Curiosidades
Na Flip, Milton Hatoum e Hisham Matar debatem pedagogia do medo em tempos de repressão
Mesa literária explorou sintonia entre brasileiro e líbio-britânico, que participou do evento de forma remota
A 17ª mesa da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty explorou a imensa sintonia entre as obras e trajetórias do manauara Milton Hatoum e do líbio-britânico Hisham Matar. O encontro, mediado pelo jornalista Paulo Roberto Pires, perdeu um pouco da sua força com o cancelamento da ida de Matar para o Brasil. O escritor participou da mesa de forma remota, de Londres.
Um dos principais prosadores do país, Milton encerrou o ano passado a sua trilogia "O lugar mais sombrio", na qual narra o desaparecimento de sua mãe ocorrido durante a ditadura militar brasileira. O autor, que foi perseguido durante o regime militar e viveu no exílio, utiliza um pouco da sua própria experiência para criar o protagonista Martim.
Matar nasceu em Nova York, mas vive em Londres, onde passou a maior parte da vida. Ele tinha 19 anos quando seu pai foi sequestrado pelo governo de Muammar Gaddafi e nunca mais reapareceu. Seu mais novo livro lançado no Brasil, "Meus amigos", acompanha três imigrantes líbios marcados pela ditadura militar de Gaddafi.
Apesar do oceano que separa Paraty de Londres, a conversa encontrou um ponto de confluência no que o mediador definiu como a "pedagogia do medo", isto é: a forma como regimes autoritários corroem os afetos mais íntimos. As obras de ambos os autores trabalham as relações entre memória, família e literatura.
— A alternância entre o medo e a coragem faz parte da nossa vida. Nos momentos mais brutos da ditadura, e acho que em qualquer ditadura, a tendência é se retrair — disse Hatoum, ao comentar os rumos de seu personagem Martim, diante da opressão e da relação difícil com o pai. — Porém, um grupo de pessoas muito corajosas, com ideais muito fortes, foi lá e combateu o regime. Isso aconteceu no Brasil e em qualquer outro lugar.
Hatoum inspirou-se nos casos reais de amigos que tiveram parentes desaparecidos:
— Pensando em termos freudianos: no luto, você sabe quem perdeu, qual foi o objeto ou a pessoa perdida. Já na melancolia, algo fica difuso, você não sabe exatamente o que perdeu porque o luto não se realiza. A melancolia tem tudo a ver com a memória. A pessoa mais pobre pode ser tão despossuída a ponto de nunca deixar bens materiais, mas às vezes ela também não deixa um herdeiro para contar sua história. Acredito que os romancistas e escritores acabam se tornando esses herdeiros daqueles que não puderam ter sua memória exposta.
Matar emocionou a plateia ao compartilhar uma transformação pessoal em sua longa busca pelo pai. Ele relatou que, durante quase duas décadas, colocou a figura paterna no centro absoluto de sua existência, orbitando em torno do trauma por meio do ativismo e do jornalismo. Com o tempo, contudo, percebeu que a linguagem pública do aprisionamento acabava confundindo-se com a memória do homem real.
Para o autor líbio, vencer o horror da ditadura significa justamente recusar que o algoz paute a linguagem do afeto.
— Conto esse evento privado porque ele mostra algo surpreendente sobre o que o desaparecimento faz, mas também sobre a nossa capacidade de reter a memória — disse Matar. — É por isso que acredito que as ditaduras sempre falharão: nossa capacidade de encontrar solidariedade, de amar e de acessar a memória é profunda demais.
Segundo Matar, "todo ser humano é herdeiro de uma história incrivelmente complexa":
— Literalmente, o meu irmão é o Mussolini, mas o meu irmão também é o Nelson Mandela. A minha irmã é a Virginia Woolf e também a Margaret Thatcher. Diante dessa história tão rica e fervilhante, como nos relacionamos com ela? Como a herdamos e pensamos sobre ela? Para mim, essa é uma das questões mais fascinantes da existência.
Milton Hatoum finalizou afirmando que em momentos de repressão política, "um intelectual não deve ficar calado".
— O silêncio é cúmplice da barbárie — disse.
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