Curiosidades

Livro mostra como George Orwell, que tão bem retratou as tiranias, oprimiu em casa sua primeira mulher, Eileen Blair

Em 'A vida invisível da sra. Orwell', a australiana Anna Funder também aponta as contribuições, não creditadas, para a do autor de 'A fazenda dos animais' e '1984'

Agência O Globo - 01/07/2026
Livro mostra como George Orwell, que tão bem retratou as tiranias, oprimiu em casa sua primeira mulher, Eileen Blair
Livro mostra como George Orwell, que tão bem retratou as tiranias, oprimiu em casa sua primeira mulher, Eileen Blair - Foto: Reprodução

A machosfera tem muito a aprender com “A vida invisível da sra. Orwell”, da australiana Anna Funder. Conta que George Orwell, o escritor britânico que retratou brilhantemente a estupidez das tiranias e assinou obras imortais como “A fazenda dos animais” e “1984”, era, ele mesmo, um estúpido tirano dentro de casa. E quem mais sofreu com isso, claro, foi sua primeira mulher, Eileen Blair, com quem foi casado desde 1936 até a morte dela, em 1945.

Pode parecer, logo de cara, que esta seja uma tentativa de “cancelamento” de George Orwell. Não é por aí. Anna Funder é sagaz demais para se iludir com esse revisionismo — o legado dele para a literatura e a reflexão política independem de sua sordidez pessoal. O mesmo acontece com Picasso no mundo das artes, por exemplo, entre tantos outros casos conhecidos ou por conhecer.

O foco de Anna está no apagamento de Eileen não somente em relação às contribuições dela para a obra de Orwell, sobretudo nos dois títulos já citados acima, mas também ao longo da História — apagamento este provocado pelo próprio escritor e corroborado por seus biógrafos, que ignoraram o valor dela. Ou seja, é o milenar sistema patriarcal em ação, sustentado por uma espécie invisível de superestrutura machista, algo que poderia ser inconsciente à época, mas hoje é mais do que evidente. Por isso reforço que a machosfera temos muito a ganhar com esse jeito humanista de ver o mundo, tema que também merece vir à tona com mais frequência.

O que temos em “A vida invisível...” é um estudo de caso valioso. O livro nasce a partir de cartas de Eileen escritas para uma grande amiga que foram desprezadas pelos biógrafos de Orwell. Com esse material rico em mãos, Anna abriu um caminho engenhoso para a biografia, com basicamente três vozes que se alternam: as tais cartas de Eileen para a amiga; a reconstituição histórica; reflexões contemporâneas sobre o patriarcado — tudo enriquecido com entrevistas e muita pesquisa. E estilo. Anna tem estilo, e isso faz muita diferença.

Eileen tinha 30 anos quando se casou com Orwell, que era dois anos mais velho. Sem dinheiro, ele vivia às traças. Ainda assim, devia ter um algum charme poderoso, sendo um mulherengo bem-sucedido em seus muitos romances extraconjugais (incluindo, no futuro, amigas da biografada). E nada tinha a ver com amor, era só sexo mesmo.

O escritor identificou em Eileen a mulher com quem ele queria se casar. Dá para entender: ela esbanjava bom senso político, brilho intelectual, espírito livre e bom humor, sendo “talvez não menos dotada do que o homem com quem casou”. Formada em Literatura e em Psicologia, tinha mesmo tudo para ser reconhecida por suas ideias e ações.

Casar-se com George Orwell, no entanto, não foi sua melhor decisão. Em tempos de guerra ou de paz, e geralmente na pindaíba, a vida a dois beneficiou somente o escritor. Ele não fazia mais que escrever, e a ela restava não apenas trabalhos que lhes garantiam o sustento como também em casa, até mesmo desentupindo latrinas ou cuidando da parte braçal do ofício dele. Ela datilografava, revisava, redatilografava, fazia tudo o que fosse necessário para que o marido alimentasse sua obra. Ele era casado não por questões afetivas, mas para facilitar seu dia a dia.

Não cabe reconstituir aqui a trajetória política de Orwell, sua luta antifascista na Espanha etc — a Wikipedia tem isso. Anna reconta a história dele, mas o principal é mostrar como a relação do casal se deu de maneira tão desigual e como esse desvio é comum ainda hoje. “A condição de esposa é um truque de mágica perverso que aprendemos a praticar em nós mesmas. Quero expor como ele é praticado e, assim, retirar o seu perverso poder de ludibriar”, avisa a biógrafa.

O duplipensamento

Curiosamente, Anna descobre no verbo duplipensar um caminho para explicar esse desdém pelas parceiras que se replica mundo afora há milênios. Duplipensar é um conceito criado pelo próprio Orwell em “1984”, designando a capacidade de um sujeito “manter duas crenças contraditórias na mente ao mesmo tempo e aceitar ambas como verdadeiras”. No caso, tem a ver com o fato de que você sabe que tem algo muito errado nessa relação abusiva, mas vai tocando como se ela fosse normal porque, afinal, assim temos vivido nos últimos milênios. Sorte a sua se for homem, e uma pena se o destino reservou algo diferente para você. Essa dispersão de valores da cultura do patriarcado é tão entranhada na pele que a “autoanulação pessoal se torna uma virtude feminina”.

E como um biógrafo apaga a história de uma mulher que se manteve tão atrelada ao seu biografado? A estratégia, conta Anna, é falar dela sem nominá-la, incluí-la na categoria de sujeito indeterminado ou abusar da voz passiva, sem identificar a pessoa em questão: “...arrumaram um emprego para ele...”. Quem arrumou? Ela!

É nessas sutilezas comuns nas narrativas biográficas mundo afora que vão se esfarelando pelo caminho da História milhões de parceiras que suportam o protagonismo masculino.

No fim, o esquema é claro: distorcer a verdade, controlar a linguagem e destruir a memória. Tudo, tudo a ver com as denúncias de Orwell a respeito dos regimes totalitários e sua máquina de controle do pensamento.

É aí que entra outra questão especial. Eilenn ajudou muito mais o marido do que supõe o leitor comum. Lembra sua biógrafa que reflexões e insights de Eileen sobre tudo foram muitas vezes aproveitados por George em suas obras, mas sem qualquer crédito ou demonstração pública de gratidão. “É um mecanismo de roubo-e-apagamento”.

Exemplo especial está no clássico “A fazenda dos animais” (1945), sátira que destoa da literatura mais sisuda de Orwell. É o casamento perfeito do estilo de ambos, em que “a profundidade psicológica e a empatia dela se somaram às percepções políticas dele e formaram uma obra-prima”.

Temos também o exemplo de “1984”, romance publicado em 1949 sobre um futuro distópico para a Humanidade publicado por Orwell já depois da morte de Eileen — que, muito antes de conhecê-lo, escreveu um poema chamado “1984”, que projetava... um futuro distópico para a Humanidade. E por aí vai.

Anna Funder é escritora de primeira linha, como já havia mostrado em “Stasilândia” (2008), sobre a polícia secreta da então Alemanha Oriental, e o romance “Tudo o que sou” (2014).

Na biografia de Eileen Blair, Anna mantém a tensão em alta, embarca em considerações históricas com elegância, dramatiza episódios sensíveis sem apelar para o mimimi. É tocante a descrição do fim de Eileen, morta durante uma cirurgia de alto risco (com a qual Orwell não estava minimamente preocupado); é instigante a investigação que a biógrafa faz sobre essa morte; e desconcertante a reação de Orwell à perda da mulher. Ele estava viajando quando Eileen faleceu. Ao receber os pêsames de um certo poeta, sua resposta dá até nó na garganta: “É, ela era boa-praça.”

Anna não termina por aí a biografia (mas poderia). Ela continua contando mais sobre Orwell e sua vida plena, às voltas com o filho adotivo do casal, Richard, a quem não hesitou em largar com famílias próximas por longo período. Ora visto como um sádico, ora como um homem que simplesmente não gostava de mulheres, ele também é flagrado à beira de um levíssimo arrependimento pela falta de afeto com que tratara Eileen — sem, naturalmente, mudar seu trato com as novas parceiras. No fundo, continuou abraçado à sua ética peculiar.

Por essas e muitas outras que Anna Funder nos conta, e mesmo que Orwell esteja imortalizado, vale o clichê: depois de “A vida invisível...”, ninguém mais vai ler suas obras com a mesma deferência que ele merecia até agora.

'A vida invisível da sra. Orwell' Autora: Anna Funder. Tradução: Denise Bottmann. Editora: Companhia das Letras. Páginas: 504. Preço: R$ 139,90.