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Flip 2026: Zadie Smith sai 'fantasiada de Zadie Smith' para separar vida pessoal da pública

Estrela da Flip, autora britânica revisitou carreira em mesa mais aguardada do evento: 'Eu achava que pessoas bonitas eram fúteis e ridículas, e eu que era cérebro puro'

Agência O Globo - 25/07/2026
Flip 2026: Zadie Smith sai 'fantasiada de Zadie Smith' para separar vida pessoal da pública
Zadie Smith

Grande estrela da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty, Zadie Smith fechou a programação deste sábado (25), penúltimo dia do evento. O público lotou a Tenda da Matriz e acompanhou uma longa conversa da autora britânica com a mediadora Julianne Borges. De bom humor, mas reclamando da tradução simultânea no fone em seu ouvido, a escritora revisitou sua carreira, suas obsessões literárias e sua relação com a própria imagem.

Smith, que passou os últimos dias em Paraty recolhida, sem interagir com o público e a imprensa, relembrou como seu primeiro grande sucesso, 'Dentes brancos', definiu sua carreira. Eleito um dos 100 melhores livros do século XXI pelo New York Times, o ambicioso romance revisita a colonização britânica e mergulha na Inglaterra multicultural da atualidade.

- Eu sinceramente acho que os escritores escrevem o mesmo livro repetidamente, mas com variações diferentes. E eu não me importo com isso. Tenho consciência de estar escrevendo o mesmo livro repetidamente, tendo as mesmas preocupações e olhando para elas por diferentes ângulos - disse a autora.

Smith confessou que nunca sentiu o peso do próprio sucesso. Pelo contrário. São justamente as altas vendas de 'Dentes brancos' que ainda hoje lhe dão liberdade para explorar outros projetos mais arriscados.

- Graças a ele posso escrever todos esses ensaios estranhos, romances históricos e coisas que talvez ninguém queira, mas que, para mim, são o mesmo grupo de perguntas que estou me fazendo sobre meu país, sobre as duas partes da minha herança - disse Smith. - Tenho apenas algumas obsessões, e você tem sorte se tiver algumas obsessões e conseguir encontrar uma série de maneiras de expressá-las. Quando penso em 'Dentes Brancos', sinto gratidão pela garota que o escreveu e tornou minha vida possível. Mas com certeza não sou mais aquela garota.

Após viver 10 anos em Nova York, Smith se mudou de volta para a sua Londres natal em 2020. Ao falar sobre sua ideia de nacionalidade, a britânica revelou ter uma relação "meio complicada com o pertencimento".

- Eu adoro pertencer, mas pertencer também significa que você está sujeito às histórias do Estado; você simplesmente as aceita - disse ela. - Acho que a coisa boa de estar no exterior por tanto tempo é ter uma certa distância. Algumas coisas se tornam engraçadas. Lembro-me de quando me mudei para Nova York e voltei um verão para ver minha família: a primeira manchete de jornal que vi era sobre o Duque de York. De repente, parecia a coisa mais engraçada do mundo haver alguém noticiando o que o Duque de York estava fazendo, se ele estava subindo a colina, se estava descendo a colina. Pareceu-me absurdo. Acho que, quando você está dentro de um país, não percebe esses absurdos. Às vezes, você precisa dessa distância.

Smith reconhece que suas viagens ao continente africano também ajudaram a moldar seus livros. Ela relembrou o choque ao perceber que, apesar de seus sentimentos e ancestralidade, era vista primeiramente como uma "turista" na África.

- Eu queria escrever sobre essa sensação de pertencimento que nunca é completo. Como você poderia pertencer totalmente se há centenas de anos e um oceano de distância? Em Gâmbia, por exemplo, dependendo de quem me olhava, achavam que eu era de uma tribo local, que era libanesa, brasileira ou bengali. É interessante perceber que nossa identidade é uma mistura do que sabemos sobre nós mesmos e do que os outros projetam na gente. Você não tem controle sobre isso o tempo todo - refletiu.

Tratada muitas vezes como uma celebridade da literatura, apesar da sua discrição, Smith tratou também de assuntos pessoais, como sua maneira de lidar com a constante necessidade de inventar a própria imagem como figura pública.

- Eu cresci com sentimentos muito conflitantes sobre tudo isso - recordou a autora. - Há uma frase famosa de Virginia Woolf em que ela diz: "Por todo o tempo que passei me olhando no espelho, eu poderia ter aprendido grego". E era essencialmente assim que eu me sentia quando era uma garota adolescente que não tinha interesse em nada disso. Eu só queria ler e escrever, e deixar as pessoas bonitas fazerem as coisas delas. E eu também odiava as pessoas bonitas: achava que eram fúteis e ridículas, e eu era muito séria, era cérebro puro.

Com o tempo, porém, a escritora percebeu que havia certa misoginia na ideia de que "uma mulher inteligente" nunca deveria se importar com assuntos como beleza e estilo.

- É claro, a mensagem oculta nessa ideia é a de que uma mulher bonita não precisa ser inteligente. Por que ela se importaria? Ela já tem todo o capital de que precisa no mundo. Isso, por si só, é uma ideia muito sugestiva - ironizou a autora, que revelou ter um "problema" quando o assunto é roupas.

- Quando se é escritor, o dia todo você fica de calça de moletom e depois eu só saio à noite. Então acho que não tenho um meio-termo. Não tenho camisetas, não tenho muitas calças jeans. Tenho calças de moletom, e até isso é uma complicação quando saio de casa. Para muitas mulheres, as roupas têm essa ligação muito pessoal. Você está tentando apresentar alguma versão de si mesma. Para mim, na verdade, acho que é mais como uma armadura. Então, se eu saio para o mundo, saio fantasiada como "Zadie Smith", e minha própria vida fica separada disso. Eu acho isso útil.

De acordo com Smith, crescer em uma família grande, de ideologias misturadas, ajudou-a a encarar com humor assuntos espinhosos como o fundamentalismo religioso.

- (Família grande) É uma grande escola para viver no mundo. Você aprende a conviver com parentes que, literalmente, olham para você, sorriem e acham que você vai para o inferno - brincou. - Na escola onde estudei, falavam-se cem línguas diferentes e víamos ondas de migração o tempo todo. Quando você convive diariamente com o diferente, aprende a encontrar pontes.