Curiosidades

Crítica: Surpreendendo pela leveza, narrativa aborda chegada da terceira idade e a perda da companheira

'Memorial do inverno', do jornalista e escritor paulista Roberto Pompeu de Toledo, apresenta o luto e o envelhecimento sob as mais diferentes abordagens

Agência O Globo - 15/08/2026
Crítica: Surpreendendo pela leveza, narrativa aborda chegada da terceira idade e a perda da companheira
Crítica: Surpreendendo pela leveza, narrativa aborda chegada da terceira idade e a perda da companheira - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Em meio à recente enxurrada de livros que abordam o luto e o velho sob diversas perspectivas, um deles se destaca, curiosamente, por sua extrema leveza. Essa qualidade não costuma ser associada a experiências tão universais e, ao mesmo tempo, pessoais e intransferíveis. O livro chama-se “Memorial do inverno” , do jornalista e escritor paulista Roberto Pompeu de Toledo. Ao tratar, logo no início, da morte da companheira com tanta delicadeza, ele emenda em outro assunto não menos instigante: o envelhecimento, ponto central da obra. Ora comovente, sem ser meloso, ora divertido, mas sem nunca perder a moda, Toledo reforça o que disse o escritor Ítalo Calvino — para quem a leveza, na literatura, não tem a ver com superficialidade, mas sim com dar o justo peso às palavras e às ideias que elas carregam.

'Textos cruéis demais':
"A rigor, não há nada de original a dizer sobre morte ou velhice. Não sei por que insisto", escreve ele. Ainda bem que insistiu. A narrativa de Toledo é original e compõe um manual prático para momentos críticos da parte final da existência. Para quem pretende chegar lá, vale ficar de olho. É um prato cheio para reflexões.

Mas vamos, primeiro, ao evento que provocou Toledo a escrever o livro. Sem adotar a atitude de macho-alfa que desdenha tragédias pessoais, ele descreve o que aconteceu logo após a mulher parar de respirar: "Silêncio. O médico saiu do compartimento, estou só, rendido e perdido. Meu amor, meu amor... Coitado, ela costuma dizer, à noite de uma morte, mesmo que tenha sido mais do anunciado que, pela idade ou pela doença. Coitada, digo eu agora. Inclino-me para bem junto dela e choro alto, aos arrancos. Coitado de mim. Vou chorar muitas outras vezes, nos dias seguintes, mas alto foi só dessa vez.”

Trata-se de seu segundo casamento, nascido de uma paixonite adolescente interrompida por 30 anos, retomado com alegria e avançando pela terceira idade. Um amor raro, que não se desgruda — mas o destino não é tão poético. Um dia, Maria Isabel adoeceu, o tratamento foi em vão, e ela partiu em poucos meses.

Para o companheiro, sobrou o que chama de “sentimento de incompletude” . Seu mundo desabou, mas, com todo amor que a falecida merece, a vida tranquila. Junto com o luto, veio a consciência de que o tempo passa: “Nunca quero em ficar velho”, escreve ele, aos 77 anos.

É como se somente a partir dessa situação limite o escritor tivesse se dado conta de que a idade chega para (quase) todos. Para além das mortes próximas, pequenas perdas começam a pipocar ​​com mais evidência: dores nas costas, esquecimentos inexplicáveis, relembranças em abundância, entre outras... Tudo o que está passando desesperado agora ganha novo peso, junto com a necessidade urgente de autoconhecimento.

Toledo lida com essa nova fase com a lucidez da vida sábia e dá uma pista de como alguém da terceira idade pode enfrentar tantas perdas sem precisar se embrenhar em processos esotéricos que exigem tempo... E parece que a vida, nessa etapa, não pisa no freio.

É impossível não rir e não chorar diversas vezes sobre as questões que ocorreram a Toledo nesse processo de envelhecimento, como ele mesmo menciona. Como escritor experiente, desenvolveu uma narrativa que alterna entre tempos passados ​​e presentes, com diálogos interrompidos sendo retomados alguns parágrafos depois, sem qualquer embaraço, sempre levando o interlocutor para frente, sem pressa. Nada é para já. E nem todo mal-estar dura para sempre — tanto que mesmo uma paquera pode surgir, se instalar e evoluir para algo menos volátil, mesmo à beira dos 80 anos... E é isso que acontece com Toledo e sua “Primeira Amiga”, com quem inicia um namoro (com uma ajuda de uma crônica do colunista Joaquim Ferreira dos Santos, aqui no GLOBO).

Assim, o autor reflete, por meio de sua história, algo que talvez seja a tal paz interior, sem culpas nem medos, do jeito que deve ser, até quando puder ser. Por último: não que o currículo de Toledo seja obrigatório para que o leitor dê uma chance a este “Memorial do inverno” , mas é válido registrar que ele publicou dois títulos notáveis ​​sobre a história de São Paulo: “A capital da solidão” (2003) e “A capital da vertigem” (2015).