Curiosidades

Biógrafo de Clarice Lispector fala de seu amor pela Holanda por meio de grandes nomes da arte

Em 'O mundo de ponta-cabeça', Benjamin Moser propõe reflexões sobre artistas sem buscar definitivas conclusões.

Agência O Globo - 09/07/2026
Biógrafo de Clarice Lispector fala de seu amor pela Holanda por meio de grandes nomes da arte
Clarice Lispector

Dom Sebastião não estava exatamente interessado em cristianizar o Marrocos quando disputou a batalha de Alcácer Quibir, em 1578, conforme escreve Benjamin Moser em “ O mundo de ponta-cabeça ”. Ele buscava interferir numa disputa sucessória do reino muçulmano, tendo desaparecido, ou morrido, nesse período. A hipótese levantada por Moser de que Caravaggio possa ter sido assassinado se alinha com o histórico do pintor barroco italiano, que fugiu de Roma após se envolver em um homicídio. Contudo, as evidências sugerem que ele pode ter falecido devido a uma doença: se provocada ou não por um ferimento de espada, ainda não está claro. Afirmar que Rembrandt era um pintor moralista é uma homenagem à classificação feita por Susan Sontag , uma das biografadas por Moser em obras anteriores, ao lado da brasileira Clarice Lispector . Entretanto, isso reduz a obra de um dos maiores artistas do Ocidente, em nome da tendência intelectual de categorizar como contradições, surpresas, dúvidas e riquezas da criação humana.

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Embora existam imprecisões em “ O mundo de ponta-cabeça ”, a obra de Moser é valiosa, até mesmo por conta delas. O que o autor americano, nascido no Texas, não é um estudo histórico de artistas como Rembrandt , Vermeer , Frans Hals ou Albert Eckhout (tema de um capítulo dedicado às suas “primeiras representações europeias dos ameríndios das Américas do Norte ou do Sul”). A obra se aproxima mais de um longo ensaio: traz reflexões que não tentam ser definitivas, tanto na forma quanto no conteúdo. Através delas, buscamos informações, informações ou segurança que ampliam nosso conhecimento sobre o tema, sem a intenção de chegar a um veredito final (conceito que, na verdade, nunca existe em História).

O que Moser parece buscar é uma maneira de expressar seu amor pela Holanda, onde escolheu viver desde a juventude, a partir da arte produzida em alguns dos anos mais turbulentos do país — com lutas pela independência da Espanha, então o maior império europeu; sobrevivência a catástrofes e morticínios em guerras contra outras potências do continente; assim como sentenças, decadência econômica, expansões marítimas incertas e divisões religiosas.

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Esses aspectos se refletem nas obras comprovadas por Moser. No entanto, elas permanecem relevantes por serem mais do que meros comentários em forma de pintura de crises políticas ou sociais, lançando uma sombra sobre a permanência de obras de arte produzidas atualmente, que muitas vezes parecem ter essa única finalidade.

As representações de narrativas do Antigo Testamento por Rembrandt ou seu monumento ao caos harmonizado de uma sociedade de homens livres em “ A ronda noturna ” não são percebidas hoje da mesma maneira que eram pelos contemporâneos do pintor. As funções simbólicas que as plantas e animais das naturezas-mortas de Adriaen Coorte já não são tão compreendidas como eram nos Países Baixos do início do século XVIII. No entanto, sobreviverão os arranjos de formas, linhas e núcleos que criam imagens capazes de tocar a sensibilidade humana que estão desarmadas de interesse em ver causas aprovadas ou propagandeadas.

Um comentário na leitura de “ O mundo de ponta-cabeça ” está na sua autorização de jargões dos debates atuais sobre arte. A palavra “ancestralidade” não aparece. Não somos obrigados a validar nenhuma pintura com base nas origens periféricas ou específicas sociais de seu autor. Apesar de muitos deles virem de origens humildes ou terem morrido na pobreza, assim como Hendrick Avercamp , surdo. Rachel Ruysch , a única mulher da seleção de Moser, é, como ressalta o autor, um argumento contrário à tese de que as convenções sociais, como as obrigações do casamento e da maternidade, foram barreiras para que as mulheres se desenvolvessem como artistas. Durante sua carreira consistente, ela produziu uma boa parte das telas mais valorizadas no mesmo período em que teve dez filhos.

Sem cansar o leitor

A jornada de Moser entre os mestres holandeses é conduzida com uma linguagem clara e informações consistentes, demonstrações com humor e um ritmo que não cansa o leitor — até mesmo o posfácio, onde o ensaísta e biógrafo descreve sua condição de americano residente na Holanda, discutindo as diferenças entre seu país natal e o país que escolheu para viver. Nesta parte final, o tom com o qual Moser fala de si mesmo alinha-se à forma contemporânea de se expressar, em que experiências pessoais, mesmo as mais banais, parecem ter um caráter especial quando são relatadas por nós. Contudo, isso sugere que ele talvez deva observar mais uma vez os grandes mestres holandeses para compreender melhor seu poder de síntese e a ausência de sentimentalismo.