Curiosidades
Mesmo com o sucesso na TV, Glória Menezes nunca deixou o teatro: 'Me ensinou o que preciso para fazer televisão e cinema'
Nos bastidores da peça 'Feiticeiras de Salém' (1960), a atriz conheceu o futuro marido, Tarcísio Meira
Mesmo ocupando seu tempo com tantas produções na TV, Glória Menezes, que orreu nesta terça-feira (1,) no Rio, 91 anos, nunca abandonou totalmente o teatro, espaço de criação que abriu seus caminhos na vida já em 1959, quando ganhou o prêmio de Atriz Revelação num festival amador promovido pelo aclamado diretor Antunes Filho (1929-2019).
— O teatro me ensinou o que preciso para fazer televisão e cinema. Ele dá o conhecimento necessário para interpretar qualquer personagem diante das câmeras, porque nos projetamos muito mais. Quem faz teatro, faz qualquer outra modalidade — disse ela ao Memória Globo.
Em 1975, a jovem estrela das novelas fez parte do elenco de “Vagas para moça de fino trato”, peça de Alcione Araújo, com Yoná Magalhães, Renata Sorrah e Tarcísio. A história acompanhava a convivência claustrofóbica de três mulheres com personalidades opostas dividindo o mesmo apartamento.
Entre outras montagens de que Glória participou estavam peças como “Tudo bem no ano que vem”, do canadense Bernard Slade, que ficou em cartaz de 1976 a 1981; “Navalha na carne” (1981), do paulista Plínio Marcos; e “Um dia muito especial”, baseado em clássico filme homônimo(1977) do italiano Ettore Scola.
Em 2000, Glória surpreendeu a crítica e o público com sua atuação em “Jornada de um poema”, da americana Margaret Edson, vencedora do Prêmio Pulitzer. Aos 64 anos, ela cortou totalmente os cabelos e, em cena, ficava nua para viver uma paciente terminal de câncer. E gostava de conversar com a plateia ao fim de cada apresentação:
— Tenho vários depoimentos do público gravados. Eu terminava a peça nua e morta. Raspei a cabeça por dois anos. Estava no palco com a cabeça raspada e nua. Poderiam ter metido o pau em mim, pela minha audácia. — disse ela ao GLOBO.
A preocupação era infundada, tanto que acabou ganhando um Prêmio Shell pela atuação, valendo nova reflexão dela a respeito, anos depois:
— Eu nunca me preocupei com o que vão pensar de mim. Vivo a minha vida. A imagem que o público faz é problema dele. Mas confesso que, quando raspei a cabeça e fiquei nua em pelo, pensei: agora ou vai ou racha.
Reconhecimento
Em 2007, Glória estreou “Ensina-me a viver”, em que interpretava uma mulher de 80 anos. Adaptação de um famoso filme homônimo de 1971 dirigido pelo americano Hal Ashby, a peça conta a história de Harold, um adolescente obcecado pela morte que vê a sua vida mudar quando conhece Maude, uma idosa apaixonada pela vida.
Na época, disse em entrevista ao GLOBO:
— Tenho muita coisa em comum com a Maude, mas gostaria de ter ainda mais. Como ela, tenho sede de viver e não temo a morte. Só não sou tão irresponsável... Ela é amoral, no bom sentido da palavra. Não se importa com o que os outros pensam, e eu não sou tão desprendida. Me preocupo com a minha imagem.
Em entrevista ao GLOBO em 2015, Glória resumiu assim a sua trajetória:
— Claro que é bom você conseguir o reconhecimento daquilo que faz, mas melhor ainda é você ter o privilégio de trabalhar uma vida inteira com o que você ama profundamente — comentou. — Eu sou privilegiada, sempre fui. Porque, claro, eu tinha talento. Mas nem sempre isso é suficiente. É preciso ter sorte também.
Glória Menezes e Tarcisio Meira:
Amor surgido nas coxias
Gaúcha de Pelotas, nascida em 19 de outubro de 1934, Glória transferiu-se com a família para São Paulo aos 6 anos. Na adolescência, já apaixonada pelo palco, começou a cursar a Escola de Artes Dramáticas da Universidade de São Paulo — onde montou um grupo amador, o Jovens Independentes. Logo em seu primeiro espetáculo, em 1959, ganhou o prêmio de Atriz Revelação num festival de teatro amador promovido pelo diretor Antunes Filho (1929-2019).
Com crescente demanda de trabalho, ela achou mais prático largar a faculdade. Naquele mesmo ano de 1959, estreou na TV, na novela "Um lugar ao sol", da Tupi, ganhando um novo prêmio. Já em 1960, Antunes Filho a convidou para a peça "Feiticeiras de Salém", outro marco em sua carreira não só por ter lhe rendido outro prêmio de Atriz Revelação, mas principalmente porque foi nas coxias do espetáculo que entrou em cena, para o resto da sua vida, o jovem ator Tarcísio Meira, de 25 anos.
— Estava ensaiando “As feiticeiras de Salém” e, de repente, passou aquela coisinha linda. Eu falei: “O que é isso?” Um tempo depois, fomos chamados para fazer um teleteatro, “Uma Pires Camargo” (1961) e ficamos amigos — relembraria Tarcísio, em entrevista ao GLOBO, já em 2015. — Quando ela lançou o filme “O pagador de promessas” (1962) em Cannes, mandei flores e um cartão escrito “volte, volte, volte”.
Explica-se: teatro (e paqueras) à parte, Glória foi convidada pelo cineasta Anselmo Duarte para fazer o principal papel feminino de "O pagador de promessas", longa baseado na obra de Dias Gomes que foi rodado em 1960, participando do festival francês, onde ganhou a Palma de Ouro. Em 2021, a atriz lembraria assim daquela fase: "As coisas vieram para mim de uma maneira que eu fico pensando: ‘Meu Deus, se acontecesse hoje, com a experiência que eu tenho, seria um horror’. Mas você vai de cabeça nas coisas quando está começando”.
Em meio à carreira ascendente, oficializou-se em 1962 a união do casal mais famoso da TV brasileira. Principais estrelas da Excelsior, os dois protagonizaram a primeira telenovela diária do país, “2-5499 Ocupado” (1963). Depois, foram mais nove novelas até o casal assinar com a TV Globo. Na emissora carioca, estrearam em “Sangue e areia” (1967), que inaugurou a faixa das 20h na teledramaturgia da casa.
Durante 59 anos, Glória formou com Tarcísio uma espécie de “Casal 20” da TV brasileira. Após “Irmãos Coragem” (1970), bem-sucedida trama de Janete Clair que despertou o interesse do público masculino numa época em que novelas eram consideradas um produto essencialmente voltado às mulheres, eles fizeram par romântico em novelas como “O homem que deve morrer” (1971), “Espelho mágico” (1977), “Torre de Babel” (1998) e “A favorita” (2008). Em 1988, o casal estrelou o seriado “Tarcísio & Glória”.
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