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No Ano Cultural Brasil-China, obras de Portinari vão a Pequim, enquanto mostra no Rio conta dez mil anos de tradição alimentar no país do Oriente

Em cartaz no Museu Nacional da China, exposição 'O Brasil de Portinari' reúne 56 obras do pintor modernista; já o Museu Histórico Nacional, no Centro do Rio, apresenta 121 itens de diferentes dinastias, na mostra 'Sabores da tradição'

Agência O Globo - 12/07/2026
No Ano Cultural Brasil-China, obras de Portinari vão a Pequim, enquanto mostra no Rio conta dez mil anos de tradição alimentar no país do Oriente
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O sonho de levar uma exposição de Candido Portinari (1903-1962) à China é gestado há mais de sete décadas, embora o pintor nunca tenha conseguido visitar o país. O modernista chegou a ser convidado para uma viagem nos anos 1950, junto dos escritores Jorge Amado e Graciliano Ramos , pelo poeta Ai Qing (pai do artista visual Ai Weiwei , que pouco mais tarde viria a ser perseguido pelo regime de Mao Tsé-Tung ), mas não foi. Desde o mês passado, o projeto se tornou realidade, com a inauguração da mostra “ O Brasil de Portinari ”, que expõe, até 10 de outubro, 56 obras do pintor no Museu Nacional da China (MNC), em Pequim.

Realizada no contexto do Ano Cultural Brasil-China 2026 , a mostra teve como contrapartida a vinda da exposição “ Sabores da tradição: história da alimentação na China antiga ”, organizada pelo MNC e em cartaz até 11 de outubro no Museu Histórico Nacional (MHN), no Centro do Rio. Com 121 itens que cobrem um período de mais de dez mil anos, da pré-história agrícola a 1911 (que marca o fim da dinastia Qing), a mostra já foi montada no Museu de Etnografia de Budapeste, na Hungria, em 2024, e nos Museus do Kremlin, em Moscou, em 2025.

Filho do pintor e idealizador do projeto que leva seu nome, João Candido Portinari conta que já planejava um grande show na China desde 2004, mas conseguiu viabilizar no MNC como parte da programação do Ano Cultural.

— Entre as seis mil cartas que temos entre os documentos do Projeto Portinari, tem uma de 1952 do (advogado e político) Abel Chermont (1887-1962), muito amigo do meu pai, dizendo que a primeira coisa que o impressionou ao chegar em Pequim “foi a gentileza, a educação e a paixão pela cultura e pela arte”. E que ele deveria fazer uma exposição lá — conta o matemático e o professor João Candido . — Em 1957, o (poeta espanhol) Rafael Alberti volta a retomar com o meu pai a ideia de levar suas obras para lá. Mas já com o seu acervo aos cuidados do Projeto, começamos a pensar nisso a partir de 2004, quando lançamos o catálogo raisonné. Portanto, tem uns 22 anos dessa possibilidade, mas isso aconteceu no momento certo.

Há cerca de três anos, o fundador e diretor-geral do Projeto voltou a esboçar uma exposição para o Museu Nacional da China, imaginando inicialmente levar os painéis “ Guerra e paz ”, pintados entre 1952 e 1956 para a sede da ONU, em Nova York, o que não foi viável. No entanto, entre as obras originais selecionadas para a exposição estão maquetes, emprestadas pelo Itamaraty , que serviram de base para os murais 14m × 10m. A exposição foi dividida em quatro núcleos temáticos: a família e a infância do pintor em Brodowski (SP); trabalho, que inclui obras-primas “ O lavrador de café ” e a série Retirantes ; fé e folclore; e esboços e estudos preparatórios das pinturas. Também foi levado a Pequim o show imersivo “ Portinari para todos ”, elaborado pelo curador Marcello Dantas para o MIS Experience (SP), em 2022, com um vídeo em looping com todas as obras catalogadas do modernista, num total de nove horas de exibição.

— Criamos um recorte dos anos 1930 a 1960, que não apenas retrata o Brasil desde as memórias de infância de Portinari, mas que também é uma síntese da identidade nacional. O público chinês se identifica bastante com esse Brasil do interior, com o lado lúdico das brincadeiras de criança, até pelas origens rurais do país. Assim como a família e o trabalho, temas que eles valorizam muito. Estamos mostrando um Portinari total, um Brasil em sua grandeza, mas sem retoques — avaliação João Candido .

Diretor do Museu Nacional da China, Lou Wenli define Portinari como um “titã icônico na história da arte moderna brasileira”, em seu discurso na abertura da mostra:

— Ao capturar a rica textura da terra vermelha, as costas largas e robustas dos trabalhadores, os rostos de pessoas de culturas mistas e os céus estrelados e poéticos sobre a tela, ele perdeu uma identidade visual única e rigorosa para o Brasil.

Segundo museu em visitação do mundo, só perdendo para o Louvre , em Paris, o MNC recebe cerca de 30 mil pessoas por dia, o que daria uma estimativa de público de 4 milhões de visitantes para a mostra, até seu encerramento, em outubro.

— Será o maior público de uma exposição de Portinari, disparado. E com a vantagem de estarmos diante de um olhar absolutamente novo, da Ásia. De fugir um pouco desse eurocentrismo que tantas vezes nos alija, um pensamento que nos faz crer que a grande arte só acontece por lá, ou nos Estados Unidos — comenta o filho do modernista.

Processo civilizatório

A cerca de 18 mil quilômetros de Pequim, a exposição “ Sabores da tradição ” traz ao Museu Histórico Nacional a arte milenar do preparo e consumo das refeições, e também demonstra, por meio de utensílios de bronze, ouro, prata, cerâmica, porcelana, jade e madeira, a forma como a sociedade chinesa se certifica e se a partir de hábitos e hábitos alimentares.

— Uma mostra aborda um tema fundamental para entender o processo civilizatório. Podemos ver como, há dez mil anos, a segurança alimentar já era uma questão política, com uma importância vital sobre o material, o espiritual, as estruturas sociais — ressalta Cícero de Almeida , diretor do Museu Histórico Nacional. — Os artistas que estão aqui, muitos deles achados achados, já apontam para a prática milenar do cozimento de alimentos, da domesticação de animais. E os objetos mostram que não é apenas uma questão de sobrevivência, mas que há uma forma de servir, de segurar as mobílias, uma delicadeza no modo de preparar e como se vai receber esses alimentos. Com seus núcleos, a exposição cria um percurso para entender a sociedade por meio desses objetos.

Os núcleos são divididos por temas como a variedade na base da nutrição, mostrando a China como um dos berços do cultivo de grãos e da domesticação de animais como o porco e a galinha; o domínio do fogo e o desenvolvimento de diferentes técnicas como a fervura, a fritura e o assado; os ritos à mesa como marcadores sociais e de poder; e a forma como a funcionalidade não era separada da beleza, com objetos cotidianos que são verdadeiras obras de arte.

Historiador da arte, curador e pesquisador com experiência na cultura chinesa, Giancarlo Hannud fez consultoria de conteúdo junto à equipe do Museu Nacional da China para transporte para o público brasileiro conceitos e tradições do país.

— Tentamos chegar numa próxima, e presumimos que muita coisa vai se perder, inevitavelmente. Porque é outra forma de estar no mundo, e aí buscamos essas pontes e conexões. Aqui nós temos uma palavra para taça de vinho, lá eles têm uma série de utensílios diferentes para propósitos, lugares e benefícios diferentes. É uma forma de entender uma cultura muito diferente da nossa, a partir de um denominador comum, a alimentação — contextualiza Hannud . — Outro ponto interessante é que temos ferramentas sofisticadas já no neolítico. Para se ter algo mais ou menos parecido com isso na Europa, levou mais seis mil anos, no mínimo. Comentários presos nesse olhar ocidental, e esquecemos esse outro mundo que é muito mais antigo, com uma tradição muito maior.

A mostra no Museu Nacional traz ainda recursos interativos, como um leitor digital que conta a história de alimentos distribuídos em cartões e um visor de realidade virtual, no qual é possível pegar com hashis (ou kuàizi, em chinês) reproduções de alimentos preparados numa mesa real.

— A ideia de toda a mostrar é tentar chegar no meio do caminho, abordando toda a complexidade presente nos objetos e nos conceitos por trás, mas sem virar algo acadêmico, que vai afastar o público. Dá para fazer coisas inteligentes e interessantes sem cair num excesso de didatismo — conclui Hannud .