Curiosidades
Exilada em Londres, Jung Chang lança continuação de best-seller de 1991 sobre repressão política na China
'Voem, cisnes selvagens', que chega agora às livrarias brasileiras, aborda relação da autora com a mãe, que morreu longe da filha pelo temor de ela que fosse presa ao desembarcar na China
Aos 15 anos , minha avó tornou-se concubina de um general-caudilho, chefe de polícia de um precário governo nacional. No ano de 1924, a China estava tomada pelo caos. As primeiras frases de “Cisnes selvagens — Três filhas da China” , lançada em 1991 por Jung Chang, não perderam o impacto. E dá o tom da continuação, aguardado por três décadas e meia pelos fãs. “Voem, cisnes selvagens” , comemorado no ano passado pela crítica dos dois lados do Atlântico Norte, acaba de chegar às livrarias brasileiras e parte de onde o tomo anterior terminou.
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As tragédias e avanços originais da China do século XX, passando pela ocupação japonesa, pela Revolução Comunista e pela era Mao (1949-1976), tal qual vividos por três mulheres de uma mesma família, a escritora Chang, sua mãe, Xia De-hong, e a avó Yu-Fang. Já a sequência espelha a relação à distância entre as duas primeiras com as turbulências internacionais na agora potência global, complicada pela crescente animosidade do governo do presidente Xi Jinping com a autora, radicada em Londres desde 1978. Um mês antes de conversar por videochamada com o GLOBO, ela se despedira, pela tela do celular, da mãe, que morreu em casa, aos 94 anos, em Chendgu. As duas, que jamais esqueceram a passagem conjunta pelo Brasil, em 1995, quando conversaram com leitores em eventos literários, não se abraçaram há oito anos.
“Cisnes selvagens” é um exemplo de obra certa publicada na hora exata. Dois anos antes de chegar às livrarias, o Muro de Berlim desabara e o governo chinês reprimiu os manifestantes pró-democracia na Praça da Paz Celestial. O livro se tornou um acontecimento cultural no mundo ocidental um par de meses antes da dissolução da União Soviética. Desde então, 15 milhões de cópias foram oficialmente comercializadas, em mais de 40 línguas. A descrição detalhada da fome, dos expurgos e das humilhações sofridas por três gerações é proibida na China desde 1994. Versões contrabandeadas de Taiwan e Hong Kong são estimadas em outros milhares de exemplares. A tradução para o chinês é do próprio Chang, doutora em linguística. Ela faz questão de transporte de seus livros, que escreve originalmente em inglês, para a língua materna.
— É um exercício prazeroso ao me possibilitar, de certa forma, retornar ao meu país — afirma.
Há oito anos, o governo chinês criminalizou “ofensas públicas à memória dos heróis da Revolução” . Os condenados vão para a cadeia. E em 2005, após 12 anos de pesquisas e 150 entrevistados, entre eles Henry Kissinger (1923-2023), o principal arquiteto do restabelecimento das relações diplomáticas entre Washington e Pequim, Chang publicou, com seu marido, o historiador britânico Jon Halliday, hoje com 86 anos, “Mao — A história desconhecida” . A biografia retrata o “Grande Timoneiro” como um sádico narcisista, equiparado a Stalin e Hitler, responsável direto pela fome após o Grande Salto Para a Frente (1958-59), inclusive com a determinação de se exportar alimentos para Moscou e assim financiar o expansionismo militar chinês. Também não passa incólume a repressão singular da Revolução Cultural (1966-1976). Na conta dos autores, os 27 anos de Mao no poder ceifaram ao menos 70 milhões de vidas chinesas. O livro foi criticado pela reconstituição romanceada de episódios históricos. Ainda assim, o casal ofereceu um retrato bem distante da versão oficial de Pequim sobre o período. E enfureceu o Partido Comunista Chinês.
Doença da mãe
No ano passado, em entrevista ao Independent, Chang contou ter recebido o que acredita ser uma mensagem cifrada de Pequim. Acordou com as plantas ornamentais de sua casa, no bairro de Notting Hill, removidas, meticulosamente, “para mostrar que estavam de olho na gente”. Se o objetivo era impedi-la de seguir denunciando o caráter antidemocrático do regime, não deu certo. Em “Voem, cisnes selvagens” , o afeto, a admiração e os inevitáveis conflitos entre mãe e filha são tão fios condutores quanto à perseguição política aos dissidentes do regime.
— Após a aprovação da lei, ficou claro que, se eu voasse para a China para ver minha mãe, como fazia todos os anos, iria do aeroporto para a prisão. Juntas, avaliamos que foi arriscado demais. Foi a decisão mais devastadora da minha vida. E, mesmo doente, ela me fez prometer que não tentaria vê-la novamente. Não queria, depois de tudo que aconteceu, colocar sua filha em perigo — conta a escritora, de 73 anos.
“Tudo o que aconteceu” não é uma hipérbole. Expulso do Partido Comunista durante a Revolução Cultural, o pai de Jung Chang foi torturado, humilhado nas ruas de Chendgu e enviado a um campo de trabalho forçado, onde enlouqueceu. Sua mãe foi obrigada a se ajoelhar sobre cacos de vidro enquanto uma multidão a xingava. E uma futura escritora, então adolescente, foi separada dos irmãos para ser “reeducada” na zona rural de Sichuan, perto do Himalaia.
Após a morte de Mao e de volta a Chengdu, ela foi uma das primeiras chinesas a conseguir permissão para estudar fora do país, no Reino Unido. Na entrevista ao GLOBO, o fundo falso do vídeo é uma imagem do Hyde Park, o mais icônico parque de Londres. Mas a decoração real de sua casa tem temas asiáticos. Acompanha de longe uma transformação impressionante de seu país natal, que desafia a supremacia americana, mas a admiração, frisa, não diminui a perplexidade com o “avanço autoritário de Xi Jinping” .
— Mao era terrível de uma forma absolutamente transparente. Ele magoou a morte e o sofrimento de muita gente, inclusive de muitos parentes dos que hoje comandam o país. Ainda assim, Xi valoriza o totalitarismo do passado e alimenta a animosidade de Pequim pelo Ocidente, o que me entristece — afirma.
Nos últimos meses, quando a saúde de Xia De-hong se debilitou de forma mais rápida, como duas vezes a se falar pelo celular diversas vezes por dia.
— Falei com ela um pouco antes de sua morte. Beijei seus braços pela tela, como se aquela barreira física inexistisse. Perguntei: “Mãe, se você puder me sentir, se sabe que estou com você agora, você amando, pode abrir seus olhos por um instante?” Com muita luta, ela assim o fez. Seu semblante estava sereno e fui tomado por uma sensação de calma. Tinha imaginado que o momento de dizer adeus seria com nossos corações dilacerados. Mas ela, até no fim, me deu presentes, neste caso ao me oferecer um sentimento profundo de paz — contorno Chang.
Central em “Cisnes selvagens” , inclusive ao rememorar, em fitas de áudio entregues a Chang, sua trajetória e a de sua mãe, De-hong distribuiu uma única regra para dar a vitória ao futuro best-seller. Que a filha jamais se preocupasse com sua opinião sobre o resultado final.
— Enviei uma cópia da edição chinesa, mas nunca soube se ela leu. Jamais conversamos disso. O mais importante era que eu pudesse escrever como bem quisesse e experimentar algo tão raro em sua vida, a prática da liberdade total — afirma.
Visita ao Brasil
Quando “Cisnes selvagens” foi lançado no Brasil, seus leitores tinham alguma memória da ditadura militar (1964-1985). Chang se diz intrigado sobre a audiência da continuação da história no país. E lembra da conexão que sentiram, mãe e filha, ao passarem juntas, em 1995, por São Paulo, Rio e Minas.
— Em um dos eventos literários, uma mulher abraçou forte a minha mãe. Vi que elas se emocionaram, mas não falaram a língua da outra. O estranhamento foi quebrado quando o leitora tirou um anel de sua mão direita, com pedras brasileiras, e o colocou nas de minha mãe. Decidiu, na hora, presenteá-la. Aquela delicadeza nos fez sentir a intensidade do materno. Foi inesquecível, para nós duas — conta.
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