Curiosidades

'Não sou meu tipo de homem' diz Antonio Fagundes

Em entrevista ao videocast 'Conversa vai, conversa vem', ator fala de 'Dois de nós', peça com que celebra 60 anos de carreira, critica individualidade da sociedade atual e diz que se recusa a ser refém do celular: 'Whatsapp é uma vez por dia'

Agência O Globo - 28/06/2026
'Não sou meu tipo de homem' diz Antonio Fagundes
Antonio Fagundes - Foto: Reprodução / Instagram

Antonio Fagundes

Claudia Raia:

Deborah Colker:

Fato é que Fafá prefere levar a vida rindo de si mesmo. Um detalhe no visual com que surge para dar esta entrevista é prova disso, afinal, “quem põe uma meia assim não pode se levar a sério”, afirma, apontando o tecido laranja, repleto de desenhos de sushi, que cobre seus pés. O livro embaixo do braço (“A carne”, de Rosa Montero) destaca mais um aspecto de sua personalidade: a de leitor voraz. É sobre ele — além da volta às novelas em “Quem ama cuida” e do primeiro filme com o amigo Tony Ramos — que ele discorre em participação no videocast “”, que vai ao ar nessa segunda-feira (28), às 9h, no Youtube e no Spotify. A seguir trecho da entrevista:

“Dois de nós” destaca transformações de comportamento. Te provocou a se olhar em meio a uma sociedade machista, racista, homofóbica?

Misógina... Esse é um dos méritos do Gustavo Pinheiro: discutir essa evolução do homem de 30 anos pra cá. Essa evolução que alguns homens se permitiram passar, deixar aquele machismo tóxico de lado e começar a entender que é possível ser sensível, observar o mundo com mais tranquilidade e deixar de lado alguns preconceitos, nos quais a gente foi criado. Qualquer pessoa pode se modificar. No passado a gente não consegue mexer, mas podemos mexer no presente e fazer com que o futuro seja melhor.

'Uma pessoa que retém seu foco por milionésimos de segundos, não retém nada, é um saco vazio. O teatro exige mais atenção. De preferência, em silêncio, para se jogar dentro daquela caixinha mágica, sair do seu mundo e descobrir outro'

Qual a importância da experiência teatral em tempos de pressa digital e estímulos de telas que comprometem nossa capacidade de atenção?

Escrevi uma peça em 2000, “Sete minutos”, em que brincava que esse era o tempo máximo que se consegue reter a atenção de uma pessoa. Hoje, teria que mudar o título para sete segundos. Mas não mexeria em nada justamente para deixar o alerta de que, talvez, daqui a 25 anos, sejam milionésimos de segundos. Uma pessoa que retém seu foco por milionésimos de segundos, não retém nada, é um saco vazio. O teatro exige mais que sete minutos de atenção. De preferência, em silêncio, com um belo ar-condicionado para se jogar dentro daquela caixinha mágica, sair do seu mundo e descobrir outro.

Tony Ramos: '

Bruno Gagliasso:

E com telefone desligado, o que parece impossível para muita gente que tem enfrentado, inclusive, dificuldades de concentração por causa dele...

Sim, a gente sabe que as pessoas não desligam o telefone. É um exercício que comecei a fazer e agora é natural. Meus filhos, quando querem falar comigo, ligam para a Alexandra (Martins), minha mulher, e dizem: "Fala pro o papai atender o celular". Às vezes, não sei nem onde está. WhatsApp é uma vez por dia, para ver o que aconteceu no geral, se não tem nada importante para responder. No mais, preservo a minha atenção, o meu foco. A gente acaba refém desse aparelhinho, é um vício. Em vez de ele te servir, você que está servindo a ele. O pior é que todo mundo tem consciência disso, por que a gente não consegue combater? Todo mundo com quem converso, diz: "Que maravilha! Quero fazer isso também". Por que não faz? É só fazer.

Impôs tempo determinado acessar o seu Instagram, com dois milhões de seguidores?

Só pego no domingo, quando posto um poema. Aí, faço questão de ler e curtir os comentários. Pode ver que todos são curtidos. Leio e respondo todos. Mas é minha única relação, digamos, mais profunda com o aparelhinho. É só o tempo suficiente para ver quem me mandou mensagem. Faço parte de poucos grupos, isso me dá um certo alívio também.

'Falo isso sempre: quer chegar na hora? Chega adiantado! ', diz Fagundes sobre pontualidade

Viu que começamos a entrevista 20 minutos antes? Estava em pânico, porque você se tornou essa voz ativa na defesa da pontualidade...

Opa, falo isso sempre: quer chegar na hora? Chega adiantado! Comecei a fazer isso há mais de 40 anos com as minhas peças. É preciso que se diga que não é só pontualidade, ela é a ponta desse iceberg. O cuidado que tive com a plateia começou na escolha do texto que imaginei interessar um número grande de pessoas. Não sou um pavão que está se pavoneando diante da plateia, tenho uma responsabilidade. Depois, escolho a equipe, o teatro, pelo qual pago caro. Depois são meses de ensaio até abrir as portas para o público e jogá-lo dentro daquele universo. Aí, chega uma pessoa atrasada... Não posso deixar entrar!

Mas as pessoas não lidam bem com isso. Já deu exército e polícia em porta de teatro com gente esmurrando a porta, você foi processado várias vezes...

É verdade. Deu muita confusão. São poucas pessoas, mas ruidosas, fazem barulho, quebram a porta do teatro, são mal educadas. Fui processado umas dez vezes, mas a gente acaba ganhando sempre. Porque está escrito lá, eu anuncio no material. As pessoas falam: "É um desrespeito com o artista". Não! Pode fazer barulho, acender a luz que continuamos fazendo teatro, somos treinados pra isso. Se não, não conseguiríamos fazer teatro de rua, com ônibus passando, gente atirando coisa. Temos essa possibilidade de fazer "apesar da plateia', mas não queremos que seja assim. É para ela que estamos fazendo. Não queremos barulho para não atrapalhar quem concordou com esse contrato entre nós: "Vai nesse endereço, tal hora, te dou esse lugar na fila X, você senta, fica quietinho que vou te contar uma história por duas horas que vai modificar sua vida".

É verdade que deixou de ir ao cinema por causa da falta de educação das pessoas?

Com certeza! Está sendo muito chato. Não é nem o fato de ficarem comendo ou falando, é porque não estão interessadas em quem está ao lado. Então, me pergunto: "Por que não fica em casa falando no celular?". Não precisa ir atrapalhar os outros.

'Não faço teatro só pelo que quero dizer, mas se entendo que tem um número grande de pessoas que podem quere ouvir o que quero dizer. Como tenho na cabeça que quero me relacionar com a plateia, acaba dando certo'

“Dois de nós” teve público de 200 mil; sua peça anterior, “Baixa terapia”, de 400 mil; “Morte acidental de um anarquista”, de 1982, de um milhão. Qual é o segredo para popularizar textos inteligentes e ter essa comunicação tão forte com a plateia?

Sabe que sou acusado disso? De me comunicar muito com a plateia, de fazer teatro comercial, termo completamente idiota. Sempre fiz questão de transitar por todos os gêneros. Não existe teatro comercial. Musical, drama, tragédia, comédia, teatro de rua, de vanguarda, teatro experimental... Tudo isso é um teatro só. E assunto é tudo que importa. Não faço teatro só pelo que quero dizer, mas se entendo que tem um número grande de pessoas que podem quere ouvir o que quero dizer. Como tenho na cabeça que quero me relacionar com a plateia, acaba dando certo.

'Esse Antonio Fagundes que me acusam de ser, começou também um dia. Não sou o rei do gado há 60 anos'

Desde 1970 foi fazendo um fundo de caixa e já deu como garantia um Fusca 66 para colocar uma peça de pé. Tem convicção profunda em não usar leis de incentivo. Mas isso só é possível porque é o Antonio Fagundes...

Olha, eu sou o Antonio Fagundes desde que eu nasci (risos). Mas esse Antonio Fagundes que me acusam de ser também começou um dia. O fusquinha 66 era a única coisa que ele tinha. Naquele período, não era conhecido de ninguém. Estou falando na terceira pessoa, e isso é horrível... (risos)

Não, mas é que eu falei de um jeito que te provocou a falar assim (risos)...

Não sou o rei do gado há 60 anos (risos). As leis de financiamento são muito importantes. Acho que o Estado tem que patrocinar muitas coisas. Não só teatro e cinema, mas patrimônio cultural, museu, orquestra sinfônica, pesquisa. A mim incomoda o fato de eu não ter a liberdade que gosto quando tenho um patrocínio.

Acredita que o teatro pode deixar de tocar em temas contundentes por medo de não conseguir patrocínio?

Com certeza! É isso que acontece. Até porque, o gerente de marketing não é o dono do dinheiro. Se o dono da empresa for assistir à peça que a empresa dele está patrocinando e não gostar, quem perde o emprego é o gerente de marketing. Há uma série de conjunções que consigo evitar com esse fundo de caixa que comecei a fazer em 1975, com meu primeiro espetáculo. Aí, sim, é porque eu sou o Antonio Fagundes, porque penso assim há 50 anos.

Como foi voltar às novelas, em "Quem ama cuida", após seis anos afastado da TV. Sentiu diferença?

Está diferente, sim, por diversas razões. A principal delas é a tecnológica muito melhor, mais apurada, mas que exige mais tempo. E isso, para mim, é uma pena, porque a grande vantagem da televisão é exatamente a rapidez. E isso é um processo brasileiro, nenhum ator americano se submeteria ao que a gente se submete todos os dias para gravar uma novela, mesmo com a lentidão de hoje. Hoje, é uma luz mais elaborada. Antes, eram dois refletores e saía fazendo. Agora, tem lente que capta melhor a sua pele, então, tem que ser uma luz mais caprichada porque não tem pessoa que resista a isso... Aparece até os poros! Mas isso aí exige tempo. Antes, eram quatro câmeras interligadas para fazer televisão rapidamente. Um diretor de TV ia cortando as imagens de uma câmera para outra. Aquilo já saía praticamente montado. Agora, essas câmeras são independentes. Então, é um processo mais longo.

Você fez "Pra Frente Brasil", filme icônico de 1982, dirigido por Roberto Farias e sobre como o futebol foi usado de cortina de fumaça para mascarar atrocidades da ditadura. Em tempos de Copa, que reflexão podemos fazer sobre o Brasil em tempos de jogo do Tigrinho, jogadores que traem...?

É tanta pitada para botar aí que vão dizer que está exagerado (risos). "A Tropa", outra peça do Gustavo Pinheiro que vamos transformar em filme, tem uma história interessante: se passa no famoso 7x1 de Alemanha e Brasil. A história se mescla com aquela goleada, no sentido de que as coisas vão se demolindo. Uma forma boa de usar a imagem do futebol para mostrar o degringolar de uma sociedade e de relações.

Você teve uma forte atuação na redemocratização. Segue sendo político nas escolhas e na forma como conduz seus trabalhos, mas o que te afastou da política propriamente dita?

Não me afastei. Continuo atuando com o meu trabalho, nas minhas escolhas. Estou produzindo cinema sem patrocínio também. A equipe vem apostando no resultado, que distribuo para todos, que saem satisfeitos financeiramente quando dá certo. Tenho me posicionado, sim. Mas durante o período em que fui muito ativo nesse sentido, senti que conseguia colocar o cara lá, mas não conseguia tirar. Ajudava a elegê-lo, mas fazia tanta besteira que eu queria que saísse. E, aí, não tinha essa janela. Tive quando fui usado para isso, mas no momento em que quis falar "não, espera aí, com isso eu não concordo"... Cheque em branco a gente não pode dar mais.

'Meu trabalho político está sendo feito todo quando eu abro a cortina dos meus espetáculos'

Em tempos dessa polarização política insana, qual acredita ser o papel do artista no debate público?

Não sei de nenhuma peça que tenha provocado uma revolução na história da Humanidade. Mas o teatro ele modifica pessoas. E quem faz revolução são as pessoas. Então, indiretamente, a gente está contribuindo para que as coisas se modifiquem se a gente tiver a capacidade de modificar aquelas pessoas. Se eu for capaz de atingir uma pessoa sensível, talvez, ela modifique a sociedade para melhor. Meu trabalho político está sendo feito todo quando eu abro a cortina dos meus espetáculos.

'As pessoas estão deixando de se falar, de se relacionar. Eu quero que essas pessoas cresçam. E não tem forma melhor de crescimento do que através da literatura'

Sua relação com a literatura também é política visto que vivemos num país com alto grau de analfabetismo funcional... Você incentiva as pessoas a lerem, chegou aqui com um livro da Rosa Montero embaixo do braço. Sua relação com os livros começou quando a mononucleose te deixou de cama, não foi?

Imagina um menininho de seis anos de cama por seis meses? Minha mãe teve peninha e me deu uns gibis. O primeiro clássico que li foi "Os miseráveis", aos 12. Tinha uma bibliotecária no meu colégio que viu que eu gostava de ler. Tinha uns livros lá que eram proibidos pra minha idade, mas ela olhava para um lado, olhava para o outro, e me dava.

As pessoas sabem que leio muito, gosto muito de ler e me pedem dicas. Aí, escrevi o livro "Tem um livro aqui que você vai gostar" e fiz um podcast falando dos que li e gostei. Precisamos de que as pessoas se interessem mais pelo outro, estamos vivendo uma época muito fechada no eu, no próprio umbigo. As pessoas estão deixando de se falar, de se relacionar. Eu quero que essas pessoas cresçam. E não tem forma melhor de crescimento do que através da literatura.

'Não podemos abrir mão da TV aberta. É uma conquista que deveria ser preservada, porque propicia o encontro'

Novelas ajudaram a moldar a cultura brasileira. Plataformas digitais ampliaram a oferta de conteúdo, mas também fragmentaram audiências. Acha que a TV ainda tem capacidade de criar experiências coletivas, produzir fenômenos culturais que mobilizem milhões de pessoas no mesmo tempo?

Não podemos abrir mão da TV aberta. É uma conquista que deveria ser preservada, porque propicia o encontro. Faz com as pessoas discutam, no dia seguinte, sobre um tema comum. Assiste-se ao mesmo produto juntos. Isso cria um laço, um entrosamento social que nenhum outro veículo é capaz de proporcionar com essa dimensão. Um capítulo de uma novela atinge ao mesmo tempo, na TV aberta, 60 milhões de pessoas só no Brasil. Como jogar fora uma coisa dessas?

Está certo que o streaming, poder assistir a hora que você quiser, no veículo que você quiser, é uma maravilha. Mas você assistiu uma série que eu não estou assistindo, e vai me falar: "Tô assistindo a uma série.." E que: "Qual? Não, estou vendo outra". E acabou o nosso papo. Ao passo que o capítulo da novela atinge nós assistimos juntos, no mesmo horário, e vamos conversar exatamente o que se passou naquele tempo. Através da TV aberta temos a possibilidade de criar o diálogo entre as pessoas em relação a um único produto. Não consigo entender porque querem abrir mão disso... É preciso continuar investindo nessa possibilidade.

'Inteligência artificial é uma ameaça: podem pegar a nossa voz, nossa imagem, nossa interpretação e reproduzir. Daqui a pouquinho, vamos colocar na porta do teatro: 100% humano'

Enxerga a inteligência artificial como ameaça à criatividade humana?

Daqui a pouquinho, vamos colocar na porta do teatro: 100% humano. Porque pode acontecer de criarem uma holografia ou robôs de Antonio Fagundes e Christiane Torloni (casal icônico da TV e do cinema, que se encontra pela primeira vez no teatro, na peça "Dois de nós") interagindo com plateia também de robôs. É exponencial o crescimento da tecnologia e não sabemos onde vai dar, nenhum futurólogo é capaz de dizer o que vai acontecer. Não temos mais controle, tudo pode acontecer. Menos no teatro.

É uma ameaça: podem pegar a nossa voz, nossa imagem, nossa interpretação e reproduzir. Sabemos que a inteligência artificial vai fazer um filme com um cara que morreu. Mas não é possível se relacionar com um robô da mesma forma com que se relaciona com um ser humano. E isso o teatro proporciona todos os dias. É por isso que vemos um único espetáculo quando vamos ao teatro. Aquele espetáculo jamais se reproduzirá. Aquela energia, no dia seguinte, mesmo que sejam as mesmas pessoas, não será a mesma. Essa magia só o teatro tem.

'Não sou meu tipo de homem. O fato de ser considerado bonito pode ser uma coisa boa. Mas é vazio se for só isso. Ser bonito pode ser um primeiro passo para ser outras coisas: inteligente, sensível, honesto, íntegro, talentoso...'

Em 2020, você me disse que não se especializou em ser galã, que este é um posto que as pessoas te colocam. E me disse também nunca entendeu quando dizem que é bonito porque não é seu tipo de homem. Qual é o seu tipo de homem?

Não sou meu tipo de homem mesmo (risos). Um Brad Pitt, um Alain Delon, um Marcello Mastroianni... Isso é homem bonito. O fato de ser considerado bonito pode ser uma coisa boa. Mas é vazio se for só isso. Geralmente, quando falam que você é galã, estão querendo te ofender de alguma forma. Dizendo que é só uma casca e não tem mais nada ali dentro. Como não me acho um homem bonito, esse tipo de ofensa nunca me atinge. Ser bonito pode ser um primeiro passo para ser outras coisas: inteligente, sensível, honesto, íntegro, talentoso e vai embora...

Em 1981, fez o seriado 'Amizade Colorida', e dirigiu um episódio batizado de 'Beleza', que colocava o homem no lugar de objeto sexual como a mulher havia sido colocada a vida inteira. Tinha essa consciência lá atrás?

Claro que tinha! Escrevi três episódios para o 'Amizade Colorida' que, depois, foi proibido pela censura da ditadura. Uma coisa idiota. Se pusesse no ar hoje poderia ser 10h da manhã, porque é pra criança (risos)... Os episódios que escrevi falavam dessa relação do homem numa sociedade machista e os problemas que a mulher enfrentava dentro dessa sociedade. "Beleza", como você disse, foi o homem como objeto sexual; "Barriga", era sobre um homem que fica grávido; e "Bagunça", sobre um homem dentro de casa enquanto a mulher ia trabalhar.

O que acha do olhar revisionista para produções do passado?

Acho que não se pode apagar o passado, que é ruim destruir a estátua do escravocrata. Talvez, tenha errado em fazer aquele estátua do ponto de vista atual. Mas, na época, foi importante por alguma razão, porque aquela sociedade era escravocrata. Então, nada melhor do que honrar um escravocrata fazendo uma estátua. Destruí-la significa destruir uma referência do passado que talvez seja interessante manter para que não se reproduza. Se apagar, pode cometer aqueles erros outra vez. Em vez de destrui-la, coloque num determinado lugar com a explicação do que era a escravidão. Talvez esteja contribuindo mais do que destruir simplesmente. Revisitar o passado pode ser ruim no sentido de julgar com valores de hoje uma coisa que as pessoas naquela época não tinham condições de julgar. Temos uma geração de pessoas que nasceram depois da ditadura, que não têm a menor ideia do mal que isso fez para a sociedade brasileira, querendo voltar a isso exatamente pelo desconhecimento.

Mas a premissa do seu personagem Felipe Barreto, de "O dono do mundo", era surreal: ele apostava que tiraria a virgindade da protagonista, vivida por Malu Mader...

Você acha surreal, Maria? Olha que não. É o que estávamos falando: ainda há. É só ler o jornal atentamente que vai encontrar um mundo de cafajestes ainda assim.

'As pessoas têm uma visão estranha de mim. Um cara que tem coleção de patinho e usa esse tipo de meia topa qualquer coisa'

Em 2023, você viralizou com aquele vídeo hilário do Porta dos Fundos sobre exame de próstata. O publico te viu de uma maneira diferente, soltando o maior palavrão cabeludo. O que te levou a topar?

As pessoas têm uma visão estranha de mim. Um cara que tem coleção de patinhos e usa esse tipo de meia topa qualquer coisa (risos). Aquilo era maravilhoso e sobre saúde de uma forma que consegue aproximar as pessoas: rindo. Não tem coisa melhor. Se riu de um problema, resolveu 50% dele; os outros 50% vão sair fáceis. Teve gente que ficou ofendida com aquilo, mas esses, realmente, não têm saída.

Como se sente aos 77 anos? Chegou a enfrentar sintomas da andropausa, como variações de humor e disfunção erétil?

Que me lembre, não. Não sei quem estava à minha volta sentiu (risos). Acho que a idade só aparece para quem não está bem de saúde e que a longevidade só interessa se tiver qualidade de vida e possibilidade de usufruir. Aí, não importa a idade... Não consigo me imaginar com 77 anos porque não tenho as mazelas que alguém com essa idade tem. A dor nas costas e a diabetes estão controladas. E estou produzindo. Minha vida acaba sendo bastante satisfatória. Me comunico com um grande público, não consigo imaginar fazer um espetáculo para 20 pessoas.

Mas já fez para apenas uma pessoa...

Fiz, mas não foi porque eu quis, é que não tinha mais gente na plateia (risos), ninguém queria ver. Foi "Muro de arrimo", enorme sucesso em São Paulo, que ficou um ano e meio em cartaz e, quando chegou no Rio, não foi bem a ponto de eu ter um espectador na plateia. Mas fiz um espetáculo maravilhoso, que deu três cortinas. Sabe o que é cortina, né? É quando aplaudem no final, fecha a cortina, continuam aplaudindo, abre de novo, e fecha novamente. Era um cara sozinho na plateia.

Espero que, dessa vez, tenha mais sucesso no Rio...

Estamos recebendo mensagens muito bonitas de pessoas do Rio que estão acompanhando nossa temporada e reclamando que a gente não veio ainda. Estamos chegando para com muito carinho para atendê-las.