagem”, e da amiga Janete Clair, caso de “Irmãos Coragem”. Cabe trazer à tona as parcerias com Luiz Fernando Carvalho – nas duas jornadas de “Hoje é dia de Maria”, com dramaturgia de Soffredini e Luis Alberto de Abreu, na mencionada “Irmãos Coragem” e em “Esperança”, de Benedito Ruy Barbosa –, Walcyr Carrasco – em “Chocolate com pimenta” e “O outro lado do paraíso” – e o já citado Falabella – em “Salsa e merengue”, novela também assinada por Maria Carmem Barbosa.

No cinema, Laura teve, pelo menos, dois grandes instantes. Em “Terra estrangeira” (1995), de Walter Salles, emocionou como Manuela, mulher que deseja voltar a San Sebastián, mas morre ao assistir, na televisão, ao anúncio do confisco das poupanças pela ministra Zélia Cardoso de Mello. E em “Através da janela” (2000), de Tata Amaral, magnetizou o espectador com interpretação minuciosa como Selma, que firma vínculo quase incestuoso com o filho.

Como seus parceiros de geração, Laura se formou na prática da profissão. Conseguiu se integrar a distintas vertentes, exercitando-se ainda na dublagem (emprestou a voz para Betty, personagem dos Flintstones). A morte de Laura Cardoso tem a dimensão da perda de uma atriz completa.