Curiosidades
Novas traduções de 'Grande Sertão' podem reescrever legado internacional do clássico de João Guimarães Rosa
Comemorando 70 anos de aniversário, livro ganha novas edições em inglês e alemão. Australiana passou 10 anos no trabalho, e Caetano Galindo já afirmou que essa tradução vai chacoalhar o mundo anglófono.
“Grande Sertão: Veredas” deve ganhar uma nova chance no exterior. A obra-prima de Guimarães Rosa, que completa 70 anos em 2026, terá traduções para o inglês e o alemão, com lançamentos previstos para início de 2027.
A tradução dos *experimentalismos* e *invenções* formais do autor mineiro exigiu anos de dedicação da australiana Alison Entrekin e do alemão Berthold Zilly. Ela iniciou o projeto em 2014; ele, em 2011.
— Foi um processo aos trancos e barrancos — diz Alison, que teve apoio do Itaú Cultural, mas chegou a trabalhar sem patrocínio em diversos momentos. — Não é o tipo de tarefa que uma pessoa adote de forma puramente pragmática. A logística é difícil.
Com o título de “Vastlands: The crossing”, o projeto de Alison preenche uma velha lacuna. Lançada em 1963, a primeira tradução para o inglês (“The devil to pay in the backlands”), de autoria de Harriet de Onís e James L. Taylor, foi um fracasso. Vendeu menos de mil cópias e foi criticada por simplificar a complexidade da voz roseana. Críticos diziam que o texto de Guimarães Rosa havia sido reduzido a um faroeste.
A tradutora australiana discorda da má fama de seus antecessores. Ela reconhece que muitas soluções encontradas pela dupla de tradutores não foram ideais, mas lembra que é preciso contextualizar as condições em que o trabalho foi produzido, sem ferramentas como a internet e sem a fortuna crítica posterior.
Mesmo com os recursos contemporâneos, a tarefa de adaptar “Grande Sertão” para outra língua continua sendo considerada um enorme desafio. O autor mineiro moldava o próprio idioma, rompendo com as estruturas tradicionais da sintaxe e criando inúmeros *neologismos*. Isso sem falar no ritmo da prosa, suas rimas internas, suas justaposições e sua peculiar oralidade sertaneja. Em vez de buscar equivalentes literais para o inglês, Alison mergulhou no processo de criação de Rosa, decodificando a lógica de suas invenções.
— Eu passei muito tempo analisando a maneira como ele manipula a linguagem, cria neologismos e trabalha a sintaxe — conta ela. — Com isso tudo, fui me armando de técnicas e possibilidades de recriação. Eu tentei entender o raciocínio dele, a cabeça dele e tentei imitar isso numa outra língua.
A tradutora encontrou um desafio recorrente nas palavras e pequenas frases que Guimarães Rosa retrabalha ao longo do livro como uma espécie de refrão.
— Ele pega a palavra “nonada”, por exemplo, que todo mundo conhece e que aparece seis vezes no livro, e a apresenta desmembrada ou reconfigurada de outras maneiras — diz Alison, sem dar spoilers sobre as soluções encontradas. — A dificuldade consiste em reconhecer todos esses pontos e encontrar uma solução em inglês que também possa ser desmembrada da mesma forma, para que as repetições conversem entre si no texto. Fiquei anos sem encontrar uma solução que me satisfizesse completamente.
A nova tradução, que sairá nos EUA e no Canadá pela Simon & Schuster, e na Inglaterra e Austrália pela Bloomsbury, tem a chance de mudar a história do clássico de Guimarães Rosa no idioma mais importante do mundo. O tradutor e escritor Caetano Galindo, responsável por uma premiada versão de “Ulisses” para o português, já afirmou que a tradução de Alison irá chacoalhar o mundo anglófono.
Já na Alemanha, país em que Rosa trabalhou como diplomata e formou uma ampla rede de contatos, a história de “Grande Sertão” é bem diferente. A tradução de Curt Meyer-Clason é considerada um marco importante para a recepção do autor na Europa, embora também tenha enfrentado debates ao longo das décadas por suas escolhas de adaptação e ritmo.
Berthold Zilly, que já traduziu *Os Sertões*, outro título de fôlego da literatura brasileira, passou quase 15 anos tentando resgatar a radicalidade linguística e a precisão da sintaxe roseana na nova tradução para o alemão, que sairá sob o título de “Großer Sertão: Querungen”.
— O professor Curt Meyer-Clason, um dos tradutores para o alemão, observava que muitas das inversões de sujeito e predicado presentes no romance derivam justamente da sintaxe alemã, algo que frequentemente atribuímos a outras influências. Rosa dominava profundamente essa língua e a admirava muito — diz Érico Melo, responsável pela nova edição comemorativa da Companhia das Letras de “Grande Sertão”, que conta com textos inéditos de Milton Hatoum, Itamar Vieira Júnior, Bia Lessa e Silviano Santiago, entre outros.
Melo comenta outro aspecto pouco lembrado sobre a relação de Guimarães Rosa com as traduções. Ainda jovem, em Belo Horizonte, o autor teria se interessado pelo *esperanto*, chegando a participar de clubes dedicados à língua universal.
— O *esperanto* nasce justamente da tentativa de criar uma língua universal formada a partir de elementos de diferentes idiomas. E, de certa forma, o grande feito de “Grande Sertão” é realizar uma fusão semelhante: combinar elementos extremamente diversos em uma síntese surpreendente.
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