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Um ano sem Preta Gil: Filme e série resgatam os melhores e mais difíceis momentos da vida dela

'Preta: Eu não ando só', da TV Globo, e 'Meu nome é Preta', do Globoplay, entram no ar no dia em que morte completa um ano

Agência O Globo - 19/07/2026
Um ano sem Preta Gil: Filme e série resgatam os melhores e mais difíceis momentos da vida dela
Preta Gil - Foto: Instagram - @pretagil

Segurando nas mãos de um amigo, desce a escadinha de pedra que dá acesso direto do condomínio de Gilberto Gil e Flora Gil em Salvador ao mar. Lentamente, a água cobre suas pernas — a esquerda tem um grande curativo, com a coxa envolvida por uma sonda urinária. A neta, Sol de Maria, com 9 anos na época, pula na água e executa a ordem ditada pela voz que filma tudo com o celular: “Dá a boia pra sua avó.” Apoiada no salva-vidas, Preta, então, se lança ao último mergulho de sua vida na Bahia.

'Quanto mais Preta, melhor':

Filho de Wagner Moura:

Esta despedida, que aconteceu poucos meses antes de a cantora e empresária morrer por causa de um câncer, é uma das muitas cenas íntimas mostradas no filme documental “Preta — Eu não ando só”, que estreia amanhã na Tela Quente, da TV Globo, depois da novela Quem ama cuida.

Com direção de Sandra Kogut e direção artística de Monica Almeida, a produção faz parte da programação dedicada à artista no dia de um ano de sua morte. Outra homenagem é a série documental “Meu nome é Preta”, produção da Conspiração dirigida por Mini Kerti para o Globoplay. O primeiro dos quatro episódios também entra no ar amanhã (saiba mais no box da página 2), e tanto ele quanto o filme serão exibidos, a partir das 18h, para a família e os amigos numa sessão no Teatro Fernanda Montenegro, no hotel Copacabana Palace, na Zona Sul do Rio. Mais cedo, às 11h, será realizada uma apresentação no Leblon, na Zona Sul da cidade.

— Sempre falo: “minha mãe ia gostar disso” — diz Francisco Gil, único filho de Preta, que está na Europa em turnê com a banda Gilsons. — Ela adorava aparecer. Ia estar feliz com essa mobilização.

Parte do que entra no ar foi pensado pela própria Preta. Tão logo recebeu o diagnóstico de câncer no intestino, em 2023, se propôs a filmar (com celular) as etapas e a intimidade do tratamento para um documentário. As imagens exclusivas do périplo são a espinha dorsal da uma hora e meia do filme “Preta — Eu não ando só”.

— Ela acreditava muito que ia ficar boa — conta Monica Almeida, procurada pela artista com a ideia do doc. — Até um determinado momento do filme, há um tom. Quando começa a entender (a gravidade do estado de saúde), ela percebe que a forma de filmar muda. Mas sempre se filmou, até o final.

Ora a cinegrafista é Preta, ora seus amigos mais próximos, que chegaram a se mudar para a casa dela. “Não mexe comigo que eu não ando só” era um mote de sua existência.

— Eu esquecia um pouco de filmá-la, não vou mentir (risos) — diz o apresentador Gominho. — Houve momentos difíceis demais, mas ela era resiliente e sabia transmutar aquele caos e tristeza em positividade.

A carioca, que morreu aos 50 anos, dita o tom de alto-astral nas internações, nas sessões de quimio e radioterapia e, ainda, na conversa da organização de seu próprio velório. “Acho que o (Theatro) Municipal é bom. Chique. Mas não sei se é o melhor lugar. Ou na Sapucaí?”, diz Preta, ao que alguém protesta pelo rumo da prosa. “Gente, morrer é normal!”

— Esse momento sintetiza muita coisa: quem ela era, o jeito que estava determinada a viver esse desafio, ensinando para todo mundo em volta como ela queria que fosse alegre — diz Sandara Kogut.

Uma das entrevistadas do filme, Angélica, conheceu Preta num momento em que a filha de Gilberto Gil era produtora e diretora. Inclusive, o último clipe da carreira musical dela tem assinatura da própria Preta.

— Fiquei muito à vontade com aquele jeito dela. Depois disso, não nos encontramos mais — diz Angélica ao GLOBO, explicando que o contato foi retomado quando ela começou o relacionamento com Luciano Huck, amigo de Preta desde os tempos em que namorou Ivete Sangalo. — Quase ninguém sabia que estávamos namorando, mas ele havia contado para ela. Preta era madrinha do nosso casamento porque foi uma das primeiras pessoas a saber da gente.

'Filha da liberdade'

Nascida no Rio de Janeiro em 8 de agosto de 1974, Preta Maria Gadelha Gil Moreira foi chamada pelo pai de “filha da liberdade”. “Nasci no pós-exílio do meu pai. (Ele) disse que chorou uma semana inteira, pois eu representava um respiro, um conforto por estar de volta ao seu país”, escreve a artista em sua autobiografia “Preta Gil: os primeiros 50”, publicada pela Globo Livros quando ela completou cinco décadas de vida.

As histórias da infância e adolescência, da carreira profissional e da vida amorosa são dissecadas por 52 entrevistados para a série do Globoplay. Muitos aparecem em dupla, dividindo lembranças e resgatando emoções de fazer parte do círculo de Preta. Francisco Gil, por exemplo, é entrevistado ao lado do pai, Otávio Muller, primeiro marido de Preta, por quem ela se apaixonou enquanto ele interpretava Sardinha na novela “Vale tudo” de 1988. A atriz Alice Carvalho dá depoimentos com o cantor Danrlei Orrico, o Kanalha. Os dois são filmados juntos porque Preta, em seus últimos anos de vida, teve “relações amorosas simultâneas” com cada um deles, como explica Alice na série.

— Ela nunca teve medo de experimentar, de se posicionar, de se manifestar — diz ao GLOBO o apresentador Luciano Huck. — Fez isso como artista, como mulher e como brasileira. Viveu de forma intensa, autêntica e corajosa.

Esses depoimentos de amigos e parentes dividem o espaço de “Meu nome é Preta” com a voz da própria estrela, em imagens de arquivo inéditas de sua infância e entrevistas marcantes feitas desde que ela se alçou ao estrelato com seu primeiro disco, “Prêt-à Porter”. Lançado em 2003, quando Gilberto Gil era ministro da Cultura do primeiro governo Lula, a obra chocou o Brasil (e o próprio Gil) por trazê-la nua na capa, desafiando o padrão de beleza magro e branco que tolhe a autoestima de tantas mulheres.

Daquele ano até os últimos dias, nunca mais saiu dos holofotes, firmando-se como um ícone de autoaceitação e liberdade ao falar abertamente sobre, entre tantos assuntos, a bissexualidade ou as sequelas do tratamento de câncer.

Caetano (Veloso) fala que ela era tropicalista porque não tinha autocensura — diz Mini Kerti, que se propôs a dar ênfase na arte de Preta durante as quase quatro horas totais de produção. — Quis fazer uma série em que ela cantasse, com muitas músicas dela. O Marcello Azevedo, empresário, disse que ela achava que as pessoas não a reconheciam como cantora. Quando ouvi isso, quis fazer uma série bastante musical para mostrar a artista maravilhosa que ela era.

Neta em destaque

O filme e a série olham para o passado de Preta, mas também projetam o futuro ao destacar a luminosa personalidade de Sol de Maria. Hoje com 10 anos, a menina é entrevistada nas duas produções. O filme, inclusive, é dedicado a ela, que, segundo o avô, é a herdeira direta de Preta.

— É a Preta multiplicada por cinco. Tem uma energia muito parecida, talento mesmo — diz o ator Otávio Muller. — Preta queria que o trio (o Bloco da Preta, que ela comandava e era um dos maiores sucessos do carnaval carioca) ficasse para ela.

Antes de autorizar a participação da filha nas duas produções, Francisco abriu o jogo com Sol de Maria sobre o que vinha por aí. A menina não pestanejou: encarou as câmeras e dividiu curiosidades divertidas do tipo “falam que eu choro igual a minha avó, mas ela não gostava quando falavam isso” (dito na série) ou lembranças inocentes, como “eu não sabia o que era câncer direito, achava que era uma virose” (compartilhado no filme).

— Perguntei para a Sol se ela tinha vontade de participar dessas produções para a avó dela. É curioso como ela, de certa forma, já esperava, por isso — diz Francisco. — É meio rápido, um ano depois e já saindo tanta coisa assim, mas é bonito. Eu e Sol fizemos questão de participar por sabermos que ela ia adorar. Isso tudo é fruto do que foi a vida da minha mãe. Ela era uma pessoa que todo mundo queria estar perto.