Curiosidades
Stefano Mancuso revela 'superpoderes' do mundo vegetal: 'Nosso ego não reconhece as habilidades das plantas'
Pioneiro da neurobiologia vegetal, cientista italiano lança seu novo livro, 'Fitópolis', e ganha exposição baseada em sua obra
Autor de livros como “A incrível viagem das plantas”, “O mundo das plantas” e o recém-lançado “Fitópolis — A cidade viva”, todos editados por aqui pela Ubu, o biólogo Stefano Mancuso desafia velhos preconceitos sobre o mundo vegetal. Para ele, plantas são seres dotados de inteligência, memória e capacidade de tomar decisões. Duas décadas atrás, o italiano fundou a chamada neurobiologia vegetal, um campo científico provocador dedicado a demonstrar que as plantas são capazes de perceber, aprender e até mesmo se “movimentar”.
Detetives de sofá:
Menos família tradicional e mais 'Friends':
Visionário para alguns de seus pares, excêntrico para outros, o polêmico Mancuso se tornou uma figura influente fora do campo científico, promovendo intersecções com as ciências sociais, o urbanismo e a arte. No início do mês, o professor da Universidade de esteve pela primeira vez no Brasil, onde participou de uma série de palestras no e em .
Ele conversou com O GLOBO antes de participar da abertura da exposição “Revolução das Plantas”, que ficará em cartaz até 10 de outubro na galeria de arte do Centro de Ciências e Culturas Sesc RJ (CCCS), no Centro do Rio. Inspirada em seu best-seller homônimo, a mostra reúne obras de artistas como Luiz Zerbini, Moara Tupinambá e Renata Padovan, entre outros.
— A ciência tradicional trata as plantas como organismos passivos porque as vê como incapazes de fazer qualquer coisa — explica o italiano de 51 anos, membro do comitê diretor da Society of Plant Signaling and Behavior, organização dedicada a estudar a forma como as plantas processam informações. — Como temos tendência a projetar, achamos que plantas não podem ver porque não têm olhos, não podem ouvir porque não têm ouvidos, ou não podem pensar porque não têm cérebro. Mas, para mim, é insano imaginar que a inteligência seja apenas o resultado de um órgão como o cérebro. Vamos colocar em perspectiva: só os animais têm cérebro e eles representam apenas 0,3% do planeta. Já as plantas formam 85%. Me recuso a acreditar que esse 85% seja estúpido.
Mesmo representando a maior biomassa do planeta, o mundo vegetal é relegado a um status de coadjuvante na nossa experiência terrestre. Se depender da revolução proposta por Mancuso, porém, as plantas ofereceriam lições e alternativas a uma Humanidade cada dia mais ensimesmada. Em “O mundo das plantas”, por exemplo, o cientista mostra como a organização descentralizada das plantas podem nos ensinar novos sistemas sociais. Em “A Nação das Plantas”, redige uma hipotética Carta Magna do reino vegetal. Agora, em “Fitópolis”, critica as cidades planejadas para “monoculturas humanas” e imagina centros urbanos como verdadeiros ecossistemas.
Androide raiz
Ler e ouvir Mancuso é descobrir uma gama de habilidades vegetais que parecem superpoderes ocultos. Seus experimentos descrevem raízes super sensíveis, capazes de alterar suas rotas com antecedência para evirar obstáculos. Sem cérebro, olhos ou ouvidos, as plantas processariam informações por meio de uma anatomia difusa, percebendo luz, reagindo a ameaças e tomando decisões com o corpo inteiro. E há ainda a “linguagem vegetal”: uma troca constante de informações complexas via moléculas químicas, permitindo-lhes pedir socorro e emitir alertas umas às outras.
As experiências do cientista abriram caminho para uma engenharia nova: a tecnologia inspirada em plantas. Fundado por ele em 2005, o Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal (LINV) elaborou o primeiro plantoide, um androide baseado em raízes e especialista em analisar informações de um terreno.
— Se tivéssemos que imitar as plantas em apenas uma coisa, eu escolheria a organização — diz Mancuso. — Nós, humanos e animais, somos organizados de uma forma muito primitiva. Temos um chefe e, abaixo dele, órgãos especializados a executar a decisão tomada por esse chefe. Nas plantas, não há hierarquia, a organização é distribuída. As decisões são tomadas no nível exato onde os problemas acontecem.
'Animalocentrismo'
Todas essas habilidades apontadas, contudo, seguem sendo ignoradas pelo que Mancuso chama de “animalocentrismo”. Ele lista alguns exemplos pertinentes desse bloqueio, das constituições dos países que ignoram as plantas a termos médicos como “estado vegetativo”, que associa a vida vegetal a uma quase morte. Nem a cultura pop escapa, como os alienígenas quase sempre antropomórficos da ficção científica ou a farta galeria de Homens-Aranha, Homens-Formiga e Homens-Morcego nos quadrinhos. Afinal, onde estão os super-heróis inspirados em plantas?
— Nosso ego é incapaz de reconhecer as habilidades das plantas, em parte porque o movimento é a coisa mais importante que podemos imaginar — lamenta Mancuso. — É assim que lidamos com os problemas: fugindo deles. Mas, em 90% das vezes em que dizemos que “resolvemos um problema”, o que queremos dizer é que escapamos dele. O problema continua no mesmo lugar, nós é que não estamos mais sob o efeito dele porque nos movemos. No caso da planta, como isso não é possível, ela precisa resolver o problema de fato, com soluções a longo prazo.
As ideias de Mancuso ainda encontram certa resistência na comunidade científica. Segundo ele, porém, apenas a “velha geração de cientistas de plantas” ainda se opõe a falar sobre inteligência vegetal.
— Você nunca encontrará esse tipo de oposição em pessoas que trabalham com neurobiologia ou em outros campos da biologia — afirma.
O poder das comunidades
Ainda assim, a maneira com que o cientista critica nossa relação de superioridade com as plantas irrita algumas mentes mais conservadoras. Ele se lembra de como, cerca de dois anos atrás, uma resposta sua tirou do sério uma jornalista francesa. Ao ouvir do entrevistado que éramos dependentes das plantas, ela esbravejou: “Ah non, là c’est trop, professeur” (“ah não, aí já é demais, professor”).
A participação de Mancuso na Feira do Livro de São Paulo, no último dia 4, também deu o que falar. Na sua palestra sobre o futuro das cidades, afirmou que os humanos são a “espécie mais burra que já apareceu no planeta”. Ao contrário das plantas, que trabalham pelo coletivo, não pensamos na nossa própria preservação como grupo, argumenta o neurobiólogo.
— A evolução não funciona por meio de indivíduos, mas por meio de comunidades — explica Mancuso. — No século XIX a Teoria da Evolução de Darwin, que era um sujeito muito inteligente, foi totalmente distorcida para justificar o acúmulo de riqueza do século XIX. Mas agora biólogos maravilhosos já nos mostram que a cooperação é sempre uma forma muito mais eficiente de garantir a sobrevivência. Normalmente pensamos que, quanto menos recursos existem, mais competimos. Mas na natureza é o oposto: quanto menos recursos, mais se coopera.
Inspiração nas artes
Ainda que se baseie em provas científicas, Mancuso não se limita à realidade fria dos laboratórios. Incorporando a produção artística e outros aspectos mais lúdicos, sua pesquisa é hoje “90% diversão”.
— Na ciência, se você não for criativo, você não é nada — diz Mancuso. — Os pesquisadores precisam apresentar resultados sólidos, então costumam optar por algo que eles sabem que será aprovado pela comunidade científica. Mas a pesquisa real, sem redes de proteção, consiste em fazer algo que nunca foi feito antes.
Ele conta que, de todos os livros espalhados por sua mesa de trabalho, apenas 1% trata de seu foco, as plantas. Sua inspiração se espalha por literatura, cinema, música, quadrinhos e artes visuais. Recentemente, ao escrever um artigo sobre inteligência artificial, que ele considera um dos túmulos da criatividade contemporânea, recorreu a um diálogo de “Os irmãos Karamázov”, de Dostoiévski, para estruturar sua reflexão.
— Eu acredito que ler literatura seja o verdadeiro caminho para o novo — diz Mancuso. — Uma das minhas principais atividades hoje é usar a arte e os artistas para transmitir mensagens importantes.
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