Curiosidades

Evento geek nordestino, Sana bate recorde de público, amplia ações sociais e confirma próxima edição

Programação de três dias reuniu mais de 150 mil pessoas no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza, com apostas em atrações nacionais e internacionais e atividades variadas

Agência O Globo - 08/08/2026
Evento geek nordestino, Sana bate recorde de público, amplia ações sociais e confirma próxima edição
- Foto: Lia de Paula/Sana

O grupo de amigos que se organizava para encontrar uma casa com antena parabólica e assistir a Cavaleiros do Zodíaco na TV Manchete na década de 1990 com certeza tem orgulho do que hoje é o maior evento geek do Brasil fora do Sudeste, e figura entre os maiores da América Latina. A essência dos sonhos que um dia deram início ao Sana, há 26 anos, segue enchendo o Centro de Eventos do , na capital Fortaleza, que a cada ano ocupa mais áreas — como na edição de julho, que subiu também para as salas do terceiro andar. Em três dias de programação, tribos de fãs de animes, desenhos, super-heróis, doramas, k-pop e de muitos outros universos se encontraram para mais um crossover de diferentes mundos, que resultou em um novo recorde de público, com mais de 150 mil pessoas.

O Sana já se consagrou no calendário da cidade, e não só por seu burburinho entre todas as idades pela vasta programação, com shows, apresentações, concursos, jogos, e-sports, produtos e contato direto com artistas. A movimentação de público e de participantes de ao menos 20 estados brasileiros fez girar entre R$ 35 milhões e R$ 40 milhões em Fortaleza em toda a cadeia produtiva, numa estimativa de um estudo econômico a pedido da marca, com consumo e serviços em torno do evento. Entre os dias 10 e 12 de julho, o centro de eventos recebeu a parte 2 do festival, como é chamada a segunda edição do Sana no ano — a primeira de 2026 foi realizada de 30 de janeiro a 1º de fevereiro.

— A gente é fã. O Sana é feito por fãs, e vamos os escutando. Hoje, temos um staff de cerca de 350 pessoas — diz o presidente da Fundação Sana e um dos criadores do evento, Daniel Braga. — O Sana é único por ser um evento colaborativo. Eu me vejo aqui representando a entidade que faz, mas os fãs estão se organizando, fazendo acontecer no espaço deles.

Uma de suas marcas são ações para levar públicos variados, parte que poderia nem ter acesso, como atendidos por ONGs e alunos de escolas públicas, e de reunir, num só lugar, os projetos apoiados pela fundação, um leque que aumentou neste ano com novas parcerias.

E a primeira edição de 2027 já tem data. Pode marcar na agenda que será de 29 a 31 de janeiro, no Centro de Eventos do Ceará. No perfil da organização, já tem pedidos e palpites sobre as atrações que, segundo os fãs, não podem faltar.

Luz, câmera, diversão

Tem cosplay que mal chega no evento e é quase como um artista. Em cerca de 40 minutos, o estudante de teatro Francisco Daniel Freire de Araújo, de 20 anos, conseguiu dar poucos passos em um dos salões. Logo parava para atender à fila que se formava para fotos. Mesmo com prática de cosplay há 5 anos, o personagem complexo exigiu dedicação e tempo. Conciliando a rotina da vida com a preparação para o Sana, foram cerca de 6 meses para confeccionar a imponente armadura de Seiya de Sagittário dos Cavaleiros do Zodíaco.

— Sempre tive o sonho de fazer uma armadura do Seiya. Realizei aquele sonho de criança, sabe? — conta o morador de Fortaleza ao estrear esse cosplay no último dia do evento. — Os materiais foram EVA, tecido TPU metálico dourado e rosê e, na flecha, cartolina com LEDs. O que dá mais trabalho são os encaixes de cada peça para poder dobrar. Foram em torno de 1 ou 2 horas para fazer cada detalhe.

O Sana já entrou na rota de atrações internacionais, seja na música, como a banda japonesa Flow, ou nos painéis, um formato de bate-papo descontraído e de interação com a atentíssima plateia. Entre os nomes de destaque, o ator sul-coreano Park Sung-hoon levou o público à loucura com praticamente qualquer movimento (mesmo). Poses para fotos e brincadeiras como repetir palavras e expressões em português — entre elas, arretado, ruma e botando a boneca — fizeram a alegria das centenas de fãs que se aglomeraram em frente ao palco principal no segundo dia. O ator também falou sobre sua profissão e os desafios, entre eles, dar vida a Cho Hyun-ju, mulher trans e jogadora 120 da série "Round 6". No currículo, tem trabalhos como "Rainha das Lágrimas" (2024) e "A Lição" (2022).

No último dia, o ator ítalo-americano Giancarlo Esposito também fez o público vibrar. Com uma extensa trajetória profissional, passando por trabalhos no cinema e na televisão, entre os vários papeis, é lembrado por Gus Fring, na série "Breaking Bad" e em seu spin-off, "Better Call Saul", como Stan Edgar, em "The Boys", e como Moff Gideon, em "The Mandalorian" do Disney+, ambientada no universo de Star Wars.

E como produção nacional também tem vez, teve estande sobre o filme "O Shaolin do Sertão 2", com estreia programada para o fim de agosto. Para ficar ainda mais perto da produção, um bate-papo reuniu integrantes do elenco e da equipe para compartilhar histórias, curiosidades e bastidores do longa-metragem.

Trabalho o ano todo

O Sana cresceu tanto que dentro de seu universo geek, nasceu uma "galáxia" com base em transformações sociais. Por meio da Fundação Sana (novo nome da Fundação Cultural Nipônica Brasileira), ao longo de todo o ano, a marca e seus saberes — em especial o tecnológico — se alinham a projetos sociais com viés de arte, impacto social e de esporte.

O GeekAção é um dos pupilos, que vai desde o repasse de ingressos sociais para ONGs e grupos vulneráveis, às iniciativas de inclusão, como de educação e acesso à cultura. Nesta edição, mais de 60 mil pessoas foram impactadas. Nos três dias, mais de 21 toneladas de alimentos foram arrecadadas. E deu até para sair com um novo melhor amigo. O GeekPatas conecta cães e gatos a tutores para adoção responsável, como aconteceu nos 44 "matchs".

— O GeekAção existe desde 2016, e foi se renovando e espalhando pela cidade. A indumentária geek passou a barreira da classe social e da idade — destaca Daniel Braga. Um dos projetos mais recentes é a Casa Sana Social, com atividades e serviços 100% para jovens e adultos. Em funcionamento desde fevereiro, tem a educação como um pilar de desenvolvimento. — Temos uma parceria com o Senac nesse espaço, e criamos uma Game House, com 10 PCs Gamers. Quem vai jogar tem que estudar. A quantidade de horas que o jovem dedica a um curso no espaço é a mesma que ele pode ficar ali para jogar. E numa parceria com a Federação Cearense de Esportes Eletrônicos, os times podem reservar horários para treinar.

Um dos braços da Fundação Sana é dar suporte, a partir de seu know-how a projetos que a procuram para ampliar sua atuação. O esporte também tem vez, por meio do taekwondo (numa influência coreana) e do futebol. Com ares de competição, o público pôde experimentar o que é estar num ringue de batalha de robôs de uma forma bem diferente. Durante o evento, foi possível competir, só que no lugar de maquinário pesado em que a missão é destruir o oponente, numa versão mais leve, com o sistema de controle numa estrutura de papelão. Para sair vencedor, é necessário estourar o balão de bexiga do oponente.

Essa ação durante o Sana divulgou o trabalho do Departamento de Sustentabilidade e Tecnologia da fundação, do projeto que começou numa escola pública por meio do professor André Cardoso, idealizador do que seria o Instituto Robótica Sustentável.

— Vamos pegando resíduos, o que as pessoas chamam de lixo, que quando desmontamos vira ferro, plásticos, fios, telas. Damos uma sobrevida a bateria de notebook, por exemplo. O que não é usado, mandamos para descarte correto para uma empresa parceira. Só de os alunos experimentarem a robótica sustentável, mudam a visão, veem o papelão e não querem jogar fora, querem pensar em fazer o próprio robô. Desenvolvermos animais é a parte lúdica, podendo decorar, levar para casa e ver o que estão construindo — conta o idealizador. O instituto dá curso de robótica para crianças e jovens, de 8 a 13 anos, e de consertos de eletrônicos para alunos de 13 a 22 anos, na Casa Sana Social e na sede do projeto.

Inspiração e criatividade

Eventos geeks não seriam o mesmo sem a participação do público. Pelos corredores, personagens de animes, desenhos, quadrinhos, filmes, séries e da própria imaginação ganham vida. Vale de tudo, desde produções elaboradas, com roupas e adereços feitos sob medida em casa e com materiais ganhando novos usos, até uma peça ou outra de referência. O foco é a diversão.

O artista Walterlan Veríssimo, de 36 anos, lembra da preparação que fez para o Sana de 2014. Mais do que ser um cosplay, ele quis representar um de seus personagens favoritos, o simpático dinossauro Yoshi, do Super Mário. Para isso, foram nove meses de trabalho com fibra de vidro, material com o qual nunca tinha trabalhado. O resultado foi uma peça grande o suficiente para uma pessoa posar sobre ela (mas não é autorizado nos eventos) e de mais de 200kg. Quando, enfim, estava finalizada, Walterlan viu as portas se abrindo de uma maneira inusitada.

— Eu queria trazer o Yoshi como um acessório. Um amigo falou com os diretores, mandamos uma foto, e eles ficaram doidos e nos convidaram. Depois tive uma reunião com o Daniel (Braga) e passei a fazer peças novas a cada edição do Sana — conta o artista, que se profissionalizou na área, deixando o emprego num laboratório da indústria têxtil para abrir um negócio próprio de esculturas, o Studio Walterlan Veríssimo, com projetos elaborados em 3D e materiais e técnicas aprimorados.

Hoje, Walterlan tem no portifólio peças para lá de trabalhadas, como o Trono de Ferro, da franquia "Game Of Thrones", um dos navios do anime "One Piece", que permitem ao público apostar na pose para as fotos.

É unânime que quem quer caprichar muito no look, sem comprar roupas e adereços já prontos, tem que correr contra o tempo. Tem quem já saia da edição anterior pensando em como irá no próximo Sana, e isso dá vantagem para pesquisar, cortar, costurar, colar, pintar, fazer testes, aparar umas arrestas, improvisar quando não fica como se pensava e, talvez, até virar umas noites.

Assim foi para Maria Lis, de 18 anos, que se inspirou em um de seus personagens favoritos do terror, Pumpkin Rabbit, de "The Mysterious House", o spin-off de "The Walten Files". Recriar um coelho assassino antropomórfico que usa roupas, tem parte dos braços e das pernas verdes e um rosto deformado que pode ser escondido por uma máscara removível demandou muita criatividade e adaptação. Teve ajuda de uma amiga e da avó, e valeu o esforço. O sucesso era tanto que até as crianças, as vítimas preferidas do personagem na ficção, encantadas, pediam para tirar fotos.

— Essa é minha segunda vez como cosplay. Fui vendo como as pessoas faziam os deles. Comprei uma máscara lisa, fui fazendo o formato com papelão, e dando textura, fazendo essa sensação de molhado com resina. O avental, minha avó costurou. Já os sapatos, eu fiz com espuma, usando como base um tênis — contou Maria, estudante de Engenharia de Pesca na Universidade Federal do Ceará (UFC), no primeiro dia do Sana.

O evento virou um ponto de encontro e de criatividade, por isso a fortalezense estava de volta na segunda edição do ano. Na primeira vez em que foi, há três anos, estando um pouco perdida por não saber o que esperar, se valeu disso e foi de The Sims, o tradicional jogo que, além de inspirar a criação de casas, os personagens fazem poses icônicas diante de situações em que não sabem reagir, ou enquanto aguardam um comando.

Outro jogo foi a inspiração para Samara Ferreira, estudante de Análise de Desenvolvimento de Sistemas, de 18 anos, amiga de Maria Lis. Bendy, o demônio antagonista de "Bendy and the Ink Machine", foi a segunda opção, um reflexo de erro de cálculo quanto ao tempo. O plano inicial era dar vida à Rachel Waterman, a Ovelha Bruxa, esposa de Pumpkin Rabbit, mas tantos detalhes não seriam possíveis de serem reproduzidos antes do evento. Bendy se mostrou um projeto mais factível de ficar pronto em uma madrugada, e foi.

— Tivemos que improvisar. Para a roupa, fomos juntando as peças que cada uma tinha, usamos papelão para a cabeça, fizemos detalhes como os dedos pintados. Começamos por volta das 21h e fomos até as 2h — conta a estudante da Universidade de Fortaleza (UNIFOR).

Ainda no universo dos games, uma ideia de reciclagem ajudou o estudante Mateus Cavalcante, de 18 anos, a criar o Dr. Harley Sawyer, antagonista de "Poppy Playtime", com seus experimentos mirabolantes, acaba ele próprio sendo transformado, ganhando uma cabeça de televisão, que abriga sua genial mente. Para isso, um modelo antigo de TV de tubo foi desmontado, e a carcaça adornada com outros materiais, como papelão e tecido.

— É um personagem muito interessante. Vi a oportunidade de fazer e agarrei. Não é dos mais fáceis. Eu não tinha todos os materiais, então fui improvisando. As luvas são de outro cosplay, a roupa é minha, coloquei umas almofadas para aliviar o peso nos ombros. As pessoas conseguiram reconhecer, recebi elogios — conta Mateus, aluno do Ensino Médio, que já tem anos na estrada como cospley, com idas ao Sana desde 2022. — Vemos inspirações aqui. Nesse tempo, já fiz oito personagens, e percebi que foram melhorando. Para esse, eu comecei a pensar ainda em janeiro, logo depois do Sana parte 1. Às vezes a gente vai conversando com outros cosplayers para pegar dicas.

Talentos reunidos

O Sana também entende que lugar de artista não é só nos palcos. Numa área exclusiva, criadores expõem e vendem seus produtos. A Vila dos Artistas é montada a partir de uma curadoria, visando trabalhos autorais e nomes também de fora do Ceará, promovendo uma troca.

E é o tempo de estrada que motiva a ilustradora e criadora de conteúdo Mari Ilustra, de 34 anos, a fazer as malas com sua arte e aportar no evento pela segunda vez, após debutar no Sana em janeiro. Em 13 anos de carreira, a recifense usa do humor ácido e de muitas referências, gostos pessoais e experiências para fazer as ilustrações divertidas em adesivos, bandeiras, ecobags e bottons. Vida de artista tem diversão e um longo processo antes do trabalho chegar nas mãos do público, o que Mari acha divertido compartilhar em todas as suas redes, para mais de 2 milhões de seguidores.

— Em 2019, lancei a coletânea de tirinhas "Ô Mainha", e mostrei todo o bastidor desse projeto nas redes. Eu gosto de fazer dessa forma, de compartilhar do início ao resultado, incluindo as frustrações dos planos que não dão certo. Trabalho com meus filhos e meu marido, e num pequeno negócio, você é tudo: gestor, contador, fotógrafo e artista — conta Mari, que pode ser acompanhada nas redes sociais sempre pelo @mari.ilustra.

A vida cotidiana é arte, prova a quadrinista e artista Bruna Maciel Almeida, de 30 anos, com as histórias que conta com A Baião, criada em 2018. Trabalhar com quadrinhos surgiu de forma natural, quando a simpática personagem passou a ser desenvolvida com mais constância para aprimorar as técnicas aprendidas no curso de quadrinhos na Universidade Federal do Ceará (UFC), um ano antes. Esse processo de aprendizagem e aperfeiçoamento foi dividido com o público em seu perfil no Instagram (@abaiaonoinsta), onde hoje posta pequenas pílulas da personagem que passa por situações que todo mundo vive.

— São tirinhas sobre o cotidiano da forma mais cômica, sem pesar o clima, e tento levar na leveza, sendo sarcástica — conta, em seu terceiro ano com uma mesa na VIla dos Artistas. E foi de olhar para algo simples de outra forma que surgiu o nome da personagem. — Gosto muito de comida, e minha favorita é baião de dois, daí escolhi o nome Baião.

E as famosas abelhinhas do Bife de Unicórnio também garantiram um cantinho para ter contato com o público na Vila dos Artistas. Os fãs que compravam as impressões ganhavam do próprio quadrinista um desenho exclusivo atrás feito na hora em poucos minutos, por Gabriel Dantas, de 27 anos. Já consolidado no mercado, com cerca de 20 livros lançados, só nas feiras é possível ganhar esse mimo. Suas obras têm como tema central relacionamentos, incluindo outros personagens — humanos, ou não.

— Essas abelhinhas são umas das primeiras criadas. Nunca penso em separá-las, são as que sempre têm final feliz, contrariando a história de outros personagens — conta Gabriel, de Natal (RN), que também vende suas obras por seu perfil no Instagram (@bifedeunicornio).

*A repórter viajou a convite do evento.