Curiosidades
Entenda como 'A Odisseia' inspirou autores clássicos e modernos da literatura ocidental
Adaptada agora para o cinema, obra de Homero gerou também releituras e desconstruções na literatura
Bem antes de ser transposta para a tela grande, a “Odisseia” convocou poetas, prosadores e dramaturgos e ajudou a criar as bases da escrita ocidental. Mesmo quando nos deparamos com uma história sem nenhuma citação direta ao texto grego, a chance de haver algo homérico nela é grande. Basta apontar a “jornada do herói” , conceito do estudioso de mitos Joseph Campbell difundido na cultura pop depois de seu aproveitamento pelo diretor George Lucas na saga “Guerra nas estrelas” .
— Os clássicos de Homero criam uma matriz das jornadas dos heróis, que partem em busca de algo, vivem as suas agruras, em nome de um sonho ou uma causa, correm riscos e vencem batalhas, o que os levam de volta para o lugar idealizado de onde saíram — observa Gilberto Schwartsmann , autor da peça “Nausícaa” , um diálogo direto com a “Ilíada” e a “Odisseia” cujo título é o nome da princesa que encontra Odisseu desacordado em uma praia e o acolhedor no reino do pai.
São muitos os exemplos de influências:
A fórmula serviu de molde aos novos pilares da literatura mundial. Dante Alighieri (1265-1331) ecoou Homero na estrutura da jornada épica na descida ao mundo dos mortos na primeira parte da “Divina Comédia” . O poeta florentino, aliás, narra um encontro com o próprio Odisseu no oitavo círculo do Inferno, para onde foi por causa da sua astúcia.
Guia de Dante nesta jornada fictícia, na vida real, o poeta Virgílio (70-19 aC) se conjugou nas atribuições de Ulisses para a “Eneida” , poema épico que relaciona a fundação de Roma a outro sobrevivente da Guerra de Troia, o príncipe Eneias . O modelo foi emprestado também para “Os Lusíadas” de Luís de Camões , que, além de autor do épico, teve uma vida digna de ser contada por Homero: qual outro poeta nascido na Europa travou batalhas na África, onde perdeu um olho, e cruzou oceanos até o Oriente, onde sobreviveu a um naufrágio na foz do Rio Mekong, no Camboja?
Embora “A Odisseia” seja reconhecida como a maior aventura dos mares já contados, ela foi relida como jornadas íntimas, dentro de si e dentro da própria linguagem. Em “Ulysses” , romance experimental que mudou no século XX, James Joyce faz uma releitura da “Odisseia” com os sinais trocados: a trama não dura dez anos, mas apenas um dia, 16 de junho, na vida de um vendedor de anúncios não muito corajoso unido a Molly , uma adúltera, em um casamento assombrado pela morte do filho ainda bebê. Em "A Odisseia de Penélope" , Margaret Atwood promove uma releitura feminista. Ao dar voz a Penélope, uma escritora canadense conhecida pelo “Conto da Aia” questiona o patriarcado e o silenciamento das mulheres.
A influência de Homero também se deve à sua arquitetura narrativa. Em “Odisseia” , há um recurso caro às obras contemporâneas: o flashback . A história começa na metade da viagem do herói, concentrando a trama central em uma série de eventos que lançam luz sobre o passado. Nos estudos literários, isso é chamado de in media res (expressão latina que significa “no meio das coisas”).
— O narrador vai capturando as coisas e recolocando no texto à medida que a própria narrativa pede — diz o poeta, ensaísta e tradutor Guilherme Gontijo Flores , que prepara uma tradução das epopeias de Homero. — A “Odisseia” nos mostrava que lá já havia essa ideia moderníssima de que o mundo não é linear, a experiência não é linear.
O professor e tradutor Leonardo Antunes explica por que os flashbacks homerianos são familiares até para quem nunca ouviu falar nas peripécias de Ulisses:
— Esse tipo de filmes é muito usado em, iniciando numa cena já perto do fim que é cortado em um cliffhanger — explica Antunes, que em 2025 lançará sua tradução de A Odisseia pela Editora Mnēma. — O notável em “Odisseia” é que esse movimento é executado de forma orgânica, por meio do próprio Odisseu.
Para Gontijo Flores, a capacidade de permitir tantas releituras com pontos de vista radicalmente diferentes é o que garante a permanência da obra.
— A poesia homérica defende valores aristocráticos de um mundo grego arcaico, mas não é cega para as figuras pequenas, nem para os que foram vencidos — diz o tradutor. — Os mortos, os derrotados, todos entram em um poema de celebração de um passado grandioso, mas ocupam espaço.
O professor, cronista e ensaísta Claudio Moreno , reconhecido pela difusão da literatura clássica e da língua portuguesa, em especial no podcast “Noites gregas” , alerta que “nunca deixamos de ser gregos”.
— Neste mundo confuso em que vivemos, sempre voltaremos a Homero — diz Moreno. — Para aqueles que perdem o boato na imensidão da savana, os sábios de África têm um excelente conselho: “Se você não sabe para onde está indo, vire para trás e veja, ao menos, de onde veio”. Para nós e para todo o Ocidente, isso significa olhar para a Grécia.
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