Curiosidades

Quem foi Tuca? Artista que começou ao lado de nomes como Chico Buarque, gravou com estrela francesa e teve morte precoce é tema de livro

Compositora, cantora e instrumentista foi diretora artística de Françoise Hardy em Paris e fez, em estúdio frequentado por Cat Stevens, Elton John, Pink Floyd e David Bowie, disco que "é uma obra-prima", diz pesquisador, e hoje é raridade de colecionador

Agência O Globo - 05/07/2026
Quem foi Tuca? Artista que começou ao lado de nomes como Chico Buarque, gravou com estrela francesa e teve morte precoce é tema de livro
Chico Buarque - Foto: Reprodução / Instagram

Quantas pessoas conhecem Valeniza Zagni da Silva, paulistana nascida em 1944 que morreu em 1978? O nome artístico — Tuca — talvez diga algo para quem acompanhava a programação de TV no fim dos anos 1960: num festival da canção, a jovem interpretou a marcha-rancho “Porta estandarte”, de Geraldo Vandré e Fernando Lona. Mais tarde, na TV Tupi, chegou a ter um programa com o produtor Luís Carlos Miele, “Um homem, uma mulher”. Mas é de uma artista bem maior do que esta que trata “Tuca: a cantora lésbica exilada da história” (Ed. O Sexo da Palavra, R$ 52), do professor e pesquisador Renato Gonçalves, primeiro livro da coleção Vidas Sequestradas, a ser lançado no fim do mês, na Casa Queer da Feira Literária de Paraty (Flip).

Cantora, compositora e multi-instrumentista (craque no violão, seu instrumento principal), Tuca começou carreira cedo, em São Paulo, ao lado de nomes como Chico Buarque, Toquinho e Taiguara. Inteligente, carismática, irreverente e poliglota, adepta das túnicas vistosas, ela lançou um elogiado LP, em 1968, pela Philips, e foi convidada pelo Itamaraty para participar, ao lado de Gilberto Gil e do Jongo Trio, da Semana de Arte Brasileira, realizada em Angola.

Assim como muitos colegas de profissão, Tuca buscou o caminho do exterior quando a ditadura militar apertou a vigilância sobre as artes. Autoexilada na França, ela tocou violão e fez os arranjos para o disco “Dez anos depois” (1971), em que Nara Leão recriou de forma despojada e intimista clássicos da bossa.

Ainda em 1971, em Paris, Tuca acabou virando parceira e diretora artística da estrela francesa da canção Françoise Hardy em seu disco mais ousado, “La question”. Cada vez mais dedicada ao pop de vanguarda (e segura de sua homossexualidade), ela partiu em seguida, com o parceiro Mário de Castro, para o Château d’Hérouville, estúdio em um castelo frequentado por nomes como Cat Stevens, Elton John, Pink Floyd e David Bowie (com quem, reza a lenda, Tuca teria trocado algumas ideias). Lá, eles gravaram “Dracula, I love you”, disco no qual a metáfora do vampirismo foi usada para falar do homoerotismo feminino.

Autor de um volume da série O Livro do Disco, da Editora Cobogó, sobre “Fullgás”, álbum de 1984 da cantora Marina Lima, Renato Gonçalves fez uma vasta pesquisa para a sua tese de mestrado, em 2014, sobre os irmãos compositores Marina e Antonio Cicero. Ao sentir falta, na bibliografia, de um olhar mais atento para as questões LGBT na música brasileira, ele aprofundou as pesquisas. E acabou chegando ao nome de Tuca — àquela altura, praticamente ausente nos registros da memória da MPB.

— Comecei a perguntar para as pessoas que viveram a década de 1970, inclusive artistas, e a primeira coisa que elas me falavam era: “Ah, aquela que era gorda?” Vi que tinha alguma coisa ali — diz. — No seu tempo, isso foi atrapalhando o reconhecimento dela como uma grande musicista. Porque a Tuca era uma artista completa, em termos de composição e de interpretação. Tocava muito bem o violão, sabia tocar vários instrumentos, se virava bem em vários gêneros musicais e tinha um carisma muito forte... Ela encantava as pessoas. E teve ainda o fato de ela ser mulher. Hoje, a gente entende muito bem, olhando para a história, como as mulheres musicistas acabaram sendo apagadas.

No disco de Nara Leão, Tuca foi creditada apenas como uma “participação especial”. As menções ao papel da brasileira em “La question” (hoje celebrado internacionalmente como um clássico obscuro da música pop) ficam restritas a textos críticos em francês e inglês. E seu único LP disponível no streaming é o “Tuca”, de 1968. Mais destaque na biografia da artista foi dado à morte precoce, aos 33 anos, em São Paulo, supostamente provocada por um regime radical para emagrecer, incentivado por um guru espiritual (esse, por sinal, é um dos mistérios sobre Tuca que estão sendo investigados pela produtora de podcasts Rádio Novelo para uma série sobre a artista).

— Os rótulos e os estereótipos nos ajudam a catalogar os artistas. “Ah, ela é uma compositora?”, “ah, ela é uma cantora?” Mas a Tuca, não. Além disso tudo, ela também foi humorista — acrescenta Renato, que contou, em sua pesquisa, com uma rede de admiradores da artista formada na internet na última década. — Tem depois o fato de ela ter tido uma carreira muito curta, foram só três discos, fora o com a Nara Leão e o com a Françoise Hardy. Três grandes discos. E, no pós-morte, entra a questão que, para mim, é que pega mais: a da gestão do acervo. Toda obra, sobretudo de pessoas LGBT, que não quiseram ou não puderam ter filhos, por questões legais, fica na mão de quem? Hoje, não tem absolutamente ninguém respondendo pela obra da Tuca.

‘Olha só a maluquice’

Lançado em 1974 pela Som Livre, então gravadora da TV Globo, “Dracula, I love you” não emplacou música em novelas (a faixa-título de “La question”, ao menos, virou tema da personagem de em “Selva de Pedra”) e o LP se tornou uma dessas raridades que só os colecionadores mais afortunados têm.

— Tuca pagou do próprio bolso esse disco, e fez com músicos fantásticos. Trouxe a fita para o Brasil debaixo do braço e foi bater de porta em porta nas gravadoras. Olha só a maluquice! — revolta-se Renato Gonçalves. — Esse disco é uma obra-prima, mas realmente não encontra muito eco nos seus pares ali naquele período. E teve a Censura, que atrapalhou muito também a fruição dessa obra. Porque, por mais que o disco tenha sido liberado, Tuca teve que se apoiar na questão do surrealismo e usar toda estratégia retórica para provar que as letras não tinham a ver com homossexualidade.